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Um oceano desaparecido em Marte deixou um anel mineral detectável bilhões de anos depois, afirmam cientistas chineses: depósitos de manganês indicam água estável por até 1,5 milhão de anos em Utopia Planitia, região que pode guardar pistas sobre ambientes favoráveis à vida antiga

Escrito por Carla Teles
Publicado em 31/05/2026 às 22:29
Atualizado em 31/05/2026 às 22:32
Assista o vídeoUm oceano desaparecido em Marte deixou um anel mineral detectável bilhões de anos depois, afirmam cientistas chineses depósitos de manganês indicam água estável (4)
Um oceano em Marte pode ter deixado depósitos de manganês em Utopia Planitia; o rover Zhurong mapeou pistas do passado de Marte.
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Em Utopia Planitia, o rover Zhurong ajudou a identificar depósitos de manganês que reforçam a hipótese de um oceano em Marte por até 1,5 milhão de anos. O estudo amplia a busca por ambientes antigos favoráveis à vida, sem comprovar que organismos existiram no planeta vermelho em seu passado remoto.

Marte pode conservar uma marca mineral deixada por um antigo oceano que desapareceu há bilhões de anos. Em estudo publicado em 13 de maio de 2026 na revista Nature Communications, pesquisadores ligados a instituições chinesas identificaram depósitos de óxidos e hidróxidos de manganês em Utopia Planitia, grande bacia localizada nas planícies do norte do planeta.

De acordo com o portal Olhar Digital, a descoberta foi obtida a partir de dados do rover chinês Zhurong e de observações orbitais feitas por instrumentos operados em missões da Europa e dos Estados Unidos. Segundo a equipe, a distribuição dos minerais forma uma espécie de anel ao redor da bacia e sugere que a região abrigou água estável por um intervalo estimado entre 0,8 e 1,5 milhão de anos.

Anel de manganês pode registrar antiga margem de oceano em Marte

Um oceano em Marte pode ter deixado depósitos de manganês em Utopia Planitia; o rover Zhurong mapeou pistas do passado de Marte.
Imagem: Reprodução / IA.

O principal resultado da pesquisa está na disposição dos depósitos de manganês. Em vez de aparecerem distribuídos aleatoriamente pelo terreno, os minerais se concentram em faixas relacionadas à altitude da bacia, comportamento que os cientistas interpretam como uma possível marca deixada pela retração de um oceano em Marte.

A equipe compara essa assinatura a uma marca mineral semelhante àquela que pode permanecer nas bordas de lagos ou reservatórios após a redução do nível da água. Em Marte, essa faixa de manganês funcionaria como um registro preservado da expansão, do recuo e do desaparecimento de um antigo oceano.

Utopia Planitia já era considerada uma região importante para investigar o passado aquoso marciano. A área reúne formações geológicas que vinham sendo associadas a ambientes úmidos e possíveis margens antigas, mas o novo estudo acrescenta uma estimativa de duração baseada em indicadores mineralógicos.

Rover Zhurong e orbitadores ajudaram a mapear os depósitos

O rover Zhurong pousou em Utopia Planitia em 2021 como parte da missão chinesa Tianwen-1. Durante sua atividade na superfície de Marte, o veículo percorreu cerca de 1,9 quilômetro e coletou dados sobre composição mineral, características do solo e estruturas da região.

Para ampliar a análise além do trajeto percorrido pelo rover Zhurong, os pesquisadores combinaram essas informações com observações feitas pelos instrumentos OMEGA, da missão europeia Mars Express, e CRISM, da missão Mars Reconnaissance Orbiter, da Nasa. A estratégia permitiu investigar uma área muito maior da bacia.

Com dados do rover Zhurong, o estudo utilizou ainda um sistema de aprendizado profundo treinado com milhares de espectros infravermelhos de materiais que simulam solos marcianos. A ferramenta foi aplicada para reconhecer sinais de minerais contendo manganês nas leituras disponíveis. A conclusão não depende apenas de uma imagem isolada, mas da comparação entre dados coletados na superfície e registros obtidos da órbita.

Água estável pode ter persistido por até 1,5 milhão de anos

Um oceano em Marte pode ter deixado depósitos de manganês em Utopia Planitia; o rover Zhurong mapeou pistas do passado de Marte.
Imagem: Reprodução / IA.

A partir do padrão dos depósitos, os autores reconstruíram fases de formação, expansão, regressão e desaparecimento do oceano associado à região. O modelo indica que condições aquosas relativamente estáveis podem ter persistido em Utopia Planitia por aproximadamente 0,8 a 1,5 milhão de anos.

Esse intervalo é relevante porque sugere algo diferente de uma inundação passageira ou de episódios muito breves de água superficial. A pesquisa aponta para um sistema aquático duradouro em Marte, capaz de modificar quimicamente a paisagem e deixar registros detectáveis bilhões de anos depois.

