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A Foxconn, gigante taiwanesa que fabrica iPhones para o mundo inteiro, quer transformar Jundiaí num polo de carros elétricos para toda a América Latina usando o mesmo modelo de fabricação sob contrato que revolucionou a indústria de celulares e agora promete fazer qualquer empresa vender veículo elétrico sem precisar ter fábrica própria

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 06/05/2026 às 11:54 Atualizado em 06/05/2026 às 11:57
A Foxconn quer fazer de Jundiaí polo de carros elétricos para a América Latina. Fabricação sob contrato pode revolucionar o setor automotivo.
A Foxconn quer fazer de Jundiaí polo de carros elétricos para a América Latina. Fabricação sob contrato pode revolucionar o setor automotivo.
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Segundo o portal CanalTech, a Foxconn, maior fabricante de eletrônicos do mundo e responsável pela montagem dos iPhones da Apple, anunciou planos de transformar sua unidade em Jundiaí (SP) em polo de produção de carros elétricos para a América Latina. O modelo é o mesmo que a taiwanesa aplicou nos celulares: fabricação sob contrato, em que a Foxconn produz o veículo e a marca parceira cuida do design, do marketing e da venda. A estratégia usa a plataforma modular MIH, desenvolvida pela própria empresa, que permite montar diferentes modelos de carros elétricos sobre a mesma base.

A Foxconn quer fazer com carros elétricos o que já fez com celulares: fabricar para os outros. A gigante taiwanesa que monta iPhones, iPads e consoles de videogame para marcas como Apple, Sony e Nintendo anunciou que pretende transformar sua unidade em Jundiaí, no interior de São Paulo, em polo de produção de veículos elétricos para toda a América Latina. O modelo é o da fabricação sob contrato: a Foxconn cuida da fábrica, da engenharia e da montagem, enquanto a marca parceira fica com o design, o marketing e a venda ao consumidor.

A aposta não é pequena: a Foxconn movimenta mais de US$ 200 bilhões por ano em receita global e tem a escala industrial para produzir praticamente qualquer coisa que tenha circuito elétrico. O que muda agora é o produto. Em vez de smartphones, a fábrica de Jundiaí passaria a montar carros elétricos sobre a plataforma modular MIH (Mobility in Harmony), desenvolvida pela própria Foxconn em parceria com mais de 2.700 empresas do ecossistema automotivo global. A plataforma permite que diferentes marcas lancem veículos com identidade visual própria sobre a mesma base mecânica e eletrônica.

O que é fabricação sob contrato e por que isso muda o jogo

O modelo que a Foxconn quer aplicar aos carros elétricos é o mesmo que transformou a indústria de eletrônicos nas últimas três décadas. Na fabricação sob contrato, a empresa que aparece na embalagem não é a mesma que montou o produto. A Apple projeta o iPhone, define especificações e controla o software, mas quem solda as placas, monta a tela e embala o aparelho é a Foxconn, em fábricas espalhadas pela China, Índia, Vietnã e, no caso do Brasil, em Jundiaí.

Aplicado ao setor automotivo, o modelo significa que uma marca de moda, uma empresa de tecnologia ou até uma startup sem nenhuma experiência em montagem pode lançar um carro elétrico com seu nome. A Foxconn fornece a plataforma, a fábrica e a capacidade de produção; o cliente fornece a marca e o mercado. É o oposto do que a indústria automotiva fez por um século, quando cada montadora precisava ter suas próprias linhas de produção, fornecedores exclusivos e bilhões em investimento fabril.

A plataforma MIH: a base que permite montar qualquer carro

A MIH (Mobility in Harmony) é a peça central da estratégia da Foxconn para o setor automotivo. A plataforma é um chassi modular com motor elétrico, bateria, suspensão e sistemas eletrônicos integrados, sobre o qual diferentes carrocerias podem ser montadas. O conceito é semelhante ao que o Grupo Volkswagen faz com a plataforma MEB (usada em ID.3, ID.4 e outros), mas com uma diferença fundamental: a MIH é aberta e disponível para qualquer marca que queira contratar a Foxconn como fabricante.

Foxtron Model C foi apresentado no final de 2025 — Foto: Bloomberg/Getty Images

O consórcio MIH já reúne mais de 2.700 empresas parceiras em todo o mundo, incluindo fornecedores de baterias, semicondutores, software automotivo e componentes de segurança. A Foxconn já apresentou três protótipos baseados na plataforma: o Model C (SUV), o Model E (sedã de luxo) e o Model T (ônibus elétrico), demonstrando que a base é versátil o suficiente para atender desde transporte urbano até veículos de passeio. Em Taiwan, a montagem do Model C já começou em parceria com a Yulon Motor, sob a marca Luxgen.

