A guerra na Ucrânia reacendeu o debate sobre abrigos civis na Europa, levando países a transformar espaços subterrâneos comuns em estruturas de proteção contra ataques, falhas de infraestrutura e emergências urbanas.
A guerra na Ucrânia voltou a colocar os abrigos civis entre as prioridades de segurança de países europeus.
Estruturas subterrâneas que perderam função militar após a Guerra Fria passaram a ser reavaliadas por governos e órgãos de defesa civil como parte da resposta a drones, mísseis convencionais, bombardeios localizados e ataques contra serviços essenciais.
A mudança não representa apenas a retomada dos bunkers construídos no século XX.
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Em diferentes países, a estratégia passou a incluir estações de metrô, garagens subterrâneas, túneis, porões, piscinas, ginásios e centros esportivos como locais que podem ser adaptados para emergências.
A proposta é usar estruturas já existentes nas cidades, em vez de depender exclusivamente de grandes complexos militares enterrados.
Desde a invasão russa em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o tema ganhou espaço no debate público europeu.
O conflito mostrou que cidades do continente ainda podem enfrentar alarmes aéreos frequentes, interrupções de energia, ataques contra infraestrutura civil e deslocamentos de moradores para áreas subterrâneas.
Em resposta, países que haviam reduzido a proteção civil começaram a revisar planos considerados obsoletos por autoridades do setor.
Cidades subterrâneas voltam aos planos de emergência
Nas últimas décadas, muitos abrigos europeus deixaram de ter uso militar.
Parte dessas estruturas foi convertida em depósitos, estacionamentos, museus, casas de show ou espaços turísticos.
Outras permaneceram fechadas, abandonadas ou sem manutenção suficiente para uso imediato em uma situação de crise.
A discussão atual vai além da recuperação de instalações antigas.
O ponto central, segundo autoridades de defesa civil, é adaptar cidades densas e dependentes de infraestrutura complexa para situações em que a população precise se proteger rapidamente de ataques aéreos ou falhas prolongadas em serviços básicos.
Esse debate aproxima proteção civil, engenharia urbana e planejamento de emergência.
Um abrigo funcional precisa reunir elementos como concreto reforçado, ventilação, rotas de saída, abastecimento mínimo, comunicação, energia alternativa e capacidade de receber pessoas em pouco tempo.
Como esses requisitos não são simples de instalar durante uma crise, governos passaram a mapear espaços que já possam ser convertidos.
Suíça mantém uma rede ampla de abrigos civis
A Suíça é um dos casos mais conhecidos de preparação subterrânea na Europa.
O país mantém cerca de 9 milhões de vagas em aproximadamente 370 mil abrigos privados e públicos, segundo o Escritório Federal de Proteção Civil.
A cobertura supera o número de habitantes, embora as próprias autoridades reconheçam que podem existir diferenças locais entre cantões e municípios.
Essas estruturas foram planejadas para proteger a população em cenários de guerra e outros riscos graves, incluindo ameaças nucleares, biológicas e químicas.
Ao longo do tempo, a legislação suíça passou por ajustes, mas a obrigação relacionada à construção e manutenção de abrigos permaneceu como parte da política nacional de proteção civil.
Em outros países europeus, o modelo suíço foi tratado por anos como uma exceção ligada à Guerra Fria e à tradição local de preparo para emergências.
Com a guerra na Ucrânia, a existência de uma rede ampla de abrigos passou a ser observada por governos e especialistas como exemplo de infraestrutura construída antes de uma crise, e não apenas como herança histórica.
Finlândia adapta espaços cotidianos para proteção
A Finlândia também manteve uma política de defesa civil contínua após o fim da Guerra Fria.
Em Helsinque, há cerca de 5.500 abrigos de defesa civil, com aproximadamente 900 mil vagas, quantidade suficiente para proteger moradores permanentes e pessoas que estejam de passagem pela capital, segundo dados da cidade.
O diferencial do modelo finlandês está no uso cotidiano de parte dessas áreas.
Abrigos podem funcionar, em tempos normais, como estacionamentos, instalações esportivas, espaços de lazer, piscinas ou áreas de recreação.
Em uma emergência, esses locais podem ser preparados para receber a população em até 72 horas, conforme informações das autoridades de Helsinque.
Esse sistema de dupla função passou a atrair atenção internacional.
Reportagem da Reuters mostrou que o abrigo de Merihaka, em Helsinque, recebeu delegações estrangeiras interessadas no modelo finlandês.
O local fica cerca de 25 metros abaixo do solo, pode receber 6 mil pessoas e é usado normalmente com quadras, academia e área infantil.
