NOAA projeta 83% de chance de El Niño forte em 2026. MetSul alerta para risco de chuvas intensas, enchentes e ciclones no Sul do Brasil.
Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu o maior desastre climático de sua história. Enchentes e deslizamentos provocados por volumes de chuva sem precedentes destruíram cidades inteiras, mataram mais de 150 pessoas, desabrigaram mais de 600.000 e causaram prejuízos estimados em R$ 89 bilhões. O principal responsável pelo cenário meteorológico foi o El Niño — o aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial que, quando ativo, mantém o Sul do Brasil sob chuva recorrente por semanas consecutivas, saturando o solo e deixando rios, arroios e barragens sem margem para absorver novos volumes.
O El Niño de 2023–2024 foi o mais forte em décadas. Ele terminou. Mas agora, com 83% de probabilidade segundo projeções da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) e análise publicada pela MetSul Meteorologia na semana de 12 de março de 2026, um novo episódio está a caminho — com trajetória semelhante, intensidade comparável e potencial para novamente colocar o Sul do Brasil sob episódios prolongados de chuva extrema.
“A eventual atuação do El Niño no próximo ano não implica que haverá uma repetição do desastre de 2024, mas um agravamento do risco de que se repita”, escreveram os meteorologistas Estael Sias e Luiz Fernando Nachtigall, da MetSul Meteorologia, em análise publicada em novembro de 2025.
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Essa frase, lida com atenção, revela um ponto mais crítico do que qualquer previsão direta de catástrofe: o ambiente ficará mais vulnerável. E, em um ambiente mais vulnerável, não é necessário repetir 2024 para causar destruição.
Previsão da NOAA para o El Niño 2026: probabilidades crescem até 83% no segundo semestre
As projeções mais recentes da NOAA, atualizadas na segunda semana de março de 2026, indicam um aumento progressivo na probabilidade de formação do El Niño ao longo do ano. No outono do Hemisfério Sul — entre março e maio — o Pacífico permanece em condição neutra, com cerca de 93% de probabilidade de neutralidade até maio. Esse período é caracterizado como fase de transição, quando o aquecimento começa nas regiões Niño 1+2 e Niño 3, próximas à costa da América do Sul.
A partir do inverno, o cenário muda de forma consistente. As probabilidades sobem para:
- 62% entre junho e agosto
- 72% entre julho e setembro
- 80% entre agosto e outubro
- 83% entre outubro e dezembro de 2026
Esse último trimestre coincide exatamente com a primavera e o início do verão — período em que o El Niño historicamente atinge seu pico de impacto sobre o Sul do Brasil.
A MetSul destaca um ponto crítico: há possibilidade de início precoce do fenômeno, com aquecimento já entre maio e junho.
- Início precoce.
- Com intensidade moderada a forte.
- Em uma região que ainda não se recuperou de 2024.
Como o El Niño provoca chuvas persistentes no Sul do Brasil e aumenta o risco de enchentes
Para entender por que meteorologistas não falam apenas em “chuvas intensas”, mas sim em semanas consecutivas de chuva acima da média, é necessário compreender o mecanismo climático do El Niño. O aquecimento do Pacífico Equatorial altera a circulação atmosférica na América do Sul, favorecendo:
- maior frequência de frentes frias e quentes
- formação de sistemas de baixa pressão persistentes
- criação de um corredor de umidade contínuo sobre o Sul do Brasil
A palavra-chave é persistência. O problema não é apenas uma chuva extrema em um único dia. É a repetição contínua. Sistemas de baixa pressão permanecem ativos por dias ou semanas, alimentados pela umidade oceânica.

