Estudo mapeia 36 espécies que geram colapsos ecológicos e custos enormes quando invadem novos territórios, mas são ameaçadas ou únicas na área nativa. Com dados da InvaCost e categorias da IUCN, pesquisa mostra por que controlar e conservar a mesma fauna exige coordenação internacional para evitar erros e perdas futuras.
As 36 espécies reunidas no chamado paradoxo da conservação expõem um choque raro entre ecologia, economia e política ambiental. Em vários países, elas são tratadas como pragas por se instalarem fora da área nativa e impactarem negativamente a biodiversidade local, abrindo espaço para danos em cadeia que desorganizam habitats inteiros e exigem respostas caras de contenção, controle e remoção.
Ao mesmo tempo, no berço original dessas mesmas 36 espécies, a realidade pode ser oposta: algumas aparecem como vulneráveis, em perigo ou criticamente em perigo em avaliações globais, enquanto outras, mesmo sem estarem oficialmente ameaçadas, são consideradas prioritárias por terem características evolutivas ou ecológicas tão singulares que a perda delas significaria empobrecer de forma irreversível a diversidade biológica.
O que torna uma espécie “invasora” e por que isso vira um problema global
Uma espécie exótica invasora é aquela que consegue se estabelecer na natureza fora da sua área de distribuição nativa, seja por introdução acidental ou deliberada, e passa a causar impacto negativo no ambiente que invade.
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Esse impacto não precisa ser sutil: pode envolver queda de populações nativas, alteração de cadeias alimentares, mudanças em áreas de reprodução, degradação de vegetação e reconfiguração do funcionamento do ecossistema.
Esse tipo de invasão é tratado como um motor relevante de perda de biodiversidade. O ponto que torna o tema explosivo é que a etiqueta “invasora” vale para um território específico.
Ela não apaga, automaticamente, o valor ecológico da espécie dentro do seu habitat original.
É aí que o paradoxo nasce: a mesma espécie pode ser “combater aqui” e “proteger ali”, sem contradição biológica, mas com enorme tensão prática.
O tamanho do prejuízo quando a invasão vira conta pública
Além do estrago ambiental, as invasões podem gerar custos econômicos altos, que aparecem tanto nos danos diretos e nas perturbações causadas pelas populações invasoras quanto nos custos de gestão para conter, controlar ou remover.
Na União Europeia, o enfrentamento de espécies exóticas invasoras é orientado por regras que definem quais organismos entram na categoria “de preocupação” e, portanto, passam a ter medidas de controle priorizadas.
Em 2022, a lista citada incluía 47 animais e 41 plantas, e depois foi atualizada para um total de 114 espécies.
Nesse cenário, o impacto econômico total das invasoras na UE já havia sido estimado em cerca de 12 bilhões de euros por ano, com a expectativa de que revisões mais recentes levem esse valor para cima.
Esse pano de fundo ajuda a entender por que, quando uma espécie é rotulada como “invasora” em um continente, o impulso político costuma ser agressivo: reduzir rapidamente a população, impedir expansão e minimizar danos.
O problema é que, dentro do recorte das 36 espécies, essa resposta pode esbarrar em uma realidade incômoda em outra ponta do planeta.
Como os cientistas chegaram às 36 espécies e por que isso muda o debate
A pesquisa que aponta as 36 espécies buscou capturar um fenômeno que estudos anteriores já sugeriam, mas sem o mesmo foco. Aqui, o caminho foi cruzar duas fontes de informação com naturezas diferentes.
De um lado, os pesquisadores recorreram ao banco de dados aberto InvaCost, que reúne registros de danos e custos de gestão de espécies invasoras por país ao longo de décadas, cobrindo o período entre 1960 e 2020.
O recorte é relevante porque o banco quantifica custos associados, e isso muda o peso do argumento: deixa de ser apenas “faz mal” e vira também “custa caro”.
Do outro lado, eles compararam essas informações com a Lista Vermelha da IUCN, que classifica o grau de ameaça das espécies com base no estado das populações selvagens dentro da área nativa, indo de “pouco preocupante” até “extinta”, passando por faixas como vulnerável, em perigo e criticamente em perigo.
Ao analisar 355 espécies de mamíferos, aves e plantas, a equipe identificou um núcleo duro do paradoxo.
Dentro desse universo, cinco mamíferos e cinco plantas apareciam como ameaçados e, ao mesmo tempo, associados a impactos econômicos relevantes como invasores fora do berço.
É desse tipo de colisão que nasce a pergunta central: o que fazer quando a espécie que você tenta eliminar em um lugar é justamente a que você precisa salvar em outro?
O “paradoxo da conservação” e os exemplos que tornam o tema difícil de ignorar

