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Marrocos quer acabar com a escassez de água e o mar é o segredo: país investe US$ 14 bilhões, constrói a maior usina de dessalinização da África e pretende tirar 60% da água potável do oceano até 2030

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 17/06/2026 às 22:24
Atualizado em 17/06/2026 às 22:56
Marrocos investe em dessalinização para obter 60% da água potável do mar até 2030 e enfrentar secas com energia renovável e projeto bilionário.
Marrocos investe em dessalinização para obter 60% da água potável do mar até 2030 e enfrentar secas com energia renovável e projeto bilionário.
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Megaprojetos de dessalinização, energia renovável e obras hídricas colocam o Marrocos no centro de uma estratégia africana para enfrentar secas prolongadas, proteger o abastecimento urbano e reduzir a dependência das chuvas em um cenário de pressão crescente sobre reservatórios e lavouras.

O Marrocos ampliou os investimentos em dessalinização para reduzir a dependência das chuvas e pretende obter 60% da água potável a partir do mar até 2030, em uma estratégia que reúne usinas de grande porte, energia renovável, novas barragens e obras de transferência hídrica.

A política ganhou prioridade depois de sete anos de seca, período que pressionou reservatórios, lavouras e o abastecimento urbano no país do Norte da África, segundo informações divulgadas sobre o plano hídrico marroquino.

Em janeiro de 2026, o governo marroquino declarou o fim da seca prolongada, após chuvas de inverno elevarem o nível médio dos reservatórios para cerca de 46%, de acordo com dados informados por autoridades do país.

Apesar da recuperação parcial dos reservatórios, o plano de longo prazo foi mantido, porque a irregularidade das precipitações passou a ser tratada pelo governo como um risco estrutural para a segurança hídrica.

Maior usina de dessalinização da África avança em Casablanca

A principal obra dessa estratégia é a usina de dessalinização de Casablanca, em construção em Sidi Rahal, na região da Grande Casablanca, área ligada a uma das maiores concentrações urbanas e econômicas do país.

O projeto tem investimento de 6,5 bilhões de dirhams marroquinos, equivalente a cerca de 613 milhões de euros, e será executado por meio de uma parceria público-privada com o Escritório Nacional de Eletricidade e Água Potável do Marrocos.

Quando estiver concluída, a unidade deverá atender Casablanca, Settat, Berrechid, Bir Jdid e áreas vizinhas, regiões que concentram parte relevante da demanda urbana, industrial e agrícola no entorno da maior cidade marroquina.

A Acciona, uma das empresas responsáveis pelo empreendimento, informa que a planta terá capacidade de até 300 milhões de metros cúbicos por ano e será a maior usina de dessalinização da África.

Como funciona a dessalinização no Marrocos

Marrocos investe em dessalinização para obter 60% da água potável do mar até 2030 e enfrentar secas com energia renovável e projeto bilionário.
Marrocos investe em dessalinização para obter 60% da água potável do mar até 2030 e enfrentar secas com energia renovável e projeto bilionário.

A dessalinização transforma água do mar em água doce, geralmente por osmose reversa, processo no qual bombas de alta pressão empurram a água por membranas que retêm o sal e permitem a produção de água potável.

Essa tecnologia já é usada em países com escassez hídrica, mas exige consumo elevado de energia e pode ampliar emissões quando as usinas dependem de combustíveis fósseis para operar.

Para reduzir esse problema, o Marrocos passou a associar novos projetos hídricos à expansão de fontes renováveis, em linha com a estratégia do país para ampliar a oferta de água sem elevar na mesma proporção a demanda por energia fóssil.

No caso de Casablanca, a Acciona informa que o fornecimento de energia será garantido por fonte eólica renovável, por meio de contrato de compra de energia com produtor marroquino.

Segundo a empresa, o uso de energia renovável pode ajudar a reduzir custos operacionais no longo prazo e limitar a pegada de carbono da produção de água dessalinizada.

A dessalinização, porém, também gera impactos ambientais que exigem controle técnico e regulatório, especialmente no descarte da salmoura produzida durante o tratamento da água do mar.

O processo gera salmoura, resíduo com alta concentração de sal e produtos usados no tratamento da água, que normalmente é devolvido ao mar depois da separação da água doce.

