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A China planeja construir o maior acelerador de partículas do mundo, um anel subterrâneo de 100 km de circunferência operando com feixes de 240 GeV para colidir elétrons e pósitrons com precisão inédita e reescrever os limites da física em túneis do tamanho de uma cidade inteira; entenda em que etapa o projeto está hoje e o que falta para sair do papel

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 12/01/2026 às 12:14
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A China planeja construir o maior acelerador de partículas do mundo, um anel subterrâneo de 100 km de circunferência operando com feixes de 240 GeV para colidir elétrons e pósitrons
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China prepara projeto de acelerador de 100 km e 240 GeV para estudar o bóson de Higgs e ultrapassar o CERN na física de alta energia.

A corrida para entender a estrutura mais íntima da matéria sempre foi impulsionada por máquinas gigantes. O século XX foi marcado pela ascensão do CERN, do Fermilab e de instalações nos EUA e Europa que dominaram a física de partículas. Agora, em pleno século XXI, o eixo dessa disputa começa a se deslocar. Cientistas chineses discutem um dos empreendimentos científicos mais ousados já propostos: um acelerador circular subterrâneo de 100 km de circunferência dedicado a produzir e estudar o bóson de Higgs com precisão sem precedentes.

Esse projeto se chama CEPC – Circular Electron Positron Collider, e, se aprovado e financiado integralmente, colocará a China no comando da física de partículas de alta energia durante as próximas décadas.

Um túnel do tamanho de uma metrópole enterrado sob o solo

Enquanto o acelerador europeu LHC (Large Hadron Collider), no CERN, possui 27 km de circunferência, o CEPC planeja ser quase quatro vezes maior.

Para visualizar o impacto físico e territorial disso, bastaria imaginar um anel subterrâneo que poderia circundar cidades inteiras como Xangai, Pequim, Paris, Londres ou São Paulo, dependendo da região escolhida.

O plano base prevê um anel de 100 km escavado a dezenas de metros abaixo da superfície, formando um circuito fechado por onde circulam feixes de elétrons e pósitrons quase à velocidade da luz. Esse anel seria conectado a laboratórios, linhas de injeção de partículas, aceleradores auxiliares, criogenia e centenas de quilômetros de cabos supercondutores e sistemas de vácuo.

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Esse arranjo transforma o CEPC de “máquina científica” em algo mais próximo de uma cidade de alta tecnologia subterrânea, com grande parte da infraestrutura escondida sob o solo.

Por que elétrons e pósitrons? A “fábrica de Higgs”

O CEPC não tem como objetivo primário destruir prótons, como o LHC. Ele usará elétrons (negativos) e pósitrons (positivos), que são partículas elementares sem subestrutura interna conhecida.

Quando colidem, a energia depositada é extremamente “limpa” do ponto de vista de ruído físico. Isso permite algo que os físicos chamam informalmente de Higgs factory — “fábrica de Higgs”.

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A energia de colisão planejada será de 240 GeV, exatamente na região ideal para produzir o bóson de Higgs com alta eficiência e estudar suas propriedades com precisão impossível em aceleradores de prótons.

O objetivo não é descobrir o Higgs novamente, isso já aconteceu em 2012 no CERN — mas sim responder perguntas mais sofisticadas:

  • Como o Higgs interage com outras partículas?
  • Há partículas adicionais ligadas ao Higgs?
  • A massa do Higgs explica algo além do Modelo Padrão?
  • O Higgs pode apontar para dimensões extras, matéria escura ou nova física?

É aqui que o CEPC pretende superar o LHC: na precisão, não na energia bruta.

Dados técnicos essenciais do projeto

Embora seja um projeto em desenvolvimento e ainda não aprovado para construção, vários parâmetros foram oficialmente publicados por institutos chineses e grupos internacionais envolvidos no design conceitual.

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Entre os dados já divulgados estão:

  • Circunferência planejada: ~100 km
  • Tipo: colisor elétron–pósitron
  • Energia de operação: ~240 GeV
  • Propósito central: física do Higgs (Higgs factory)
  • Comparação: LHC → 27 km / prótons / 13–14 TeV (outra categoria)
  • Estrutura: túnel subterrâneo + cavernas experimentais + injetores
  • Infraestrutura auxiliar: criogenia, RF, supercondutores, vácuo, detetores
  • Extensibilidade futura: túnel poderá abrigar o SPPC (Super Proton Proton Collider)

Esse último ponto abre uma segunda camada estratégica: ao construir o anel agora para elétrons/pósitrons, a China deixaria o caminho pronto para um futuro colisor de prótons com energias bem maiores que o LHC europeu.

Por que a China quer liderar esse projeto?

Existem três razões principais: liderança científica, hegemonia tecnológica e independência estratégica.

