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Um plano bilionário, com custo estimado em até US$ 50 bilhões, propõe bombear água do mar para a superfície do Ártico a fim de engrossar o gelo marinho e tentar conter o aquecimento acelerado da região, reduzindo impactos climáticos em escala global

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 23/02/2026 às 08:52
Atualizado em 23/02/2026 às 08:55
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Arctic Ice Management propõe usar bombas eólicas no Ártico para bombear água do mar ao gelo no inverno, congelar e engrossar a camada com custo de até US$ 50 bi/ano.

O Oceano Ártico tem uma característica que, por décadas, funcionou como “escudo” do planeta: o gelo marinho. Ele reflete grande parte da luz solar, ajuda a manter a região fria e influencia padrões atmosféricos e oceânicos. Só que esse gelo vem diminuindo em ritmo bem documentado por satélites. A NASA, com base em dados do NSIDC, aponta que a extensão média de gelo em setembro (quando o Ártico costuma atingir o mínimo anual) vem caindo cerca de 13,4% por década em relação à média de 1981–2010.

É dentro desse pano de fundo — gelo mais raro, mais fino e mais vulnerável — que um grupo ligado à Arizona State University (ASU) apresentou uma ideia que parece industrial e ao mesmo tempo simples na lógica física: usar o inverno do Ártico para fabricar mais gelo, puxando água do mar para cima e deixando o frio fazer o resto. A proposta ganhou nome formal, Arctic Ice Management (AIM), e foi publicada em um artigo na Earth’s Future com DOI 10.1002/2016EF000410.

A seguir, o que o estudo descreve: como seriam os dispositivos, quanta água precisaria ser bombeada, qual espessura adicional o gelo poderia ganhar, a escala estimada para uma intervenção relevante e os limites práticos apontados nas análises associadas ao conceito.

O que é o Arctic Ice Management e por que ele foca no inverno

O AIM parte de uma constatação observacional: no verão, o gelo perde área e espessura; no inverno, ele volta a crescer, mas nem sempre “recupera” o suficiente para sobreviver ao ciclo seguinte. A proposta não se baseia em resfriar o planeta diretamente, e sim em aumentar artificialmente a espessura do gelo durante o inverno, em áreas onde a sobrevivência no verão é considerada “marginal” (ou seja, locais em que alguns dezenas de centímetros a mais podem mudar se o gelo aguenta ou não a estação quente).

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O mecanismo descrito é termodinâmico. Em condições de frio intenso, a água exposta congela. Se a água do oceano for levada à superfície do gelo, durante a noite polar e o auge do inverno, ela pode congelar e adicionar volume à placa de gelo.

No artigo, os autores modelam esse processo e relatam que bombear cerca de 1,3 metro de água do mar para cima (ao longo do inverno) equivale a algo como 1,4 metro de gelo, resultando em cerca de 1 metro de aumento de espessura ao final da estação.

Como seriam as “bombas eólicas” no gelo do Ártico

A proposta descreve um equipamento pensado para funcionar no próprio ambiente polar: uma estrutura flutuante (boia) com um sistema de captação de vento e uma bomba. A energia viria do vento do Ártico, com turbina acoplada a um mecanismo capaz de puxar água do oceano por baixo do gelo e liberar essa água por cima da superfície.

No texto do artigo (e nas descrições associadas ao projeto), aparece uma referência de dimensionamento: uma turbina com pás de aproximadamente 6 metros de diâmetro seria suficiente, em princípio, para bombear o volume necessário para cobrir uma área-alvo com a lâmina de água que congelaria ao longo do inverno.

A lógica operacional não é “jogar um lago” de água de uma vez. O conceito depende de bombeamento repetido ao longo da estação fria, criando camadas que congelam e se integram ao gelo existente. O estudo usa um modelo simplificado de congelamento no inverno e derretimento no verão para avaliar quanto espessamento seria obtido e como isso poderia afetar a sobrevivência do gelo na temporada seguinte.

O número que vira manchete: 10 milhões de unidades

Uma parte central do AIM é que ele não descreve um “protótipo isolado” como solução. Ele discute uma escala que, se levada ao pé da letra, entra na categoria de megaprojeto.

O artigo e as divulgações ligadas à ASU afirmam que cada unidade poderia atuar sobre cerca de 0,1 km² de gelo ao longo do inverno. Com essa produtividade por unidade, o cálculo apresentado indica que seriam necessários cerca de 10 milhões de dispositivos para atuar em uma fração relevante do oceano — na discussão, aparece o alvo de ~10% do Oceano Ártico.

