A China lançou 23 satélites em 30 horas usando um Longa Marcha 8 de Hainan e um Longa Marcha 6A de Taiyuan para as constelações Mil Velas e Guowang, que juntas planejam cerca de 27 mil satélites para competir com a Starlink da SpaceX, que já opera mais de 6 mil satélites e atende 4 milhões de usuários em 100 países.
A corrida pela internet baseada no espaço acaba de ganhar um novo capítulo. A China lançou 23 satélites em duas missões distintas em pouco mais de 30 horas, usando dois foguetes diferentes de duas bases de lançamento separadas, numa das implantações orbitais mais concentradas já realizadas pelo país. Os satélites foram divididos entre as constelações Mil Velas e Guowang, os dois programas chineses que competem diretamente com a Starlink de Elon Musk pela cobertura global de internet via satélite. A blitz demonstra um ritmo de lançamentos que seria impensável há cinco anos.
Do outro lado da disputa, a Starlink da SpaceX já opera mais de 6 mil satélites e atende a mais de 4 milhões de usuários em mais de 100 países. Conforme Space Daily, a frota combinada das megaconstelações chinesas possui menos de 100 satélites em órbita no início de 2026, o que revela o tamanho da distância que Pequim precisa percorrer. Mas é justamente essa distância que explica a urgência: as regras internacionais de espectro da UIT (União Internacional de Telecomunicações) funcionam no sistema “use ou perca”, e a China precisa lançar satélites dentro de prazos estabelecidos sob risco de perder posições orbitais e frequências reservadas.
Os dois programas chineses de satélites que querem rivalizar com a Starlink

A China não aposta em uma única constelação, mas em duas. A Mil Velas, operada pela Shanghai Spacecom Satellite Technology, planeja 648 satélites na primeira fase e até 14 mil no total, tendo lançado aproximadamente 54 satélites desde sua primeira missão em agosto de 2024.
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A Guowang, rede estatal que recebe as comparações mais diretas com a Starlink, registrou na UIT documentação para aproximadamente 13 mil satélites, mas tinha menos de 30 em órbita no início de 2026.
Somados, os dois programas exigem o lançamento de cerca de 27 mil satélites para atingir a capacidade total planejada. Esse número torna a meta chinesa ainda mais ambiciosa do que a Starlink em sua fase atual.
Os dois lotes de satélites lançados nesta semana foram fabricados pela Academia de Inovação para Microssatélites da Academia Chinesa de Ciências (IAMCAS), revelando que, apesar de serem programas nominalmente separados, eles compartilham o mesmo fabricante, o que sugere coordenação industrial centralizada em vez de competição fragmentada.
A estratégia de lançamento que diferencia a China da SpaceX na corrida por satélites
As abordagens são fundamentalmente diferentes. A SpaceX construiu a Starlink por meio de integração vertical: uma empresa, uma família de foguetes, três plataformas de lançamento, e sozinha lançou mais de mil satélites em 2024 usando o Falcon 9.
A China distribui o trabalho entre empresas estatais e startups comerciais, com múltiplas famílias de foguetes, múltiplos locais de lançamento e fabricação centralizada de satélites sob diretrizes estratégicas nacionais.
Enquanto a SpaceX concentra eficiência operacional em poucos pontos, a China constrói plataformas suficientes para que nenhum local se torne gargalo. O Centro de Lançamento Espacial Comercial de Hainan, de onde partiu o Longa Marcha 8 nesta semana, é uma instalação relativamente nova projetada para demanda comercial de pico. Jiuquan inclui uma zona de testes de inovação comercial.
Um complexo costeiro em Haiyang está em expansão. Ningbo e Yangjiang desenvolvem instalações aeroespaciais adicionais. A China troca a intensidade operacional da SpaceX por resiliência distribuída na corrida por satélites.
Os números que mostram o tamanho da distância entre os satélites chineses e a Starlink
A comparação em números brutos é reveladora. A SpaceX fabrica aproximadamente seis satélites Starlink por dia em suas instalações em Redmond, Washington, e opera a partir de um modelo onde o Falcon 9 pode ser reutilizado dezenas de vezes, reduzindo custos por lançamento.
A China realizou 68 lançamentos orbitais em 2024, um aumento em relação aos anos anteriores, mas longe do ritmo necessário para alcançar a Starlink. As metas para 2026 sugerem mais de 100 lançamentos, o que exigiria dois por semana durante o ano inteiro.
Para atingir mesmo as metas da primeira fase, a China precisaria fabricar milhares de satélites por ano e lançá-los em ritmo que ainda não demonstrou. A IAMCAS e outros fabricantes chineses precisarão atingir capacidade de produção comparável à da SpaceX, um desafio que envolve velocidade de montagem, cadeia de suprimentos e controle de qualidade em escala industrial.
A questão que define esta década na área espacial é se o modelo distribuído chinês para satélites se mostrará mais resiliente ou mais complexo do que o modelo verticalmente integrado da SpaceX.
O que a internet via satélites chineses significaria para o mundo
Uma constelação Guowang em grande escala, combinada com os satélites da Mil Velas, daria à China uma camada de comunicações orbitais de dimensão atualmente igualada apenas pela SpaceX.
A internet via satélites poderia transformar a conectividade nas províncias do interior da China e em países em desenvolvimento que participam da Iniciativa Cinturão e Rota, oferecendo cobertura em regiões onde infraestrutura terrestre de fibra óptica é inviável economicamente.
Para o lado militar, as implicações dos satélites chineses não passam despercebidas pelos planejadores de defesa em Washington, Tóquio ou Bruxelas.
Uma rede de comunicações orbital própria significa que a China não dependeria de infraestrutura controlada por empresas ocidentais em cenários de conflito, e também poderia operar uma internet paralela sob sua autoridade regulatória e regras de soberania de dados. A corrida por satélites não é apenas comercial. É estratégica, militar e geopolítica.
O ritmo de lançamentos de satélites que a China precisa manter para competir
Com aproximadamente 21 lançamentos orbitais nos primeiros meses de 2026, a China caminha para seu ano mais ambicioso.
Novos veículos como o Nebula-1 e o Tianlong-3 são esperados para voos inaugurais em breve, e empresas como Galactic Energy, LandSpace e CAS Space desenvolvem foguetes próprios competindo por contratos de lançamento de constelações. A série estatal Longa Marcha continua se expandindo com variantes reutilizáveis em desenvolvimento.
O lançamento de 23 satélites em dois dias não é extraordinário em um mundo onde a SpaceX coloca 60 Starlinks em um único voo. O que torna significativo é a máquina industrial e política por trás de cada missão chinesa. Cada voo do programa Longa Marcha não é um evento avulso.
É um ponto em uma curva que Pequim está determinada a acentuar, numa corrida onde o espaço é tanto infraestrutura quanto campo de batalha.
O que te impressiona mais: a SpaceX com 6 mil satélites já operando ou a China lançando 23 em 30 horas para tentar alcançá-la? Qual modelo você acha que vai vencer: a integração vertical ou a resiliência distribuída? Conta nos comentários. A corrida pela internet do espaço é uma das disputas tecnológicas mais importantes da década, e está acontecendo agora sobre nossas cabeças.

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