Há, porém, uma precisão importante: o artigo não afirma que o oceano tinha entre 150 e 400 metros de profundidade total. O que os cientistas sugerem é que esse oceano do período Hesperiano pode ter sido entre 150 e 400 metros mais raso do que uma linha costeira marciana anteriormente proposta, conhecida como Deuteronilus.

Minerais indicam passado aquoso, mas não comprovam vida

A existência de água líquida por um período prolongado interessa diretamente à astrobiologia porque ambientes estáveis ampliam as possibilidades de reações químicas complexas. Na Terra, corpos d’água duradouros tiveram papel decisivo nos processos que antecederam e sustentaram formas primitivas de vida.

No caso de Marte, os autores deixam claro que a descoberta não equivale a encontrar organismos, fósseis ou sinais diretos de atividade biológica. Os depósitos de manganês podem ter sido formados por processos não biológicos, associados à água, à oxidação e à química disponível naquele ambiente antigo.

Ainda assim, a persistência da água torna a região mais relevante para futuras investigações. Utopia Planitia passa a representar não apenas uma possível antiga margem oceânica, mas um local onde condições favoráveis à química pré-biótica podem ter durado tempo suficiente para deixar pistas preservadas.

Atividade vulcânica pode ter encoberto parte desse registro

Um oceano em Marte pode ter deixado depósitos de manganês em Utopia Planitia; o rover Zhurong mapeou pistas do passado de Marte.
Imagem: Reprodução / IA.

O estudo também propõe uma explicação para o desaparecimento ou ocultação de parte dos depósitos minerais. Segundo os pesquisadores, atividades vulcânicas posteriores associadas a Elysium Mons teriam coberto áreas mais baixas da bacia com fluxos de lava.

Esse recobrimento ajudaria a explicar por que os sinais de manganês são mais evidentes em determinadas regiões e mais difíceis de identificar em outras. Em vez de desaparecer completamente, parte do registro do antigo oceano pode ter ficado enterrada sob camadas formadas em períodos posteriores da história geológica marciana.

A interpretação mostra como a superfície de Marte foi sendo transformada ao longo de bilhões de anos. Água, sedimentos, processos de oxidação, resfriamento climático e vulcanismo podem ter atuado em sequência, criando e escondendo evidências de um passado muito diferente do planeta seco observado atualmente.

Manganês pode orientar futuras missões ao planeta vermelho

Além de reconstruir o passado, os depósitos de manganês identificados oferecem indicações práticas para missões futuras. Concentrações elevadas de manganês próximas à borda da bacia podem ajudar cientistas a selecionar locais prioritários para novas análises de solo e rocha.

Esses pontos são relevantes porque minerais formados em ambientes aquosos podem preservar informações químicas sobre as condições existentes no momento de sua deposição. Se futuras missões procurarem sinais indiretos de ambientes antigos potencialmente habitáveis, as áreas ricas em manganês poderão se tornar alvos importantes.

Os autores também discutem que materiais contendo manganês apresentam potencial para participar de processos de produção de oxigênio a partir da água, em aplicações futuras. A possibilidade ainda depende de desenvolvimento tecnológico e não representa uma solução disponível para astronautas, mas amplia o interesse científico desses depósitos.

Descoberta reforça debate sobre oceanos antigos em Marte

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A hipótese de que existiu um oceano em Marte nas planícies do norte é estudada há décadas. Imagens orbitais, relevos interpretados como linhas costeiras e dados subterrâneos já vinham alimentando esse debate, mas permaneciam dúvidas sobre duração, extensão e evolução desses ambientes.

A nova pesquisa acrescenta um tipo diferente de evidência: um marcador mineral capaz de registrar mudanças na presença de água ao longo do tempo. Os óxidos e hidróxidos de manganês não apenas indicariam interação com água, mas também permitiriam estimar quanto tempo esse sistema permaneceu ativo.

Se a interpretação for confirmada por trabalhos posteriores, Utopia Planitia poderá se tornar uma das regiões mais importantes para entender quando Marte deixou de ser um mundo com ambientes aquosos persistentes e passou a apresentar as condições extremas conhecidas hoje.

Um planeta seco ainda pode guardar marcas de um antigo mar

A imagem atual de Marte é a de um planeta frio, árido e coberto por poeira. A presença de depósitos de manganês associados a um oceano em Marte desaparecido mostra, porém, que sua superfície pode conservar registros de uma fase em que a água permaneceu disponível por um intervalo geologicamente significativo.

A descoberta não confirma vida antiga e ainda deverá ser testada por novas observações e futuras missões. Mesmo assim, indica que a busca por respostas pode estar gravada em minerais discretos, espalhados em uma bacia distante e detectados após bilhões de anos de transformações planetárias.

Você acredita que novas missões a Marte poderão encontrar sinais mais fortes de que o planeta já teve ambientes capazes de sustentar vida? Comente sua opinião.

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Carla Teles

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