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A NASA separou dois irmãos gêmeos idênticos por 340 dias e transformou um deles em laboratório humano no espaço: o experimento revelou mudanças em genes, sistema imunológico, microbioma e cognição, além de um surpreendente efeito de “rejuvenescimento” que expôs o impacto de viver longe da Terra

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 19/06/2026 às 22:15
Atualizado em 19/06/2026 às 22:17
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Estudo da NASA com Scott e Mark Kelly revelou mudanças
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Estudo da NASA com Scott e Mark Kelly revelou mudanças em telômeros, genes, imunidade e cognição após 340 dias na ISS.

Em março de 2015, a NASA colocou em prática um dos experimentos mais importantes já feitos sobre os efeitos do espaço no corpo humano. O astronauta Scott Kelly passou 340 dias consecutivos a bordo da Estação Espacial Internacional, enquanto seu irmão gêmeo idêntico, Mark Kelly, permaneceu na Terra como grupo de controle. Os resultados integrados do chamado Twins Study foram publicados em 2019 na revista Science, transformando o experimento em uma referência da medicina espacial moderna.

O ponto central do estudo não foi provar uma mutação definitiva do organismo humano, mas mostrar que a permanência prolongada no espaço produz mudanças reais e mensuráveis em processos biológicos cruciais.

Segundo a NASA, houve alterações em telômeros, expressão gênica, imunidade, microbioma intestinal e desempenho cognitivo, com parte dessas respostas retornando ao padrão anterior após o pouso e outra parte permanecendo alterada por mais tempo.

Scott Kelly no espaço e Mark Kelly na Terra criaram um dos controles biológicos mais valiosos da medicina espacial

A força científica do experimento esteve justamente na comparação entre dois irmãos com praticamente o mesmo material genético. De acordo com a NASA, esse desenho permitiu observar com muito mais precisão o que era efeito do ambiente espacial e o que poderia ser apenas variação biológica normal entre indivíduos diferentes.

O estudo reuniu 10 equipes de pesquisa e integrou análises fisiológicas, moleculares e cognitivas em uma única base de observação.

Um astronauta passou 340 dias no espaço enquanto o irmão gêmeo ficou na Terra, e a NASA encontrou efeito “rejuvenescedor”, genes, microbioma, cognição e sistema imunológico que revelaram o preço biológico de viver fora do planeta
Foto: Divulgação

Esse modelo elevou o Twins Study a um patamar raro dentro da pesquisa biomédica aplicada ao voo espacial. Em vez de medir apenas efeitos isolados, os pesquisadores puderam comparar respostas do corpo em múltiplos níveis, da atividade dos genes à cognição, usando um controle biológico quase ideal.

Por isso, o experimento passou a ser tratado como um marco para o planejamento de missões longas, especialmente aquelas voltadas à Lua e a Marte.

Telômeros mudaram no espaço e derrubaram explicações simplistas sobre envelhecimento fora da Terra

Um dos achados mais chamativos envolveu os telômeros, estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos e costumam ser associadas ao envelhecimento celular.

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Segundo a NASA, Scott Kelly apresentou uma mudança relevante na dinâmica de comprimento dos telômeros durante o voo e também nos dias imediatamente posteriores ao retorno. O dado surpreendeu os pesquisadores porque mostrou que a biologia celular em microgravidade não segue um comportamento simples nem linear.

O resultado não autoriza a leitura apressada de que o espaço “rejuvenesce” o corpo humano. O que o estudo mostrou foi uma desorganização temporária e complexa desse marcador biológico, seguida de reajustes rápidos após a volta à Terra.

A própria NASA incluiu a dinâmica dos telômeros entre os poucos fatores que ainda permaneciam alterados ao fim do acompanhamento, o que reforça o peso desse achado para futuras missões de longa duração.

Expressão gênica sob estresse revelou adaptação intensa do organismo ao ambiente espacial

Outro núcleo decisivo do estudo foi a análise da expressão gênica, isto é, da forma como o organismo ativa ou reduz a atividade de determinados genes em resposta ao ambiente.