Em caso de emergência, pode ser equipado com beliches, tanques de água e banheiros portáteis.
Alemanha busca abrigos em metrôs, túneis e garagens
A Alemanha apresenta uma situação diferente.
O país chegou a contar com uma rede maior de abrigos públicos durante a Guerra Fria, mas hoje possui 579 abrigos para cerca de 480 mil pessoas, segundo dados do governo citados pela Reuters.
Para uma população superior a 80 milhões, a cobertura é limitada.
A resposta alemã não prevê, ao menos no plano atual, reconstruir integralmente a lógica dos bunkers clássicos.
O governo aprovou um plano de defesa civil que prevê o uso de garagens subterrâneas, túneis e estações de metrô como locais de proteção.
A iniciativa também inclui investimentos em sistemas de alerta, veículos especiais, roupas de proteção e coordenação centralizada para emergências.
A estratégia reconhece uma limitação operacional: não há cobertura suficiente para abrigar toda a população em estruturas tradicionais.
O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, disse à Reuters que o país não pode contar com abrigo disponível para todos os seus mais de 80 milhões de habitantes.
Por isso, o plano alemão combina uso de espaços próximos, alertas digitais e orientação rápida aos moradores.
Guerra na Ucrânia muda planejamento de defesa civil
A experiência ucraniana passou a ser usada como referência por planejadores civis e militares na Europa.
Em várias cidades, estações de metrô, escolas subterrâneas e porões foram incorporados à rotina de proteção da população durante ataques.
A guerra também evidenciou a importância de sistemas de alerta, abrigos acessíveis e rotas conhecidas pelos moradores.
Antes da invasão russa em larga escala, parte do planejamento europeu para conflitos futuros concentrava-se em cenários de alta tecnologia e ataques mais restritos.
A continuidade dos bombardeios contra cidades ucranianas levou autoridades e especialistas a reconsiderar a necessidade de estruturas físicas de proteção em áreas urbanas.
Os novos planos, por isso, tratam o abrigo como parte de uma cadeia mais ampla de resposta.
O funcionamento depende de aviso antecipado, deslocamento seguro, permanência temporária, atendimento a pessoas vulneráveis e capacidade mínima de manter serviços urbanos essenciais durante uma crise.
Acesso aos abrigos é desafio para governos
A retomada dos abrigos civis levanta uma questão prática para governos locais.
A existência de uma estrutura subterrânea não garante que todos consigam chegar até ela em tempo hábil.
Idosos, pessoas com deficiência, pacientes hospitalares, crianças pequenas e moradores de áreas sem cobertura adequada enfrentam obstáculos adicionais em uma emergência.
Esse ponto diferencia o debate atual da simbologia da Guerra Fria.
No século XX, bunkers também funcionavam como demonstração de capacidade estatal diante de uma ameaça nuclear.
Agora, a discussão está mais voltada à redução de danos em cenários específicos, como ataques com drones, mísseis convencionais, sabotagens e interrupções de infraestrutura.
Por essa razão, o planejamento não se limita ao número de abrigos disponíveis.
Também envolve localização, sinalização, manutenção, treinamento, comunicação com a população e integração com aplicativos de alerta.
Sem esses elementos, a estrutura física pode existir, mas não cumprir sua função no momento necessário.
Engenharia urbana transforma espaços comuns em proteção
O retorno do interesse por estruturas subterrâneas também revela como a engenharia urbana pode transformar espaços comuns em equipamentos de segurança.
Uma garagem, uma estação de metrô ou uma piscina subterrânea só pode ser usada como abrigo se atender a requisitos técnicos relacionados a resistência, ventilação, acesso, comunicação e permanência temporária.
Muitas dessas soluções não são visíveis no uso diário.
Portas reforçadas, filtros de ar, compartimentos de vedação, saídas alternativas e sistemas de abastecimento emergencial ficam fora da rotina de quem frequenta esses espaços.
No entanto, são esses componentes que definem se o local pode funcionar como abrigo civil durante uma crise.
O interesse europeu por bunkers e estruturas subterrâneas, portanto, não se resume à memória da Guerra Fria.
Ele acompanha a adaptação de cidades a riscos contemporâneos, entre eles drones, mísseis, ataques híbridos e falhas prolongadas em redes de energia, transporte e comunicação.
Com a guerra novamente presente no continente, governos passaram a tratar o subsolo como parte do planejamento urbano e da proteção civil.
Túneis, porões, garagens e estações de metrô deixaram de ser apenas espaços de passagem ou serviço e voltaram a integrar mapas de emergência.

