Wellington, na Nova Zelândia, é a cidade mais ventosa do mundo, com rajadas extremas e geografia que canaliza ventos entre dois oceanos.
Em outubro de 2025, uma tempestade com rajadas acima de 120 km/h varreu Wellington, cancelou mais de 50 voos, derrubou árvores, arrancou telhados de casas e deixou milhares de residências sem energia. Um porta-voz da Air New Zealand disse à imprensa local que havia sido “um dos piores eventos de vento de 2025”. Em seguida, acrescentou, com a naturalidade de quem descreve um fato climático rotineiro: “O vento de Wellington não é novidade.” Não é mesmo. Segundo dados baseados em registros meteorológicos oficiais, Wellington, capital da Nova Zelândia, é considerada a cidade mais ventosa do mundo, com velocidade média anual de cerca de 27 km/h. Em média, a cidade registra 173 dias por ano com rajadas acima de 59 km/h, velocidade que já seria classificada como vendaval em muitas regiões do planeta. Em seu ano mais extremo, ventos com força de furacão acima de 117 km/h — foram registrados em 233 dias.
A maior rajada já medida na região atingiu 267 km/h no Estreito de Cook, em 10 de abril de 1968, o mesmo dia em que um navio com centenas de pessoas a bordo foi destruído pelo vento.
Por que Wellington é a cidade mais ventosa do mundo
Para entender por que Wellington concentra ventos tão intensos, é necessário olhar para a dinâmica atmosférica do Hemisfério Sul. Entre as latitudes de 40° e 50° sul existe uma faixa conhecida historicamente como “Quarenta Rugidores”, uma zona de ventos persistentes de oeste que circundam o planeta quase sem interrupção.
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Esses ventos se formam a partir do gradiente de pressão entre os trópicos e a Antártica. Diferente do Hemisfério Norte, onde grandes massas continentais interrompem e dissipam a circulação atmosférica, o Hemisfério Sul possui vastas extensões oceânicas contínuas. Isso permite que os ventos ganhem velocidade ao longo de milhares de quilômetros sem barreiras significativas.
Wellington está posicionada exatamente nessa faixa, na latitude de 41° sul. No entanto, o fator decisivo não é apenas a latitude, mas a geografia local. O Estreito de Cook, que separa as ilhas Norte e Sul da Nova Zelândia, funciona como um canal natural de compressão do vento.
As cadeias montanhosas das duas ilhas bloqueiam o fluxo atmosférico. O estreito se torna a única passagem viável. O resultado é um efeito de aceleração semelhante ao de uma mangueira comprimida: o ar é forçado por um espaço estreito, aumentando drasticamente sua velocidade. Wellington está posicionada exatamente na saída desse corredor.
O efeito do Estreito de Cook e a amplificação dos ventos extremos
O Serviço Meteorológico da Nova Zelândia descreve o fenômeno como um processo de canalização forçada. Os ventos vindos do oeste encontram barreiras naturais como a Serra Tararua ao norte e a Serra Marlborough ao sul, sendo comprimidos para dentro do Estreito de Cook.
Esse fluxo concentrado se comporta como um rio de ar sendo empurrado por uma garganta geográfica. Ao sair do estreito, atinge Wellington com intensidade máxima. Isso explica por que a cidade registra rajadas com frequência muito superior a outras regiões próximas.
Dados comparativos mostram a dimensão do fenômeno. Enquanto Wellington registra cerca de 173 dias por ano com ventos acima de 59 km/h, cidades como Rotorua e Nelson, que possuem clima semelhante, registram pouco mais de 30 dias com esse tipo de intensidade. A diferença não está no clima regional, mas na geografia local.
O dia em que o vento afundou um navio no porto de Wellington
O episódio mais emblemático da força dos ventos na cidade ocorreu em 10 de abril de 1968. Naquela madrugada, duas tempestades se encontraram diretamente sobre o Estreito de Cook: o ciclone tropical Giselle, vindo do norte, e uma frente polar avançando do sul.