Essa escala não é aleatória. Ela deriva de geometria e área: 0,1 km² por unidade é uma “mancha” pequena; para alcançar centenas de milhares a milhões de km², você entra rapidamente na casa de milhões de equipamentos.

Por que “1 metro a mais” é relevante na física do gelo marinho

No artigo, os autores contextualizam a espessura média anual do gelo. O texto menciona que a espessura média anual é próxima de 1,5 metro e que adicionar cerca de 1 metro representa um aumento grande, da ordem de ~70% em certas condições consideradas no modelo.

O estudo também compara esse espessamento com tendências de afinamento. No trecho do PDF, aparece a estimativa de que a espessura média anual estaria diminuindo a uma taxa aproximada de 0,58 m por década, e que “adicionar 1 metro em um ano” seria uma taxa muito superior à perda média estimada no período analisado pelo modelo.

Em volume, o artigo apresenta ordens de grandeza: fala em ~104 km³ de gelo por ano como equivalente do espessamento sobre a área tratada, e menciona uma taxa de perda de volume na casa de ~3200 km³ por década (dependendo do recorte e do conjunto de dados considerado).

Esses números existem no texto como parte do argumento de “escala física”: o plano tenta mostrar que, em teoria, o volume de gelo “fabricado” poderia ser comparável (ou superior) às taxas de perda discutidas no próprio paper, desde que a implantação fosse ampla.

O papel do albedo: gelo claro versus oceano escuro

O estudo e as reportagens explicam a motivação climática principal: o efeito albedo. Gelo e neve refletem mais radiação; água líquida, especialmente oceano, absorve mais. A divulgação da ASU resume esse contraste com um número que costuma circular: gelo reflete grande parte da luz solar, enquanto o oceano absorve grande parte.

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A consequência física do recuo do gelo é conhecida: mais oceano exposto no verão significa mais energia absorvida, o que aquece a água e dificulta o congelamento posterior, alimentando um ciclo de retroalimentação. Esse mecanismo é citado como parte do contexto para explicar por que o Ártico é tratado como uma região “sensível” no sistema climático.

Onde o AIM mira: gelo “marginal” e regiões do oceano com maior vulnerabilidade

O artigo enfatiza que o espessamento seria mais relevante “onde o gelo sobrevive por pouco” ao verão. Isso aponta para áreas em que o gelo sazonal domina e a espessura média está abaixo de patamares mais estáveis. A divulgação da ASU descreve que metade do Oceano Ártico pode ser caracterizada por gelo com espessura média abaixo de ~1,5 m em certos recortes, e que aumentar 1 m em parte da área poderia compensar tendências de perda.

Em termos de narrativa, isso significa mirar locais onde o gelo não é “o mais protegido”, mas onde ainda existe gelo suficiente para receber a intervenção e, em teoria, persistir mais tempo.

Quanto custaria: por que “US$ 50 bilhões” aparece como referência

O seu título fala em “até US$ 50 bilhões”, e isso aparece nas descrições do projeto como custo anual em um cenário de implantação distribuída ao longo de uma década.

A divulgação da ASU descreve a seguinte conta: cerca de 10 milhões de unidades, custo estimado de US$ 50.000 por unidade, implantação ao longo de 10 anos, resultando em algo como US$ 50 bilhões por ano nesse horizonte temporal.

Outras matérias jornalísticas associadas ao tema também repercutiram ordens de grandeza na casa de centenas de bilhões, com variações conforme o enquadramento (custo anual versus custo total de um programa de vários anos).

O que é consistente entre as fontes ligadas ao paper é: a ordem de grandeza vem da multiplicação entre “quantidade de unidades” e “custo unitário” em um cronograma de implantação.

Materiais e capacidade industrial: o que o paper e a divulgação mencionam

A proposta também entra no terreno de capacidade industrial, porque fabricar milhões de estruturas para operar no Ártico não é apenas “uma ideia”: depende de cadeia de suprimentos, materiais e manutenção.

Algumas reportagens que repercutiram o tema mencionaram massa de material necessária (por exemplo, aço) e a escala de fabricação como parte do debate sobre viabilidade industrial.

No paper, o foco está no modelo físico (congelamento e derretimento), no dimensionamento de bombeamento e na área coberta por unidade, mas o próprio enquadramento da ASU deixa claro que se trata de um projeto pensado em “escala de milhões”.

Os desafios práticos que aparecem ao redor do conceito

O estudo apresenta uma proposta e modelagem; as análises e repercussões acrescentam questões operacionais que surgem imediatamente quando se fala em colocar milhões de dispositivos em um oceano com gelo móvel.