Marrocos investe em dessalinização para obter 60% da água potável do mar até 2030 e enfrentar secas com energia renovável e projeto bilionário.
Marrocos investe em dessalinização para obter 60% da água potável do mar até 2030 e enfrentar secas com energia renovável e projeto bilionário.

De acordo com estudos ambientais sobre esse tipo de operação, o descarte sem controle pode afetar ecossistemas costeiros e ampliar a pressão sobre áreas marinhas sensíveis.

Agricultura segue como ponto mais delicado

A água é um tema estratégico para o Marrocos porque a agricultura consome grande parte dos recursos hídricos e sustenta parcela relevante do emprego rural, segundo dados citados no debate sobre a crise hídrica do país.

A seca prolongada reduziu o rebanho nacional, pressionou preços de alimentos e elevou o desemprego, em um cenário que expôs a relação direta entre a política agrícola e a disponibilidade de água.

Nesse contexto, a dessalinização pode aliviar cidades costeiras e liberar água de barragens para regiões do interior, onde lavouras e oásis dependem mais das chuvas, dos reservatórios e da recarga natural dos aquíferos.

Ainda assim, o uso agrícola da água dessalinizada permanece limitado pelo preço, especialmente em culturas de baixo valor comercial, como trigo e outros cereais que dependem de grandes volumes de irrigação.

A situação é diferente em áreas costeiras voltadas à exportação, onde frutas, tomates e hortaliças podem absorver custos mais altos quando cultivados em sistemas de maior produtividade e maior retorno comercial.

Regiões como Souss-Massa entram nesse modelo por concentrarem produção agrícola intensiva e orientada ao mercado externo, principalmente em atividades que dependem de irrigação regular para manter contratos e padrões de exportação.

Para pequenos produtores, o acesso à água dessalinizada tende a depender de subsídios, mistura com águas residuais tratadas e soluções menores alimentadas por energia solar, quando houver viabilidade técnica e financeira.

Plano inclui barragens e rodovias hídricas

Marrocos investe em dessalinização para obter 60% da água potável do mar até 2030 e enfrentar secas com energia renovável e projeto bilionário.
Marrocos investe em dessalinização para obter 60% da água potável do mar até 2030 e enfrentar secas com energia renovável e projeto bilionário.

A estratégia marroquina não se limita às usinas costeiras, porque o país também investe em barragens, obras de transferência de água e projetos de reaproveitamento para reorganizar a distribuição do recurso.

O objetivo é deslocar excedentes de bacias mais úmidas para áreas mais secas, em uma tentativa de reduzir a pressão sobre reservatórios regionais e ampliar a segurança do abastecimento em períodos de estiagem.

Atualmente, o Marrocos opera 17 plantas de dessalinização, tem quatro em construção e planeja outras nove até 2030, dentro de uma expansão nacional voltada a ampliar a oferta de água potável.

O plano busca elevar a capacidade total de produção de água dessalinizada para 1,7 bilhão de metros cúbicos por ano, dentro de uma política hídrica mais ampla estimada em cerca de US$ 14 bilhões.

Além das usinas, o governo também restringiu cultivos muito dependentes de água em regiões áridas, como parte da resposta à pressão sobre reservatórios, aquíferos e sistemas agrícolas vulneráveis à estiagem.

A escala do programa coloca o Marrocos entre os países africanos que mais avançam no uso de dessalinização como resposta à escassez hídrica, especialmente em áreas costeiras com demanda urbana crescente.

O modelo acompanha uma tendência regional, já que Norte da África e Oriente Médio concentram parte importante da capacidade mundial de dessalinização por reunirem clima seco, crescimento urbano e forte pressão sobre fontes tradicionais de água doce.

A expansão, no entanto, depende de financiamento público, tecnologia, regulação ambiental e tarifas que permitam o acesso de agricultores mais vulneráveis, conforme apontam especialistas em gestão hídrica.

Nesse cenário, a segurança hídrica de longo prazo envolve não apenas aumentar a quantidade de água produzida, mas também distribuir o recurso com custo viável, impacto ambiental controlado e prioridade para regiões mais expostas à seca.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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