Há mais de 140 anos a Islândia tenta recuperar suas florestas. São 3 milhões de árvores plantadas por ano para reverter o desmatamento que os vikings iniciaram e a erosão que tornou a ilha o terreno mais degradado da Europa, mas a mata cobre só cerca de 2%.
A Islândia está travando uma batalha de séculos para fazer suas florestas voltarem. Hoje, são cerca de 3 milhões de árvores plantadas todos os anos, num esforço para reverter mais de mil anos de desmatamento e erosão que deixaram a ilha quase sem mata.
Tudo começou quando os primeiros colonizadores vikings chegaram à ilha, por volta do ano 874, e encontraram um território coberto de florestas. Em cerca de 300 anos, quase todas as árvores foram derrubadas, e a Islândia se tornou um dos lugares mais erodidos do planeta. Mais de um século de trabalho aumentou a cobertura de mata em apenas cerca de 1,5%.
Como os vikings transformaram a ilha verde em deserto

Quando os vikings desembarcaram, por volta de 874, a paisagem era bem diferente da atual. Estima-se que florestas de bétulas cobrissem então entre 25% e 40% da Islândia, indo da costa até as regiões montanhosas. Para sobreviver aos invernos rigorosos do Atlântico Norte, os colonos passaram a cortar árvores em ritmo acelerado, usando a madeira para construir casas, produzir ferro e abrir pastos para as ovelhas. Em cerca de 300 anos, por volta de 1200, a maior parte dessas florestas havia desaparecido.
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O problema é que o desmatamento não parou na perda das árvores. Sem as raízes para segurar o terreno, o fértil solo vulcânico, chamado andossolo, que levou milênios para se formar, ficou exposto. Por ser pouco coeso quando não há vegetação, ele é hoje um dos mais vulneráveis à erosão no mundo. Em vez de se desgastar devagar, o solo foi literalmente carregado pelo vento rumo ao mar, e no século XIX mais da metade do território já sofria com erosão severa.
A tempestade de areia de 1882 que mudou tudo

O ponto de virada veio com uma catástrofe. Em 1882, a leste de Reykjavík, uma tempestade de areia durou quase duas semanas e soterrou Gunnarsholt, uma das fazendas mais antigas da Islândia, a cerca de 100 km da capital. A força do vento arrancou as plantas do solo, matou centenas de ovelhas, cuja lã ficou tomada de areia, e encheu de terra um lago próximo. Quando tudo terminou, agricultores chegaram a encontrar peixes sobre o chão seco, onde antes havia água.
Foi depois desse desastre que começou, há mais de 140 anos, o esforço de plantar árvores e conter a erosão. Mesmo assim, os resultados pareciam pequenos: a cobertura florestal saiu de cerca de 1% no início do século XX para apenas cerca de 2% hoje, um avanço de só 1,5% em mais de cem anos. Segundo o serviço florestal islandês, mantido esse ritmo, o país levaria mais 150 anos apenas para chegar a 5% de floresta.
Por que plantar árvores não bastava: o segredo está no solo
Durante muito tempo, os projetos de reflorestamento erravam no foco. Acreditava-se que bastava distribuir mudas para que as matas voltassem sozinhas. Só que o terreno já não era o mesmo que os vikings haviam derrubado mil anos antes. Séculos de erosão levaram quase toda a camada fértil, deixando apenas solo mineral compactado, rocha vulcânica e areia, onde as pequenas bétulas não conseguiam criar raízes nem sobreviver ao inverno.
Diante disso, o serviço de conservação do solo da Islândia criou um método em duas etapas, inédito naquela escala. Primeiro, vinha a estabilização: nas áreas mais destruídas, plantava-se um capim resistente, capaz de crescer até na areia vulcânica e segurar o terreno, enquanto cercas barravam a entrada das ovelhas. Depois, era preciso esperar anos, às vezes décadas, até o solo acumular matéria orgânica e vida suficientes. Só então as árvores plantadas tinham chance de vingar.
As árvores que sobrevivem ao frio e o retorno da vida
A segunda inovação foi escolher bem as espécies. Após 23 anos de testes em locais castigados por vento e geada, o serviço florestal viu que as árvores mais resistentes vinham de regiões de clima parecido, como o lariço siberiano, o pinheiro lodgepole e o choupo negro, que sobreviviam onde espécies europeias morriam. Hoje, cerca de um terço dos 3 milhões de mudas plantadas por ano são bétulas nativas, e o restante são espécies estrangeiras usadas para estabilizar o solo enquanto ele se recupera.
Os efeitos surpreenderam até os cientistas. Segundo o monitoramento das novas florestas, a absorção de carbono saltou de cerca de 65 mil toneladas de CO2 por ano em 1995 para perto de 127 mil toneladas anos depois.
Na mais antiga mata do país, Hallormsstaðaskógur, no leste da ilha, protegida em 1905, lariços e bétulas já chegam a 20 metros de altura. Com as árvores plantadas, voltaram também os animais: pequenas aves de floresta passaram a aparecer e a nidificar em uma Islândia que, em alguns casos, nunca havia tido sequer nomes próprios para elas.
O tremoço invasor e as ovelhas: os dilemas que continuam
Nem tudo, porém, saiu como planejado. Em 1945, para acelerar a recuperação do solo, foi introduzido o tremoço-do-alasca, planta capaz de fixar nitrogênio e crescer em terrenos pobres. Funcionou rápido demais: hoje ele cobre cerca de 314 km² da Islândia e é considerado oficialmente uma espécie invasora, já que não distingue áreas degradadas de ecossistemas frágeis.
Modelos científicos apontam que cerca de 13% do território têm condições ideais para a planta, área que pode mais do que dobrar até o fim do século, ameaçando a vegetação nativa das terras altas.
O outro desafio antigo são as ovelhas. Trazidas pelos vikings no século IX, elas circulam livremente pelas terras altas todos os verões, e uma lei antiga atribui ao dono da terra, e não ao criador, a responsabilidade de cercar as áreas.
Por isso, quase todo reflorestamento moderno acontece dentro de cercas, pois, do lado de fora, as mesmas forças que destruíram as matas originais seguem atuando. Apesar de tudo, o governo islandês mira agora uma meta bem mais ousada: elevar a cobertura florestal para pelo menos 10% do território.
Mais de um século de árvores plantadas para reverter o desmatamento dos vikings e a erosão mostra que recuperar uma floresta pode levar gerações.
Conte nos comentários se você acha que vale a pena insistir nesse tipo de projeto, mesmo com resultados tão lentos.


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