Por que Jundiaí e por que a América Latina

A escolha de Jundiaí não é aleatória. A Foxconn já opera na cidade desde 2005, quando instalou a fábrica que monta iPhones e outros eletrônicos para o mercado brasileiro. A infraestrutura existe, a cadeia de fornecedores locais está parcialmente montada e a localização no interior paulista oferece acesso logístico privilegiado: Jundiaí fica a 60 km de São Paulo, no entroncamento das rodovias Anhanguera e Bandeirantes, com acesso direto ao porto de Santos e ao aeroporto de Viracopos.

Para a América Latina, o Brasil é a porta de entrada natural. O país é o maior mercado automotivo da região, com mais de 2 milhões de veículos vendidos por ano, e a eletrificação ainda está em estágio inicial, o que significa que há espaço para crescer sem competir com uma base instalada de elétricos consolidada. A Foxconn enxerga na região o mesmo que viu na Ásia duas décadas atrás: um mercado enorme com produção local insuficiente e dependência de importação.

O que a Foxconn já fez no setor automotivo fora do Brasil

A estratégia de carros elétricos da Foxconn não é apenas anúncio: já tem execução em outros países. Em Taiwan, o Model C é produzido em parceria com a Yulon Motor e vendido sob a marca Luxgen n7, com entregas que começaram em 2024. Na Tailândia, a Foxconn firmou parceria com a estatal PTT para construir fábrica de veículos elétricos com capacidade para 50 mil unidades por ano. Na Arábia Saudita, o acordo com o fundo soberano PIF prevê montagem de veículos da marca Ceer.

Nos Estados Unidos, a Foxconn comprou a antiga fábrica da Lordstown Motors em Ohio e assinou contrato com a Fisker (antes da falência da marca) e com a INDI EV. O histórico mostra que a empresa está construindo capacidade global de produção automotiva, com fábricas em pelo menos quatro continentes. Jundiaí seria a peça latino-americana desse quebra-cabeça, completando uma rede que vai de Taipei a Riad, de Bangkok a Columbus.

Os desafios que a Foxconn enfrenta no Brasil

Transformar Jundiaí em polo de carros elétricos não é apenas questão de vontade corporativa. O Brasil tem carga tributária sobre veículos entre as mais altas do mundo, e a estrutura de incentivos fiscais (como o programa Mover, que substituiu o Rota 2030) ainda privilegia motores flex e híbridos em detrimento dos puramente elétricos. A Foxconn precisará negociar condições que tornem a produção local competitiva contra a importação direta de veículos chineses, que chegam ao Brasil com preços agressivos.

Há também o desafio da cadeia de suprimentos. Baterias de lítio, o componente mais caro de um carro elétrico, não são produzidas em escala no Brasil, apesar de o país ter reservas significativas de lítio no Vale do Jequitinhonha (MG). Sem produção local de células de bateria, a Foxconn dependeria de importação asiática para o insumo mais crítico, o que reduz a vantagem de fabricar localmente. A solução pode passar por parcerias com fabricantes de baterias que já planejam operações no Brasil, como a chinesa CATL e a sul-coreana LG Energy Solution.

O que isso significa para a indústria automotiva brasileira

Se a Foxconn conseguir executar o plano, o impacto sobre a indústria automotiva brasileira será estrutural. Marcas que hoje não existem no mercado de carros poderão lançar veículos elétricos com fabricação nacional, usando a plataforma MIH e a capacidade da fábrica de Jundiaí. Isso abre espaço para empresas de tecnologia, varejistas e até startups brasileiras entrarem no setor sem investir bilhões em linhas de montagem.

Para as montadoras tradicionais instaladas no Brasil — Volkswagen, Fiat, GM, Hyundai, Toyota —, o movimento representa ameaça e oportunidade ao mesmo tempo. Ameaça porque democratiza o acesso à produção automotiva. Oportunidade porque a própria Foxconn pode se tornar fornecedora de componentes eletrônicos e sistemas embarcados para quem já tem fábrica e quer eletrificar a linha. O futuro dirá se Jundiaí vira o Shenzhen dos carros elétricos ou se o plano esbarra na realidade tributária e logística brasileira.

Você compraria um carro elétrico fabricado pela Foxconn em Jundiaí, mesmo que a marca na porta fosse de uma empresa que você nunca viu montar veículo? Conte nos comentários o que acha do modelo de fabricação sob contrato chegar aos carros e se isso pode baratear o elétrico no Brasil.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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