A convergência desses sistemas gerou uma tempestade de intensidade extrema, com rajadas que chegaram a aproximadamente 275 km/h em alguns pontos. O impacto na cidade foi imediato. Telhados foram arrancados, veículos de emergência tombaram e áreas inteiras ficaram inacessíveis.
Naquele mesmo momento, o ferry TEV Wāhine tentava entrar no porto com mais de 700 pessoas a bordo. As condições rapidamente se tornaram incontroláveis. Ondas gigantes e ventos extremos desviaram o navio de sua rota, levando-o ao encalhe em um recife.
Após horas à deriva, a evacuação foi ordenada. Apenas parte dos botes salva-vidas pôde ser lançada devido à inclinação da embarcação. Centenas de pessoas foram arrastadas até a costa. Ao final, 51 pessoas morreram no desastre, que se tornou a maior tragédia marítima moderna da Nova Zelândia.
Como é viver na cidade mais ventosa do planeta
Wellington abriga cerca de 419 mil habitantes e desempenha papel central na política, cultura e economia da Nova Zelândia. Viver na cidade implica conviver com o vento como parte permanente do cotidiano.
O impacto é direto em várias áreas. O aeroporto da cidade, com pista relativamente curta e exposta, sofre cancelamentos frequentes de voos. As balsas que cruzam o Estreito de Cook também são interrompidas regularmente devido às condições adversas.
Nas ruas, rajadas podem derrubar ciclistas, arrastar objetos e transformar estruturas em risco potencial. Em eventos extremos, autoridades emitem alertas de risco à vida, recomendando que a população permaneça em ambientes fechados.
Por outro lado, o vento constante traz um efeito colateral positivo: a dispersão de poluentes. Wellington apresenta níveis de qualidade do ar significativamente melhores do que cidades com menor circulação atmosférica.
Arquitetura e adaptação urbana ao vento extremo
A cidade desenvolveu ao longo de décadas uma arquitetura adaptada às condições climáticas. Casas tradicionais foram construídas com estruturas mais baixas e resistentes, frequentemente posicionadas em áreas protegidas por colinas.
A topografia acidentada da região cria microclimas distintos. Em alguns bairros, o vento é parcialmente bloqueado, enquanto em outros, especialmente os voltados para o estreito, a intensidade é máxima.
Essa variação espacial exige soluções específicas de construção e planejamento urbano, tornando Wellington um caso único de adaptação arquitetônica ao vento extremo.
O vento como recurso energético estratégico na Nova Zelândia
A mesma força que causa interrupções e riscos também se tornou um ativo energético. Wellington abriga parques eólicos importantes, como West Wind e Mill Creek, que juntos somam mais de 200 megawatts de capacidade instalada.
A combinação dos Quarenta Rugidores com os efeitos de canalização do Estreito de Cook cria um dos maiores potenciais eólicos do mundo. Algumas turbinas operam com fator de capacidade superior a 50%, um dos índices mais elevados para energia eólica terrestre.
A Nova Zelândia tem ampliado o uso desse recurso, consolidando o vento como parte fundamental de sua matriz energética.
A cidade construída exatamente onde o vento se intensifica
Wellington não foi escolhida apesar do vento, mas por uma combinação de fatores geográficos e estratégicos. Em 1865, comissários responsáveis por definir a capital avaliaram a posição central da cidade, a qualidade do porto e sua conectividade entre as duas ilhas.
O vento foi considerado um custo inevitável. A localização, no entanto, oferecia vantagens logísticas decisivas para a administração do país. A cidade acabou sendo construída exatamente na saída de um dos corredores de vento mais intensos do planeta.
Entre os navegadores da Era das Velas, havia um ditado conhecido: “Abaixo dos 40 graus sul, não há lei. Abaixo dos 50, não há Deus.” Essa frase descrevia a intensidade dos ventos no Hemisfério Sul.
Wellington está a 41° sul, exatamente na transição dessa faixa. Um ponto no mapa onde a atmosfera se comprime, acelera e ganha força. O vento ali não é exceção. É a regra.


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