O estudo chama esse cenário de paradoxo da conservação porque ele exige duas ações opostas sobre o mesmo organismo, dependendo do território.
Na área invadida, a prioridade tende a ser contenção e redução populacional.
Na área nativa, a prioridade pode ser preservar e recuperar populações em declínio.
Um exemplo citado é o coelho europeu (Oryctolagus cuniculus), classificado como em perigo e, simultaneamente, descrito como uma das espécies invasoras mais custosas do mundo dentro do recorte da análise ligada ao InvaCost.
Esse tipo de caso ajuda a entender por que o debate não é só acadêmico.
Ele coloca governos, cientistas e gestores diante de decisões que parecem simples no discurso, mas são complexas na prática.
E é aqui que as 36 espécies ganham importância.
Elas não representam “todas as invasoras”, nem “todas as ameaçadas”.
Elas representam um grupo em que qualquer política mal coordenada pode gerar efeito colateral em outro país, seja por pressão sobre populações, seja por decisões que inviabilizam estratégias de conservação em escala global.
Quando a espécie não está ameaçada, mas ainda assim vira prioridade
A pesquisa também amplia a lente além do “ameaçado de extinção”.
O argumento é direto: priorizar apenas espécies já ameaçadas tende a ser uma resposta reativa.
Uma abordagem proativa, na visão apresentada, tenta impedir que espécies-chave entrem em colapso, evitando custos e desafios maiores no futuro.
Nesse ponto, entram duas ideias: distinção evolutiva e distinção funcional.
Algumas espécies têm poucos parentes evolutivos próximos, carregando uma história evolutiva muito singular.
Outras têm características funcionais muito marcantes, seja em dieta, atividade ou massa corporal, o que as torna peças específicas no funcionamento dos ecossistemas.
Seguindo esse raciocínio, o estudo identificou nove espécies invasoras evolutivamente distintas e 17 funcionalmente distintas.

Os pesquisadores não encontraram nenhuma espécie que fosse, ao mesmo tempo, distinta nos dois aspectos, mas apontaram um caso que combina desafio e paradoxo: o coala (Phascolarctos cinereus), descrito como ameaçado e, ao mesmo tempo, evolutivamente distinto.
Também aparecem como exemplos de alto custo e distinção funcional o vison americano (Neovison vison) e o estorninho comum (Sturnus vulgaris).
Somando paradoxos, desafios e combinações, o trabalho chega ao total de 36 espécies que exigem uma gestão mais cuidadosa, justamente porque o “manual” muda conforme o mapa.
Por que o controle em um país pode atrapalhar a conservação em outro
Quando uma espécie é controlada em um lugar e protegida em outro, o risco não está apenas em “tirar demais” ou “deixar demais”.
O risco real é quebrar a coordenação entre decisões, criando um cenário em que medidas de manejo em territórios invadidos tenham consequências inesperadas sobre estratégias de conservação na área nativa.
A pesquisa sugere, por exemplo, que indivíduos capturados de populações invasoras poderiam, em alguns casos, ser usados para estabelecer ou complementar populações selvagens dentro da área de distribuição nativa.
Isso abriria uma alternativa à retirada de indivíduos de populações já fragilizadas no berço original.
Na mesma linha, estudos sobre populações invasoras podem produzir informações valiosas sobre comportamento, adaptação e dinâmica populacional, apoiando decisões de conservação.
O ponto crítico é que isso só funciona com comunicação e coordenação entre autoridades e gestores de diferentes territórios.
Sem isso, uma política agressiva de controle pode eliminar a chance de aproveitar indivíduos, dados e aprendizados que seriam úteis para a conservação em outro lugar.
Limites do estudo e por que o número real pode ser maior
O trabalho se concentrou em mamíferos, aves e plantas porque havia dados suficientes para a análise nesses grupos.
Mesmo assim, os pesquisadores apontam uma limitação estrutural importante: o InvaCost não representa um levantamento completo de todos os custos das espécies invasoras.
Os custos foram registrados para menos de 10% das espécies invasoras conhecidas, o que sugere que muitas outras podem ter gerado impactos econômicos relevantes sem terem sido formalmente contabilizadas no banco de dados.
Há ainda outra ressalva: a análise considerou o status de conservação global das espécies.
Isso deixa espaço para paradoxos adicionais, envolvendo espécies que não estão ameaçadas globalmente, mas estão ameaçadas em partes específicas de sua distribuição geográfica.
Em outras palavras, o recorte das 36 espécies pode ser apenas a parte mais visível de um problema maior.
Os pesquisadores também observam que outros tipos de paradoxos podem existir, inclusive em espécies invasoras que geram benefícios econômicos além de custos, como no caso citado de espécies associadas a receita com turismo.
Isso complica ainda mais o desenho de políticas públicas, porque o debate deixa de ser “prejuízo versus proteção” e passa a ser “prejuízo, proteção e interesse econômico ao mesmo tempo”.
No fim, as 36 espécies viram um alerta prático: combater invasões pode ser indispensável para salvar ecossistemas locais e reduzir contas bilionárias, mas, em alguns casos, fazer isso sem estratégia global pode empurrar a espécie para o colapso exatamente onde ela deveria continuar existindo.
Você acha que faz sentido um país usar indivíduos capturados de populações invasoras para ajudar a conservar a mesma espécie no habitat original, ou isso abre um risco grande demais?

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