Com 35 poços ligados à extração de sal gema, Braskem passou a enfrentar uma das maiores crises urbanas do Brasil após o solo ceder em Maceió, capital de Alagoas, no Nordeste do Brasil, e expulsar milhares de famílias de casa
A Braskem passou de gigante petroquímica a nome central de uma das maiores crises urbanas e ambientais do Brasil. A empresa operou a extração de sal gema no subsolo de Maceió, capital de Alagoas, no Nordeste do Brasil, em áreas que depois registraram afundamento, rachaduras e evacuação em massa.
O caso atingiu bairros como Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol. Ruas inteiras perderam moradores, imóveis foram interditados e uma parte importante da cidade passou a ser tratada como área de risco.
O impacto não ficou limitado ao solo. A crise derrubou rotinas, separou famílias de casas onde viveram por décadas e colocou a empresa no centro de acordos, indenizações e cobranças públicas que ainda pesam sobre a capital alagoana.
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Braskem explorou sal gema por mais de 40 anos em áreas urbanas de Maceió
A exploração de sal gema ocorreu por décadas no subsolo de Maceió. O mineral era retirado em uma região urbana, abaixo de bairros que já tinham casas, prédios, escolas, comércio e vida comunitária consolidada.
O Serviço Geológico do Brasil registrou que os estudos feitos entre 2018 e 2019 investigaram a movimentação do solo em bairros onde existia exploração de sal gema havia mais de 40 anos. Após a conclusão dos estudos em 2019, as atividades da Braskem foram paralisadas e o monitoramento passou a ser coordenado pela Defesa Civil de Maceió.
A crise revelou o risco de uma atividade mineral em área densamente ocupada. Quando o solo começou a se mover, o problema saiu do campo técnico e passou a atingir diretamente a vida de milhares de moradores.

35 poços de sal estavam ligados à operação da empresa nos bairros afetados
A própria Braskem informa que havia 35 poços de sal operados nos bairros afetados, já paralisados desde maio de 2019. A empresa diz que propôs em novembro daquele ano a remoção preventiva de moradores da área de resguardo ao redor desses poços.
Essa área inicial, segundo a companhia, somava cerca de 550 imóveis. Depois, o processo de desocupação avançou com base no mapa da Defesa Civil, alcançando trechos de Mutange, Pinheiro, Bebedouro, Bom Parto e Farol.
O número de poços ajuda a dimensionar a escala da operação. A crise não nasceu de um ponto isolado, mas de uma rede subterrânea ligada à retirada de mineral em uma cidade já habitada.
Afundamento virou caso nacional após evacuação de imóveis e risco de colapso
O problema ganhou dimensão nacional quando o afundamento avançou e moradores começaram a deixar suas casas. O Ministério Público Federal afirma que o caso envolve mais de 14 mil imóveis e cerca de 60 mil pessoas diretamente afetadas pela subsidência, nome técnico para o afundamento do solo.
A partir de 2019, órgãos públicos passaram a atuar de forma coordenada para evacuar áreas de maior risco e buscar reparação. A prioridade declarada foi evitar perda de vidas, enquanto acordos tentavam organizar indenizações e medidas de mitigação.
A situação se agravou novamente em novembro de 2023, quando foram registrados sismos e movimentação vertical do solo na região da cavidade 18 durante a preparação para preenchimento da estrutura.
Empresa criou programa de compensação após bairros ficarem vazios
A Braskem criou o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação para atender moradores, proprietários e comerciantes das áreas desocupadas. A companhia afirma que cerca de 14,5 mil imóveis foram incluídos no programa.
Até março de 2026, foram feitas mais de 19 mil propostas, com índice de aceitação superior a 99%. A empresa também afirma que mais de 99,6% das indenizações previstas já foram pagas.
Além das indenizações, o programa inclui mudança, aluguel provisório, apoio para documentação, busca por novo imóvel e atendimento psicológico. Mesmo assim, o dano social ultrapassa o valor financeiro, porque envolve perda de território, memória e convivência.
Acordo socioambiental colocou reparação, monitoramento e futuro dos bairros na conta da empresa

Em dezembro de 2020, autoridades públicas e Braskem assinaram um Termo de Acordo Socioambiental para tratar dos impactos deixados pela desocupação. O documento envolve medidas para reparar, mitigar ou compensar danos em Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol.
As ações foram divididas em três frentes: área sociourbanística, meio ambiente, estabilização e monitoramento. O plano inclui diagnóstico, medidas ambientais, acompanhamento do solo e discussão sobre o futuro das áreas esvaziadas.
A Braskem afirma que toda a área de risco definida pela Defesa Civil em 2020 está 100% desocupada. Esse dado mostra a dimensão da transformação: regiões antes ocupadas por famílias, comércio e circulação diária passaram a ter controle permanente.
Novo acordo de R$ 1,2 bilhão ampliou o custo financeiro do desastre
Em 2025, a Braskem anunciou um acordo de R$ 1,2 bilhão com o estado de Alagoas para indenizações relacionadas ao desmoronamento do solo em bairros de Maceió. A Agência Brasil informou que o desastre foi causado pela extração de sal gema desenvolvida pela companhia.
O valor deve ser pago ao longo de 10 anos, com R$ 139 milhões já desembolsados no momento do anúncio. O acordo também prevê compensação, indenização e ressarcimento ao estado por danos patrimoniais e extrapatrimoniais.
A negociação mostra que o caso continua produzindo efeitos financeiros e jurídicos anos depois do início da remoção dos moradores. Para a empresa, o episódio deixou de ser apenas uma questão operacional e virou um passivo de longo prazo.
Caso Braskem mudou a forma como o Brasil olha para mineração em áreas urbanas
A tragédia em Maceió expôs o risco de atividades subterrâneas em áreas densamente povoadas. Quando a instabilidade apareceu na superfície, o que estava escondido no subsolo passou a controlar o destino de bairros inteiros.
A empresa ficou associada a uma crise que combina mineração, dano urbano, indenizações, acordos ambientais e deslocamento forçado. Para milhares de moradores, a discussão não é apenas sobre solo, mas sobre casas perdidas, vizinhos dispersos e futuro interrompido.
O caso também pressiona empresas, governos e órgãos de fiscalização a tratarem operações minerais em áreas urbanas com outro nível de rigor. Em Maceió, capital de Alagoas, no Nordeste do Brasil, a extração de sal gema deixou uma marca que ainda redefine a cidade.

