Após quase cinco anos de trabalho, cerca de 550 cientistas de 86 países entregaram à ONU a maior avaliação já feita sobre o oceano. O relatório mostra que o nível do mar sobe cada vez mais rápido e que mudanças climáticas e poluição ameaçam o futuro de bilhões de pessoas.
Um grupo de cerca de 550 cientistas de 86 países passou quase cinco anos debruçado sobre a saúde dos mares e chegou a uma conclusão preocupante. Segundo eles, a velocidade com que o nível do mar sobe praticamente dobrou, passando de até 1,9 milímetro por ano antes de 2015 para 4,3 milímetros por ano em 2023.
As conclusões estão na Avaliação Mundial dos Oceanos, relatório de cerca de 1.600 páginas divulgado pela ONU. O documento reúne os principais dados sobre o oceano e faz um alerta direto: o futuro de bilhões de pessoas vai depender, na próxima década, de como a humanidade reagir às mudanças climáticas e à poluição.
O que 550 cientistas descobriram sobre o oceano

O tamanho do estudo dá a medida da sua importância. Cerca de 550 cientistas de 86 países dedicaram quase cinco anos para produzir a Avaliação Mundial dos Oceanos, divulgada pela ONU e considerada a mais completa já feita sobre o tema, com cerca de 1.600 páginas. O ponto de partida é simples: o oceano cobre mais de 70% do planeta, regula o clima ao absorver boa parte do excesso de calor e dos gases de efeito estufa, fornece oxigênio e alimento e sustenta trilhões de dólares em economia.
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O problema é que toda essa estrutura está sob pressão crescente. A população mundial chegou a 8,2 bilhões de pessoas em 2024, e cerca de 37% delas vivem a menos de 100 km da costa, o que concentra a atividade humana nas zonas costeiras e aumenta a extração de recursos, o descarte de resíduos e a degradação de habitats. Ao mesmo tempo, segundo os cientistas, cresce a ocupação no mar aberto, com parques eólicos, infraestrutura de petróleo em águas profundas e cabos submarinos alterando ambientes cada vez mais distantes da praia.
Nível do mar dobrou e o Ártico esquenta quatro vezes mais rápido

Entre os dados mais alarmantes estão os ligados às mudanças climáticas. A taxa de elevação do nível do mar, puxada pelo derretimento das calotas polares e pela expansão da água aquecida, dobrou: era de até 1,9 milímetro por ano antes de 2015 e chegou a 4,3 milímetros por ano em 2023. No Ártico, o aquecimento avança quatro vezes mais rápido do que a média global, um ritmo que assusta os pesquisadores.
Os números seguem preocupantes em outras frentes. De acordo com o relatório, 16% de todo o aumento de temperatura do oceano registrado desde 1955 aconteceu apenas depois de 2018, mostrando uma aceleração recente. Já as chamadas zonas mortas, onde o nível de oxigênio é tão baixo que a maior parte da vida marinha não sobrevive, somam hoje 4,5 milhões de quilômetros quadrados. Sem o efeito de resfriamento do oceano, alertam os cientistas, os eventos climáticos extremos tendem a ficar mais frequentes.
Corais sumindo e poluição por plástico em alta

A perda de vida marinha é outro alerta forte. Os recifes de coral do Caribe encolheram cerca de 80% desde a década de 1970 e, segundo o relatório, até 90% dos recifes do mundo podem desaparecer caso o aquecimento ultrapasse 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Ecossistemas como manguezais e pradarias marinhas continuam a diminuir, enquanto espécies que vão do plâncton aos mamíferos marinhos migram em direção aos polos à medida que a água esquenta.
A poluição, por sua vez, só aumenta. A cada ano, 52 milhões de toneladas de plástico chegam ao oceano, formando um total estimado em 24 trilhões de partículas de microplástico, que já afetam mais de 4.000 espécies marinhas. Os cientistas também detectaram mais de 4.000 compostos de remédios e produtos de higiene nas águas. Em meio aos alertas, há uma boa notícia ligada à poluição: poluentes históricos como o mercúrio recuaram em algumas regiões, mostrando que a ação humana pode dar resultado.
Pesca, economia e a corrida para salvar o oceano
O peso econômico do oceano ajuda a entender o tamanho do risco. Os mares fornecem cerca de 20% de toda a proteína animal consumida no mundo, a aquicultura marinha virou uma indústria de US$ 90 bilhões e 121 milhões de pessoas praticam pesca recreativa. Ainda assim, a pressão é grande: em 2021, 37% dos estoques pesqueiros estavam sobrepescados, e a pesca ilegal retira de 8 a 14 milhões de toneladas por ano, movimentando entre US$ 9 e 17 bilhões em receitas ilícitas. Some-se a isso uma economia oceânica avaliada em US$ 1,5 trilhão ao ano, com projeção de passar de US$ 3 trilhões até 2030, e um setor de turismo que sustenta 174 milhões de empregos.
Diante desse cenário, os cientistas afirmam que existem saídas, como soluções baseadas na natureza, redução de emissões e mais áreas marinhas protegidas. O alerta, porém, é honesto: restaurar totalmente os ecossistemas do oceano ajudaria em apenas cerca de 2% das metas globais de combate às mudanças climáticas, o que mostra que só medidas pontuais não bastam. Com a governança ainda fragmentada, dividida em 57 tratados internacionais, e apenas 27% do fundo do mar mapeado, o relatório da ONU conclui que a próxima década será decisiva para evitar que a degradação ameace a segurança alimentar e o bem-estar de bilhões de pessoas.
Saber que o nível do mar dobrou de velocidade e que cientistas ligam o futuro de bilhões de pessoas à saúde do oceano transforma um tema distante em algo urgente.
Conte nos comentários se você acredita que o mundo vai agir a tempo contra as mudanças climáticas e a poluição dos mares.

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