Alguns dos pontos recorrentes na discussão pública do AIM incluem: como essas unidades resistiriam a compressão e fratura do gelo, como lidariam com tempestades e deriva do gelo, como seria feita a instalação em massa e como seria a manutenção em um ambiente remoto. A própria divulgação da ASU menciona a necessidade de protótipos e testes para avaliar o que funcionaria “no mundo real”.

Essa parte é importante porque o AIM, como publicado, é uma proposta de engenharia com modelagem: ele descreve um caminho físico para aumentar gelo, mas não se apresenta como tecnologia já pronta e instalada.

O gelo do Ártico em números: o que as séries históricas mostram

A discussão do AIM se encaixa em dados observacionais de longo prazo que mostram queda no gelo, principalmente no fim do verão.

A NASA Earth Observatory, com base em dados do NSIDC, destaca o declínio de ~13,4% por década na extensão de setembro desde 1979, em relação à média 1981–2010.

A NOAA/Arctic Report Card também discute tendências negativas e anomalias de extensão, reforçando que o comportamento de setembro é um dos indicadores centrais acompanhados por séries históricas.
E atualizações recentes (como as análises anuais do NSIDC publicadas via NOAA Climate.gov) continuam situando os mínimos anuais em patamares baixos no registro por satélite, com variação de ano a ano, mas com tendência de longo prazo documentada.

Esse conjunto de dados serve como base para o problema que o AIM tenta endereçar: menos gelo e gelo mais fino são condições iniciais que tornam qualquer verão mais “sensível” a vento, correntes e aquecimento.

Situação do Arctic Ice Management hoje: proposta publicada, sem implantação em escala

As informações disponíveis em fontes ligadas ao paper e à ASU descrevem o AIM como uma proposta publicada e discutida, com chamada para desenvolvimento de protótipos e avaliações posteriores. A divulgação institucional da ASU não descreve um programa em operação no Ártico em escala industrial; ela apresenta o trabalho como artigo e conceito de engenharia a ser avaliado.

No estado descrito publicamente, portanto, o AIM existe como: um artigo revisado/publicado com DOI, uma modelagem física de congelamento e derretimento, um dimensionamento de turbina/bomba e uma conta de escala/custo associada ao número de unidades e à área coberta.

O que o paper coloca no centro: volume, área e espessura como variáveis-chave

Para entender por que essa proposta é tratada como “bilionária” e “de milhões de peças”, a chave está no tripé do próprio artigo: área coberta por unidade, espessura adicional por inverno e volume total de gelo equivalente.

O paper descreve que uma turbina com dimensões específicas poderia bombear água suficiente para congelar e espessar o gelo em cerca de 0,1 km², gerando aproximadamente 1 metro de aumento de espessura. A partir daí, ele escala o raciocínio para milhões de unidades e um alvo de ~10% do Ártico em regiões apropriadas.

A conclusão interna do modelo é: se o espessamento ocorresse na escala indicada e nas áreas “marginais” certas, o impacto físico sobre a espessura anual poderia ser grande o suficiente para competir com tendências de afinamento discutidas no artigo.

O Arctic Ice Management é uma proposta formal publicada na Earth’s Future que descreve um método de engrossamento de gelo marinho no inverno por meio de bombas movidas a vento. O conceito estima que bombear cerca de 1,3 m de água ao longo do inverno pode resultar em cerca de 1 m de espessamento, e que cada unidade poderia atuar em torno de 0,1 km², levando ao número de ~10 milhões de unidades para operar sobre cerca de 10% do Oceano Ártico.

O custo “até US$ 50 bilhões” aparece no enquadramento de implantação em uma década como estimativa anual baseada no custo unitário e no número total de dispositivos propostos.

E a motivação de fundo é sustentada por séries históricas que mostram declínio persistente do gelo marinho, especialmente no fim do verão, com números amplamente reproduzidos por instituições científicas e monitoramento por satélite.

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Mário José Ventura
Mário José Ventura
25/02/2026 16:28

E lá se vão 50 bilhões de dólares para as mãos da vagabundagem que inventa problemas para vender soluções.

Raquel de Lazari
Raquel de Lazari
25/02/2026 16:17

A natureza tem seu curso. Ninguém consegue interferir.

Everardo
Everardo
25/02/2026 11:54

Que plano sem pé nem cabeça. Isto se parece mais com o intuito de lavar dinheiro público, pois mesmo com trilhões nao haveria de dar certo devido ao fato da evaporação acelerada no superfície e, claro, vai sempre resultar no delelo constante. Até uma passoa id**ta saberia disto

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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