No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, isso resulta em solo saturado, rios elevados e sistemas de drenagem no limite. Nesse cenário, qualquer nova chuva — mesmo moderada — pode provocar:
- transbordamentos
- enxurradas
- inundações generalizadas
Não é necessário repetir 2024. Basta que o solo já esteja saturado.
Previsão meteorológica para 2026: inverno mais úmido e risco de eventos extremos
Segundo o meteorologista Piter Scheuer, em entrevista publicada pelo ND Mais em março de 2026, o padrão climático do Sul do Brasil pode se alterar significativamente.
“O Sul do Brasil terá chuvas próximas ou acima da média, com cheias, alagamentos, enxurradas e tempo severo frequente.”
A previsão inclui também a possibilidade de ciclones extratropicais — fenômeno comum na região, mas potencialmente intensificado pelo aquecimento oceânico associado ao El Niño.
O inverno de 2026, segundo Scheuer, deve ser:
- mais úmido
- menos frio
- com menor duração de períodos secos
“Se houver um dia de geada, no dia seguinte pode já estar chovendo.”
Isso representa uma quebra do padrão tradicional do inverno no Sul, que historicamente ajuda a reduzir a umidade do solo. Em 2026, o inverno pode fazer o oposto: preparar o terreno para eventos extremos na primavera.
Primavera de 2026: risco elevado de temporais, enchentes e complexos convectivos
A primavera concentra o maior risco climático em anos de El Niño. Segundo o meteorologista Vinicius Lucyrio, da Climatempo, esse período pode registrar:
- chuvas mais abrangentes
- temporais severos
- enchentes generalizadas
- ocorrência de Complexos Convectivos de Mesoescala (CCMs)
Os CCMs são sistemas de tempestade que podem cobrir centenas de quilômetros e despejar grandes volumes de chuva em poucas horas. São mais frequentes em anos de El Niño.
E não se limitam ao Sul. A instabilidade pode atingir também Mato Grosso do Sul e áreas do estado de São Paulo.
Rio Grande do Sul ainda não se recuperou de 2024 e isso aumenta o risco em 2026
Um fator frequentemente ignorado nas análises climáticas é o estado atual da infraestrutura. O Rio Grande do Sul ainda não se recuperou do desastre de 2024.

Dados de 2025 indicam:
- mais de 422.000 residências afetadas
- 4.400 km de rodovias danificados
- 15.000 km de ruas urbanas comprometidos
- 290 sistemas de abastecimento impactados
O custo estimado de reconstrução chegou a R$ 89 bilhões. Em março de 2026, muitas dessas estruturas ainda não haviam sido totalmente reconstruídas.
Isso significa:
- menor capacidade de contenção de cheias
- margens de rios mais frágeis
- comunidades ainda vulneráveis
Em junho de 2025, mesmo sem El Niño, o Rio Jacuí atingiu níveis próximos aos da cheia histórica de 1941. Ou seja: eventos extremos já estão ocorrendo mesmo em condições neutras. Com El Niño ativo, o risco aumenta.
O que ainda não se sabe sobre o El Niño 2026 — e por que isso é decisivo
A MetSul é clara ao apontar os limites da previsão. A intensidade final do fenômeno ainda depende das próximas atualizações dos modelos climáticos. Se confirmado, o El Niño pode se estender até 2027.
Esse nível de incerteza não reduz o risco — ele o qualifica. Os dados disponíveis em março de 2026 permitem afirmar com precisão:
- há 83% de probabilidade de El Niño no fim de 2026
- a intensidade tende a ser moderada a forte
- o Sul do Brasil terá chuvas mais frequentes e persistentes
E entrará nesse cenário sem ter concluído a recuperação do maior desastre climático da sua história.
El Niño 2026 não será igual a 2024, mas o risco climático será maior

2026 não é 2024. Pode ser menos extremo. Pode ser mais severo. Mas será diferente da neutralidade climática que o Sul do Brasil precisaria para se recuperar completamente.
E é exatamente isso que NOAA e MetSul estão indicando: o tempo de recuperação que a região precisava não deve acontecer.
O cenário projetado é outro:
- mais chuva,
- mais persistência,
- menos margem de erro.
