Satélite Sentinel-3 registrou floração de fitoplâncton de mais de 200 mil km² no Mar de Barents, acima da Escandinávia.
Uma imagem capturada em 3 de agosto de 2023 por um dos satélites Copernicus Sentinel-3 revelou uma enorme mancha verde e azulada no Mar de Barents, ao norte da Península Escandinava. Segundo o programa europeu Copernicus, o fenômeno cobria mais de 200 mil km², uma área maior que países como Uruguai, Síria ou Camboja. À primeira vista, a coloração poderia parecer poluição, óleo ou alguma descarga química no oceano. Mas o que os sensores registraram era uma grande floração de fitoplâncton, formada por organismos microscópicos semelhantes a plantas que flutuam nos mares e sustentam boa parte da cadeia alimentar marinha.
A mancha gigante apareceu no alto norte europeu como se o oceano tivesse sido pintado de verde
O Mar de Barents fica entre o norte da Noruega, a Rússia e o Oceano Ártico. É uma região fria, estratégica e biologicamente ativa, onde massas de água atlântica e ártica se encontram.
No verão, a luz solar prolongada, o aquecimento superficial e a estratificação da água criam condições favoráveis para o crescimento explosivo do fitoplâncton. O Copernicus já havia registrado florações semelhantes na região em outros anos, especialmente entre julho e agosto.
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O caso de agosto de 2023 chamou atenção pela escala. Uma área de mais de 200 mil km² significa uma mancha biológica maior que muitos países inteiros, visível do espaço e suficientemente extensa para alterar a aparência do oceano em imagens de satélite.
O fenômeno não era sujeira, mas vida microscópica em escala continental
O fitoplâncton é formado por organismos microscópicos que realizam fotossíntese. Eles usam luz solar, dióxido de carbono e nutrientes dissolvidos na água para crescer.
Apesar do tamanho invisível a olho nu, esses organismos têm impacto planetário. Eles formam a base da cadeia alimentar marinha, alimentando desde pequenos crustáceos até peixes e, indiretamente, grandes animais oceânicos.
O Copernicus descreve essas florações como fenômenos essenciais ao ciclo de nutrientes marinhos e à produtividade dos oceanos. Em 2025, o próprio programa voltou a registrar redemoinhos turquesa e azul-leitosos no Mar de Barents, explicando que eles são causados por grandes concentrações de fitoplâncton.
Por que o Mar de Barents favorece florações tão grandes
O verão no Ártico e nas regiões subárticas cria uma combinação poderosa para o fitoplâncton. Com mais luz solar, camadas superficiais mais aquecidas e separação entre águas de diferentes temperaturas e salinidades, os organismos conseguem permanecer em zonas iluminadas por mais tempo. Essa estratificação favorece o crescimento das florações.

O Mar de Barents também está ligado ao transporte de calor do Atlântico em direção ao Ártico. O Copernicus observa que a região participa do processo de dissipação de calor das águas superficiais e que mudanças climáticas podem alterar esse equilíbrio, ampliando o processo conhecido como “atlantificação” do Ártico.
Isso torna a região especialmente importante para cientistas que monitoram o clima, a produtividade marinha e as mudanças nos ecossistemas polares.
Satélites conseguem enxergar organismos que o olho humano jamais veria do espaço
A escala do fenômeno só é compreendida graças aos satélites. O Sentinel-3, parte do programa Copernicus da União Europeia, monitora a cor do oceano, temperatura da superfície marinha, gelo, vegetação e outros parâmetros ambientais.
No caso das florações, os sensores detectam variações na cor da água associadas à presença de pigmentos como a clorofila.

Sem esse tipo de observação, uma mancha de 200 mil km² poderia passar despercebida em sua real dimensão. Navios e aviões veriam apenas trechos isolados. O satélite mostra o desenho completo, revelando a escala continental do processo.
Uma explosão de vida que também pode servir como indicador climático
Florações de fitoplâncton não são automaticamente ruins. Em muitos casos, são parte natural e fundamental dos ecossistemas marinhos.
O problema surge quando mudanças de temperatura, circulação oceânica, nutrientes ou clima alteram frequência, localização, intensidade ou composição dessas florações. Algumas espécies podem ser nocivas, enquanto outras sustentam cadeias alimentares inteiras.
No Mar de Barents, o interesse científico é ainda maior porque a região está na fronteira entre o Atlântico e o Ártico. Mudanças ali podem indicar transformações mais amplas no oceano polar, em estoques pesqueiros, na absorção de carbono e na dinâmica climática do hemisfério norte.
O oceano parecia manchado, mas revelava uma engrenagem invisível da vida marinha
A imagem registrada pelo Sentinel-3 impressiona justamente pelo contraste. O que parece uma mancha estranha no mar gelado é, na verdade, uma explosão de organismos microscópicos sustentando parte da vida oceânica.

Em uma área superior a 200 mil km², o fitoplâncton tingiu o Mar de Barents e mostrou como processos invisíveis podem alcançar escala continental.
O fenômeno também reforça a importância do monitoramento por satélite, capaz de transformar redemoinhos coloridos no oceano em dados científicos sobre clima, carbono, nutrientes e biodiversidade.
No fim, a “mancha verde” acima da Escandinávia não era óleo, tinta nem poluição. Era uma das formas mais discretas e poderosas de vida do planeta aparecendo, de repente, em tamanho grande o suficiente para ser vista do espaço.


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