Segundo um novo relatório do governo da China, o país operava 167 projetos de dessalinização em 2025, transformando cerca de 3,1 milhões de toneladas de água do mar por dia em água doce. O volume abastece a indústria pesada, ilhas com escassez hídrica e até o turismo em regiões costeiras.
A China está transformando água do mar em água potável em escala cada vez maior. Em 2025, o país chegou a 167 projetos de dessalinização espalhados por dez regiões costeiras, capazes de processar cerca de 3,1 milhões de toneladas de água do mar por dia, segundo um novo relatório oficial.
Os dados constam do Relatório Nacional sobre a Utilização da Água do Mar 2025, divulgado pelo Ministério dos Recursos Naturais no Dia Mundial dos Oceanos. Toda essa água doce ajuda a abastecer a indústria pesada, ilhas remotas com falta de água e o turismo em áreas litorâneas do país.
Como a China usa a água do mar em escala industrial

Os números dão a dimensão da operação. De acordo com o relatório, a China mantinha 167 projetos de dessalinização em dez regiões costeiras de nível provincial, como Liaoning, Tianjin, Hebei, Jiangsu, Shandong, Zhejiang, Guangdong e Hainan. Juntos, eles processavam cerca de 3,1 milhões de toneladas de água do mar por dia, um aumento de 221 mil toneladas em relação a 2024, volume que equivale às necessidades domésticas de água de aproximadamente 15 milhões de pessoas.
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Mas a dessalinização é só uma parte do uso. A água do mar também é captada diretamente para o resfriamento de plantas industriais, e esse consumo chegou a 193,36 bilhões de toneladas em 2025, alta de 5,02 bilhões na comparação anual. Sete regiões, entre elas Shandong, Zhejiang e Guangdong, usaram mais de 10 bilhões de toneladas cada uma só para resfriar equipamentos, o que mostra o peso da indústria nesse sistema durante o 14º Plano Quinquenal, encerrado em 2025.
Da siderurgia às ilhas sem água: para que serve a água dessalinizada

Na prática, essa água tem destinos bem variados. Em parques industriais à beira do litoral, novos projetos de dessalinização passaram a fornecer água potável de forma confiável para setores que consomem muito, como os de ferro, aço e metalurgia, reduzindo a pressão sobre os mananciais tradicionais. Para a indústria pesada, garantir água de qualidade em grande quantidade é tão estratégico quanto a própria matéria-prima.
Já nas ilhas com escassez hídrica, o efeito é mais social. As instalações que convertem água do mar melhoraram as condições de vida dos moradores e ajudaram a impulsionar o turismo, com mais de 30 ilhas remotas alcançando cobertura total de abastecimento e deixando de depender de água trazida por navios. Entre os destaques citados está o maior complexo de dessalinização de apoio petroquímico do mundo, na Ilha Yushan, em Zhejiang, além de um projeto em Cangzhou, em Hebei, que combina energia solar e produção de água doce.
Lítio, urânio e deutério: o mar como mina estratégica
O relatório vai além da água e mostra outro interesse da China: extrair minerais do oceano. Os projetos avançaram na obtenção de lítio, urânio e deutério a partir da água do mar, e o documento ressalta que produtos de urânio em escala de quilograma já foram extraídos de ambientes marinhos reais. Para se ter ideia do potencial, as reservas de urânio dissolvidas nos oceanos são estimadas em cerca de 4,5 bilhões de toneladas, mais de mil vezes o que se conhece em terra.
Esse movimento conecta a dessalinização a uma agenda de segurança de recursos. Segundo Xiang Wenxi, diretor do Instituto de Dessalinização de Água do Mar e Utilização Multipropósito, em Tianjin, o setor cresce de forma constante. Ao mirar elementos como o lítio, ligado às baterias, e o urânio, usado na energia nuclear, a China trata a água do mar não apenas como fonte de água, mas como uma possível mina de insumos estratégicos para a indústria.
Os desafios: energia, custo e o descarte da salmoura
Apesar dos números expressivos, é importante lembrar que se trata de dados oficiais do governo chinês e que a tecnologia tem limitações. A dessalinização ainda é intensiva em energia, já que as usinas de osmose reversa consomem bastante eletricidade para cada metro cúbico de água doce produzido, o que encarece o processo e pode elevar emissões, dependendo da matriz energética usada.
Há também um efeito ambiental pouco lembrado: o descarte da salmoura, a água supersalgada que sobra após a separação, pode prejudicar ecossistemas marinhos se for devolvida ao mar sem cuidado. Para reduzir esses impactos, a China vem testando sistemas de descarga zero e aproveitamento de calor residual. Com o 15º Plano Quinquenal, que vai até 2030, o país pretende ampliar a dessalinização em cidades, ilhas e parques industriais, apostando na água do mar como peça da sua segurança hídrica.
Transformar água do mar em água doce para abastecer a indústria, ilhas isoladas e o turismo mostra como a China encara o oceano como recurso estratégico.
Conte nos comentários se você acha que a dessalinização pode ser um caminho para enfrentar a falta de água também no Brasil.

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