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Uma máquina do tamanho de um avião está escondida sob as águas do Reino Unido, girando pás a 14 rotações por minuto e transformando a força das marés em eletricidade — um experimento que pode mudar tudo

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 20/01/2026 às 22:01
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Turbinas submarinas no Reino Unido usam correntes de maré para gerar energia limpa com pás girando até 14 rpm no projeto MeyGen.

Quando se fala em energia renovável, a maior parte da discussão global gira em torno de turbinas eólicas, painéis solares e baterias. No entanto, no norte da Escócia, uma infraestrutura altamente técnica está chamando atenção de pesquisadores, governos e investidores: turbinas submarinas instaladas no estreito de Pentland Firth, parte do MeyGen Tidal Stream Project, que utiliza correntes marítimas para produzir eletricidade de forma previsível e contínua.

O diferencial do sistema está no conceito: em vez de capturar ventos imprevisíveis ou luz solar variável, ele aproveita o fluxo das marés, um fenômeno regular, calculável e presente 24 horas por dia. A promessa é simples e ambiciosa: usar máquinas de escala industrial, equipadas com pás que giram até 14 rotações por minuto (rpm), para transformar o movimento do oceano em energia conectada à rede.

Engenharia oculta sob as ondas

As turbinas instaladas na primeira fase do projeto têm dimensões comparáveis às de pequenas aeronaves, com rotores de cerca de 16 metros de diâmetro ancorados no fundo do mar.

Cada unidade pesa dezenas de toneladas e opera em profundidades que variam entre 30 e 50 metros, suportando correntes que podem ultrapassar 10 km/h no Pentland Firth, uma das regiões com maior potencial energético de marés do planeta.

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O Reino Unido é considerado líder em energia de corrente de maré, com estimativas do próprio governo britânico indicando um potencial técnico de até 11 GW apenas nas costas do país. Isso equivale à potência de aproximadamente 11 usinas nucleares de porte médio, segundo estudos de centros oceanográficos britânicos.

O que já existe e o que está por vir

A Fase 1A do MeyGen entrou em operação comercial em 2017, com quatro turbinas submarinas e capacidade combinada de 6 MW.

Segundo dados divulgados pela própria operadora (atualmente SAE Renewables) e reportagens da BBC e de veículos britânicos especializados, o conjunto já ultrapassou a marca de 70 GWh gerados, o suficiente para abastecer milhares de residências escocesas ao longo dos anos de operação.

Além do desempenho técnico, uma vantagem central é a previsibilidade da geração. Ao contrário do vento e do sol, a energia de maré pode ser projetada com precisão séculos à frente, já que depende de ciclos astronômicos da gravidade solar e lunar. Isso torna o sistema estratégico para compor matrizes elétricas que buscam estabilidade.

O plano de expansão prevê fases subsequentes que poderiam elevar a capacidade total para 398 MW, o que transformaria o MeyGen no maior parque de energia de maré do mundo.

Projetos desse tipo têm interesse direto em mercados como Reino Unido, Canadá, França e Coreia do Sul, que possuem geografias favoráveis a correntes estreitas.

O que torna as turbinas do projeto MeyGen tão resistentes?

A operação em ambiente marinho exige engenharia de materiais, hidrodinâmica e manutenção extremamente rigorosa.

As turbinas são construídas com ligas resistentes à corrosão e bioincrustação, sistemas de monitoramento remoto e estruturas de base que suportam milhares de toneladas de pressão dinâmica causadas pela água em movimento.

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As pás funcionam como hélices invertidas: em vez de empurrar para frente, são empurradas pela corrente e acionam geradores selados que convertem o movimento em energia elétrica. Toda a plataforma é conectada ao continente por cabos submarinos de alta tensão.

Quantas dessas máquinas seriam necessárias para fazer diferença?

De acordo com relatórios energéticos do governo britânico, a energia de maré poderia atender até 20% da demanda elétrica do Reino Unido se o potencial oceânico fosse completamente aproveitado.

Países como França e Canadá também já estudam projetos semelhantes, e a UE incluiu a energia de maré em seus planos estratégicos de renováveis para 2030.

Do experimento para a geopolítica da energia

A corrida por tecnologias renováveis está deixando de ser apenas uma pauta ambiental e se tornando um tema de segurança energética. Países insulares e regiões com grandes litorais enxergam na energia de maré uma alternativa para reduzir dependência de gás natural importado, um fator que ganhou força após a crise energética europeia de 2021–2022.

A expansão da energia de maré envolve desafios industriais, desde a construção de turbinas maiores até padronização de manutenção submarina.

Ainda assim, o interesse internacional está crescendo, com novos financiamentos da UK Research and Innovation (UKRI), acordos privados e participação de universidades.

Um experimento que pode escalar

A grande questão agora não é se a energia de maré funciona — ela já funciona, está conectada à rede e produz diariamente, mas quando e como ela se tornará competitiva em escala mundial.

A previsibilidade, a alta densidade energética e o potencial para operar durante a noite e no inverno fazem do projeto uma peça estratégica no quebra-cabeça da transição energética.

À medida que máquinas do tamanho de aeronaves continuam girando silenciosamente sob as águas da Escócia, engenheiros monitoram dados, governos avaliam custos e investidores observam com atenção. Se a tese se confirmar, a próxima grande revolução energética talvez não venha do céu — e sim do fundo do mar.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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