A NASA informa que amostras colhidas antes, durante e depois da missão mostraram alterações importantes em Scott Kelly, enquanto Mark Kelly exibiu apenas mudanças dentro da faixa considerada normal na Terra.

A maior parte dessas alterações, cerca de 91,3%, voltou ao nível basal após o retorno, mas um pequeno subconjunto permaneceu diferente mesmo depois de seis meses.

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Essas mudanças se conectaram a outros sinais observados no estudo, incluindo resposta a dano no DNA, regulação dos telômeros, formação óssea e estresse imunológico.

A NASA afirma ainda que parte do dano observado ao DNA provavelmente esteve ligada à exposição à radiação, um dos riscos centrais do voo espacial prolongado. Em termos práticos, o resultado mostra que o corpo não “desliga” no espaço: ele entra em modo de adaptação contínua, redesenhando processos internos para suportar um ambiente extremo.

Sistema imunológico permaneceu funcional e o microbioma intestinal mudou de forma profunda

No campo da imunologia, o estudo trouxe uma notícia relevante para futuras expedições. Segundo a NASA, Scott Kelly recebeu três vacinas contra gripe em momentos diferentes, incluindo uma aplicação no espaço, e o organismo respondeu de forma adequada.

Esse resultado deu mais segurança à agência para considerar que o sistema imunológico pode continuar funcional mesmo em missões prolongadas, algo crucial para tripulações que ficarão meses longe da Terra.

Estudo da NASA com Scott e Mark Kelly
ilustração de Estudo da NASA com Scott e Mark Kelly

Ao mesmo tempo, o microbioma intestinal de Scott ficou profundamente diferente durante o voo em comparação ao período pré-missão. A NASA atribui essa mudança possivelmente à alimentação da estação e a outros fatores específicos do ambiente espacial.

Depois do retorno, a flora intestinal voltou ao estado anterior ao voo, o que foi visto como um sinal encorajador. Ainda assim, o estudo reforçou que o espaço afeta não só tecidos e órgãos humanos, mas também o ecossistema microscópico que ajuda a regular digestão, metabolismo e imunidade.

Queda cognitiva apareceu sobretudo depois do pouso e acendeu alerta para missões longas

Um dos resultados mais importantes para operações futuras apareceu na parte cognitiva. A NASA relata que, com poucas exceções, o desempenho mental de Scott Kelly permaneceu largamente estável durante a missão, inclusive em testes de alerta, orientação espacial e reconhecimento emocional.

O problema mais forte surgiu depois do pouso, quando houve uma queda mais pronunciada na velocidade e na precisão de algumas tarefas, persistindo por cerca de seis meses.

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Esse detalhe muda a forma como o tema costuma ser resumido. O principal risco cognitivo apontado pelo Twins Study não foi exatamente uma degradação contínua ao longo do voo, mas uma dificuldade mais marcada na readaptação à gravidade terrestre e ao período imediatamente posterior à missão.

Para programas tripulados de exploração, isso é decisivo: astronautas que precisarem pousar e executar tarefas complexas logo depois de meses no espaço podem exigir protocolos mais robustos de recuperação e recondicionamento.

Estudo da NASA virou peça central no debate sobre Lua, Marte e limites biológicos da exploração humana

A própria NASA descreve a missão de Scott Kelly como um degrau científico para viagens ainda mais longas, incluindo expedições a Marte, que podem consumir anos entre ida, permanência e volta. O valor do Twins Study está justamente em mostrar que o corpo humano consegue se adaptar ao espaço, mas não sem custo biológico.

Vários sistemas retornaram ao padrão anterior, porém outros deixaram sinais persistentes que exigem monitoramento, contramedidas médicas e planejamento operacional muito mais sofisticado.

No balanço final, o estudo não sustenta nem o alarmismo fácil nem o otimismo ingênuo. O que ele entrega é algo mais útil e mais sério: um mapa concreto dos ajustes que o organismo humano precisa fazer para suportar meses em órbita.

Para a exploração tripulada do espaço profundo, isso significa que tecnologia de navegação e propulsão não bastará sozinha. A fronteira também será biológica, e o Twins Study mostrou, com dados reais, onde essa disputa começa.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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