Presidente ucraniano sugere linha de frente como base para acordo de paz, após cúpula entre Trump e Putin não gerar cessar-fogo, e prepara viagem a Washington para buscar apoio contra risco de isolamento diplomático
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou no último domingo (17) em Bruxelas que as negociações de paz com a Rússia podem começar a partir da linha de frente atual, sinalizando pela primeira vez que territórios ocupados podem ser usados como moeda de troca para um eventual acordo que encerre a guerra. A declaração ocorreu após encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e marca mudança significativa na postura oficial ucraniana.
Segundo Zelensky, “precisamos de negociações reais, o que significa que podemos começar por onde está a linha de frente agora”. Até então, a posição de Kiev sempre foi de exigir a recuperação integral das áreas invadidas pela Rússia desde 2014.
A informação foi divulgada pela agência Reuters, que acompanhou o pronunciamento do líder ucraniano. O anúncio ocorre em um momento em que a Ucrânia enfrenta pressões internacionais para flexibilizar sua posição e avançar em um acordo de paz.
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Contexto após encontro de Trump e Putin
A fala de Zelensky acontece apenas dois dias depois da cúpula entre Donald Trump e Vladimir Putin, realizada no Alasca. Embora o encontro não tenha resultado em um cessar-fogo, o presidente norte-americano indicou que um pacto de longo prazo poderia incluir concessões territoriais à Rússia, hipótese defendida por Moscou.
Trump, que recentemente voltou à Casa Branca, vem se referindo a um “acordo permanente” e não a uma trégua temporária. Esse discurso aproxima-se da narrativa russa e preocupa Kiev, que teme ser colocada em posição de isolamento diplomático caso Washington avance em negociações bilaterais com o Kremlin.
Zelensky, por sua vez, tenta reorganizar o apoio europeu e americano, ressaltando que um acordo precisa garantir segurança e estabilidade à Ucrânia. Sua visita a Bruxelas teve como objetivo reafirmar a parceria com a União Europeia antes da viagem a Washington nesta segunda-feira (18).
Mapa das áreas em disputa
Atualmente, a Rússia controla cerca de 400 km² nas regiões de Sumi e Kharkiv, além de grande parte de Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson, somando-se à Crimeia, anexada em 2014.
Especialistas militares citados pelo jornal Infomoney apontam que um possível acordo poderia incluir a entrega total de Donetsk a Moscou em troca da devolução de áreas periféricas de Sumi e Kharkiv, consideradas de menor relevância estratégica.
Donetsk segue parcialmente sob controle de Kiev, mas os avanços russos têm ameaçado cidades-chave. Já Lugansk permanece integralmente sob domínio de Moscou, e as regiões de Zaporíjia e Kherson poderiam ser congeladas no status atual, consolidando uma nova linha de fronteira.
Flexibilização como pausa estratégica
Apesar da mudança de discurso, Zelensky evitou falar em rendição ou cessão definitiva. Ele destacou que o reconhecimento da linha de frente atual serve como ponto de partida para buscar uma pausa no conflito, que poderia abrir espaço para negociações mais amplas.
“Não estamos desistindo de nossas cidades, mas precisamos parar a guerra para proteger vidas”, disse o presidente. O simples reconhecimento da possibilidade já representa uma guinada concreta na política externa de Kiev.
A expectativa agora se volta para a reunião em Washington, onde Zelensky e Ursula von der Leyen tentarão alinhar posições com os Estados Unidos e reduzir o risco de um entendimento direto entre Trump e Putin que enfraqueça a resistência ucraniana.
Segundo analistas ouvidos pelo The Guardian, essa será uma das viagens mais delicadas de Zelensky desde o início da guerra, já que o futuro do apoio militar e econômico à Ucrânia dependerá das negociações nos próximos dias.


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