Liderança científica

A física de partículas sempre foi uma arena de prestígio global. Países que constroem grandes aceleradores:

  • publicam mais artigos
  • formam mais doutores
  • atraem talentos internacionais
  • desenvolvem tecnologias de fronteira

Ao assumir o comando desse tipo de infraestrutura, a China passa de usuária dos laboratórios europeus para dona da maior “máquina de descoberta” do planeta.

Hegemonia tecnológica

Grandes colidores geram tecnologias que depois migram para o setor civil, como:

  • supercondutores avançados
  • criogenia industrial
  • vacuômetros de ultra alto vácuo
  • eletrônica de alta precisão
  • softwares de simulação científica
  • imageamento médico

Historicamente, o CERN já deu origem a:

  • World Wide Web
  • melhorias em PET scan
  • avanços em IA e computação paralela

A China quer capturar esse ciclo internamente.

Independência estratégica

Com o LHC localizado na Europa e financiado majoritariamente por países europeus, China e EUA ficam dependentes da posição geopolítica e da agenda científica do CERN. Ao construir o CEPC, a China estabelece uma plataforma própria para:

  • decidir programas experimentais
  • formar equipes nacionais
  • licenciar tecnologias
  • controlar o ritmo de upgrades

Onde o túnel seria construído

O projeto ainda não tem local final definido, mas três regiões são citadas em estudos preliminares:

  • Qinhuangdao
  • Zhangjiakou
  • Shandong
A China planeja construir o maior acelerador de partículas do mundo, um anel subterrâneo de 100 km de circunferência operando com feixes de 240 GeV para colidir elétrons e pósitrons
Regiões reveladas onde ficarão os futuros colisores – Google Earth

Os critérios para escolha envolvem:

  • geologia estável (menos falhas sísmicas)
  • acesso logístico
  • baixa densidade urbana no anel
  • proximidade de universidades e centros tecnológicos

A fase atual é de estudos geológicos, ambientais e urbanos.

Quanto custaria o maior acelerador da história

Estimar custos em projetos científicos dessa escala é arriscado, mas estudos conceituais colocam o valor na casa de bilhões de dólares, com faixas que variam entre:

  • US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões, dependendo do escopo

Para comparação:

  • LHC (CERN): ~US$ 5 a 10 bilhões ao longo de décadas
  • Superconducting Super Collider (EUA): cancelado após US$ 2 bilhões gastos (estimado em US$ 20 bilhões totais)
  • ITER (França): US$ 25 bilhões (fusão nuclear)

Em outras palavras, o CEPC entraria no seleto grupo de maiores instrumentos científicos já financiados pela humanidade.

Linha do tempo realista

O roadmap público não é rígido, mas documentos indicam:

  • 2018–2025: design conceitual + estudos de viabilidade
  • 2025–2030: projeto detalhado + licenças + financiamento
  • 2030–2040: possível construção
  • 2040+: início de operação científica

Ressalto: essa é uma projeção de estudo, não um cronograma oficial aprovado.

Comparando com o CERN

O contraste entre o LHC e o CEPC não é de “melhor vs pior”, mas de categorias diferentes:

AceleradorTipoEnergiaObjetivo
LHC (CERN)prótons13–14 TeVbuscar nova física, partículas pesadas
CEPCelétron–pósitron240 GeVestudar Higgs com precisão

O plano chinês inclui ainda um futuro upgrade:

SPPC (Super Proton Proton Collider), que usaria o mesmo túnel de 100 km, mas com prótons, mirando ~75 TeV — quase 5x o LHC.

Se isso se confirmasse, a China deixaria o CERN para trás também em energia.

Impactos científicos potenciais

O CEPC pode resolver algumas das questões mais profundas da física atual:

  • O Higgs interage com matéria escura?
  • Há múltiplos tipos de Higgs?
  • O Modelo Padrão é completo ou só uma aproximação?
  • Por que as massas das partículas são como são?
  • A simetria do universo foi quebrada no Big Bang?

Essas perguntas não têm respostas hoje, e o CEPC foi concebido precisamente para investigá-las.

A fronteira da ciência está mudando de endereço

Se o CEPC for aprovado e construído, a China criará a maior infraestrutura de física de partículas do planeta, com potencial para alterar:

  • a geopolítica científica
  • o futuro da física de alta energia
  • a liderança tecnológica mundial

Mais que uma máquina, o CEPC representa uma declaração científica e estratégica: a de que a próxima grande descoberta — seja ela sobre matéria escura, simetria quebrada, energia do vácuo ou dimensões extras — pode vir da Ásia, e não mais da Europa ou dos Estados Unidos. Se o século XX foi o século do CERN, o século XXI pode ter outro protagonista.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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