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Sozinho no espaço, um planeta errante sem estrela está engolindo 6 bilhões de toneladas por segundo, batendo um recorde que desafia a astronomia e reacende o debate sobre como planetas e estrelas realmente nascem

Escrito por Ana Alice
Publicado em 06/04/2026 às 23:23
Assista o vídeoCha 1107-7626 bate recorde ao devorar 6 bilhões de toneladas por segundo e desafia o que a ciência sabe sobre planetas errantes. (Imagem: Ilustrativa)
Cha 1107-7626 bate recorde ao devorar 6 bilhões de toneladas por segundo e desafia o que a ciência sabe sobre planetas errantes. (Imagem: Ilustrativa)
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Objeto de massa planetária observado sem estrela hospedeira entrou em um episódio raro de acreção e passou a concentrar atenção da astronomia por reunir sinais incomuns de atividade, disco de matéria e características associadas a corpos celestes muito jovens.

Um objeto de massa planetária que vaga sem orbitar nenhuma estrela foi observado absorvendo gás e poeira a uma taxa de aproximadamente 6 bilhões de toneladas por segundo durante um episódio de acreção registrado.

Conhecido oficialmente como Cha 1107-7626, ele está a cerca de 620 anos-luz da Terra, na constelação do Camaleão.

As observações foram feitas com o Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul, e com o telescópio espacial James Webb.

Os dados embasaram um estudo publicado na revista científica The Astrophysical Journal Letters.

Segundo o Observatório Europeu do Sul, o registro corresponde ao maior valor já medido para um objeto de massa planetária em um evento desse tipo.

O caso também passou a ser acompanhado com atenção porque o corpo celeste apresenta características associadas a discos de acreção, estrutura comum em objetos muito jovens.

Para os pesquisadores, os dados ajudam a examinar como se formam corpos isolados de baixa massa e até que ponto eles compartilham processos físicos com estrelas jovens.

O que os astrônomos observaram no Cha 1107-7626

Cha 1107-7626 não pertence a um sistema planetário conhecido e tampouco orbita uma estrela.

Ainda assim, aparece cercado por um disco de gás e poeira que continua alimentando sua superfície.

De acordo com o ESO, o objeto tem entre cinco e dez vezes a massa de Júpiter e está em uma fase inicial de evolução.

As medições indicam que esse processo de alimentação não ocorreu de forma estável ao longo de todo o período observado.

Entre abril e maio de 2025, a atividade estava em um nível mais baixo.

Já entre junho e agosto do mesmo ano, houve um aumento expressivo na taxa de acreção.

Segundo os autores, o salto foi de aproximadamente seis a oito vezes em relação ao estado anterior.

No pico do episódio, a taxa atingiu o equivalente a 10⁻⁷ massas de Júpiter por ano.

No estudo, os pesquisadores classificam esse valor como o maior já obtido para um objeto dessa categoria.

O trabalho é assinado por uma equipe liderada por Víctor Almendros-Abad, do Observatório Astronômico de Palermo, ligado ao Instituto Nacional de Astrofísica da Itália.

Impressão artística mostra Cha 1107-7626. Localizado a cerca de 620 anos-luz de distância, este planeta errante tem cerca de 5 a 10 vezes a massa de Júpiter e não orbita nenhuma estrela  • ESO/L. Calçada/M. Kornmesser
Impressão artística mostra Cha 1107-7626. Localizado a cerca de 620 anos-luz de distância, este planeta errante tem cerca de 5 a 10 vezes a massa de Júpiter e não orbita nenhuma estrela • ESO/L. Calçada/M. Kornmesser

Como o VLT e o James Webb mediram o surto

As observações em solo foram feitas principalmente com o X-shooter, espectrógrafo instalado no VLT, no deserto do Atacama.

O equipamento permite decompor a luz em diferentes comprimentos de onda, o que ajuda a identificar assinaturas do material em movimento ao redor do objeto.

A equipe também recorreu a dados do James Webb, obtidos com os instrumentos NIRSpec e MIRI, além de registros anteriores do espectrógrafo SINFONI.

A comparação entre essas bases permitiu avaliar a mudança no comportamento do objeto ao longo do tempo.

