Ally Masoud, conhecido pelo apelido “Kipanya” (ratinho em suaíli), é cartunista político e fundou a Kaypee Motors em 2020 para construir a primeira picape elétrica fabricada na Tanzânia. O modelo atualizado KP A72E promete autonomia de até 160 km por carga, com custo operacional de cerca de US$ 3 por dia contra US$ 20 em gasolina. O país já tem cerca de 10 mil veículos elétricos em circulação, segundo a Africa E-Mobility Alliance, e aprovou em dezembro de 2024 o Marco Político Nacional de Veículos Elétricos.
Em uma pequena oficina em Dar es Salaam, capital comercial da Tanzânia, um cartunista político decidiu que sabia desenhar mais do que charges. Ally Masoud, conhecido pelo apelido “Kipanya”, construiu uma picape elétrica artesanal em cerca de 11 meses de trabalho manual, dentro de um projeto que se estendeu por aproximadamente dois anos desde a concepção em 2020. O veículo, batizado de KP A72 pela Kaypee Motors, empresa fundada pelo próprio Masoud, foi apresentado em abril de 2022 no shopping Mlimani City e desde então evoluiu para a versão KP A72E, com autonomia de até 160 quilômetros por carga.
O dado mais impressionante não é o carro em si, mas o que ele faz com a conta de combustível. Segundo o Ministério da Energia da Tanzânia, o custo médio de deslocamento por quilômetro em veículos a gasolina ou diesel é de 200 xelins tanzanianos, contra apenas 25 xelins em veículos elétricos, uma redução de 87,5%. Proprietários da picape elétrica da Kaypee relatam que passaram de US$ 20 por dia em gasolina para US$ 3 por dia em recarga, economia que em um país onde o combustível importado pesa no bolso do trabalhador pode ser a diferença entre lucro e prejuízo para pequenos comerciantes e entregadores.
Quem é Kipanya e como um cartunista virou fabricante de carros

Ally Masoud tinha cerca de 49 anos quando apresentou o primeiro protótipo e é conhecido na Tanzânia e em parte da África pelo traço afiado de suas charges políticas, publicadas sob o pseudônimo “Kipanya”. Além de cartunista, Masoud é radialista e dono da marca de roupas Kipanya Wear, perfil de empreendedor serial que ajuda a explicar como alguém sem formação em engenharia decidiu construir um carro do zero.
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O projeto começou como ideia em 2013, virou ação concreta em julho de 2020 e enfrentou atrasos causados pela pandemia de Covid-19. O chassi e a carroceria são fabricados localmente na oficina de Dar es Salaam, enquanto motor e bateria são importados da China, modelo de produção que reduz custos e permite montagem artesanal com componentes de qualidade industrial. Masoud declarou à agência Xinhua que “não precisa ser engenheiro para construir um carro — precisa de paixão e habilidade de coordenação”.
A evolução do KP A72 para o KP A72E

IMAGEM: Kaypee Motors
A versão original da picape elétrica, apresentada em 2022, tinha autonomia de 50 a 60 quilômetros e levava cerca de 6 horas para recarregar completamente. A versão atual, denominada KP A72E no site oficial da Kaypee Motors, é descrita como variante avançada com eficiência melhorada e promete os 160 quilômetros de autonomia que tornam o veículo viável para uso comercial diário em uma cidade como Dar es Salaam.

imagem: Kaypee Motors
O público-alvo são comerciantes e entregadores de baixa renda que dependem de veículos utilitários para trabalhar e que gastam uma parcela desproporcional da receita em combustível. A picape elétrica compacta oferece caçamba para carga, custo operacional dramaticamente menor e manutenção mais simples do que um veículo a combustão, tríade que posiciona o produto como ferramenta de trabalho, não como objeto de consumo aspiracional. O preço inicial divulgado pela imprensa em 2022 era de cerca de US$ 3.500, valor que precisa de confirmação para a versão atual.

A Tanzânia e seus 10 mil veículos elétricos
A Kaypee Motors não opera no vazio. A Tanzânia já tem cerca de 10 mil veículos elétricos em circulação, segundo a Africa E-Mobility Alliance, a maioria composta por motos e triciclos (bajajis) com baterias de chumbo-ácido. O número coloca o país como líder regional na África Oriental em adoção de mobilidade elétrica, à frente de vizinhos como Quênia e Uganda.
Em dezembro de 2024, a Tanzânia aprovou o Marco Político Nacional de Veículos Elétricos, estabelecendo metas de integração entre mobilidade limpa e energias renováveis e planejando a construção de infraestrutura nacional de carregamento. O país tem capacidade instalada de mais de 4.500 MW de eletricidade e acesso à rede elétrica de 85,5% da população, segundo o Ministério da Energia, base que permite escalar a eletrificação do transporte sem depender exclusivamente de combustíveis fósseis.
O ecossistema de mobilidade elétrica que cresce em Dar es Salaam
A Kaypee Motors é a empresa mais visível, mas não é a única no ecossistema tanzaniano. A TRÍ Tanzania produz triciclos elétricos e planeja centenas de unidades para Dar es Salaam, a E-Motion de Arusha faz retrofit de motores a combustão para elétricos em veículos de safári, a SPIRO lançou operação de troca de baterias na capital comercial em 2025 e a DOW ELEF AUTO EV foi inaugurada em março de 2026. O cenário é de um mercado em formação rápida.
O maior gargalo é a infraestrutura de recarga. A Tanzânia tem apenas cerca de 15 estações públicas de carregamento, concentradas em Dar es Salaam, o que obriga a maioria dos proprietários de veículos elétricos a carregar em tomadas domésticas. Para a picape da Kaypee, que atende entregadores que rodam dezenas de quilômetros por dia, a limitação significa planejar rotas com cuidado e garantir carga completa durante a noite. A meta do governo é atingir 500 estações até 2030.
O interesse internacional e o que Kipanya planeja para o futuro
O projeto despertou atenção que vai além da Tanzânia. Segundo reportagem internacional, o presidente do Quênia William Ruto e representantes do Reino de Eswatini demonstraram interesse na picape elétrica da Kaypee Motors, embora os detalhes dessas tratativas não tenham sido confirmados por fontes independentes. Para Masoud, o interesse regional é validação de que a mobilidade elétrica acessível tem demanda em toda a África Oriental.
A Kaypee Motors já trabalha em um novo modelo e tem pedidos em carteira. Masoud declarou que o objetivo é “tornar veículos elétricos acessíveis a todos”, meta ambiciosa para uma empresa artesanal que compete em um mercado onde montadoras chinesas como BYD e fabricantes indianos já operam. Para comparação, a vizinha Etiópia baniu a importação de veículos a combustão em 2024 e já tem mais de 120 mil veículos elétricos em circulação, mostrando que o potencial do continente vai muito além do que se imagina.
Você compraria uma picape elétrica artesanal feita por um cartunista ou acha que esse tipo de veículo só funciona em mercados sem opções? Conte nos comentários se acredita que o Brasil poderia produzir um elétrico popular de US$ 3.500 e o que pensa sobre a mobilidade elétrica na África.


Seria interessante também testar a possibilidade de um teto solar para carregamento da bateria sem a necessidade da dependência de postos de carregamento…! 🤔😃👍