Durante o surto, a linha H-alfa passou a exibir um perfil duplo com absorção deslocada para o vermelho.

Segundo os autores, esse sinal é compatível com acreção magnetosférica, processo já descrito em estrelas jovens e em anãs marrons.

Ao mesmo tempo, o contínuo óptico aumentou entre três e seis vezes, enquanto o brilho na banda R subiu cerca de 1,5 a 2 magnitudes.

No infravermelho médio, os fluxos cresceram entre 10% e 20%.

O estudo também registrou alterações em linhas de emissão associadas ao disco de matéria que envolve o objeto.

Vapor d’água no disco e sinais de campo magnético

Outro resultado destacado pelos pesquisadores foi a detecção de vapor d’água entre 6,5 e 7 micrômetros no disco ao redor de Cha 1107-7626 durante o surto.

Segundo o estudo, essa assinatura não aparecia no estado de quiescência.

De acordo com o ESO, mudanças desse tipo já haviam sido observadas em estrelas, mas não em um objeto de massa planetária com esse perfil.

Os autores também associam o episódio à ação de um campo magnético capaz de canalizar o material do disco até a superfície do corpo celeste.

Nesse cenário, o gás não cai de forma difusa, mas é conduzido por regiões específicas, o que altera o espectro observado.

Esse mecanismo é descrito com frequência em estudos sobre estrelas jovens e, segundo a equipe, pode estar presente também em objetos muito menos massivos.

Esse ponto ganhou relevância porque a combinação entre disco ativo, alteração química e sinais de acreção guiada magneticamente amplia o conjunto de dados disponíveis sobre planetas errantes ou objetos isolados de massa planetária.

A observação não redefine por si só a classificação de Cha 1107-7626, mas acrescenta elementos ao debate sobre sua origem e sua evolução.

Formação de planetas errantes e o debate científico

Uma das questões centrais nessa área é se objetos como Cha 1107-7626 são planetas expulsos de sistemas de origem ou se podem se formar isoladamente, por colapso gravitacional de gás, em um processo semelhante ao de estrelas.

O novo trabalho não apresenta uma resposta definitiva, mas mostra que ao menos parte do comportamento observado se aproxima do que já foi descrito em objetos estelares jovens.

Segundo os autores, o episódio também não se encaixa integralmente na variabilidade considerada mais comum em fontes com acreção contínua.

Pela duração, pela amplitude e pelo perfil espectral, o surto foi comparado ao padrão EXor, termo usado para explosões recorrentes de acreção em estrelas em formação.

O estudo ressalta, porém, que essa interpretação ainda depende de acompanhamento adicional.

Os pesquisadores observam ainda que um espectro obtido em 2016 já indicava níveis elevados de acreção.

Esse dado, somado às medições de 2025, levou a equipe a considerar a possibilidade de recorrência.

Até o momento, no entanto, o trabalho trata essa hipótese com cautela e a apresenta como tema para observações futuras, não como conclusão fechada.

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O que o caso pode revelar sobre objetos isolados de baixa massa

Objetos isolados e pouco luminosos costumam ser difíceis de detectar e acompanhar por longos períodos.

Por isso, parte desse tipo de fenômeno pode ter passado despercebida em levantamentos anteriores.

Segundo o ESO, a combinação entre observatórios espaciais e telescópios terrestres de grande porte tende a ampliar a capacidade de localizar mais alvos semelhantes e monitorar melhor sua variabilidade.

Nesse contexto, o Extremely Large Telescope, em construção no Chile, aparece como um dos instrumentos apontados para esse avanço.

A expectativa dos pesquisadores é que ele permita observar com mais precisão corpos fracos e distantes, inclusive objetos de massa planetária em fases ativas.

Com isso, será possível verificar com mais segurança se o comportamento de Cha 1107-7626 é raro ou se outros casos semelhantes ainda não haviam sido documentados com o mesmo nível de detalhe.

Os dados reunidos até agora colocam Cha 1107-7626 entre os alvos mais relevantes para esse campo de pesquisa.

O objeto reúne massa planetária, isolamento em relação a estrelas hospedeiras, disco de acreção ativo e um surto associado a sinais espectrais que, segundo os autores, lembram processos já observados em estrelas jovens.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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