A CBTU comprou seis trens usados da Série 900 por R$ 60 milhões do Novo PAC para o Metrô do Recife, mas o sindicato dos metroviários apresentou denúncia formal ao BNDES apontando valor contábil de R$ 3 milhões por veículo e questionando a negociação com a Comporte, que recebe frota nova da CRRC em Belo Horizonte, Segundo o portal Diário de Pernambuco.
O primeiro dos seis trens que a Companhia Brasileira de Trens Urbanos comprou para o Metrô do Recife saiu de Belo Horizonte na última sexta-feira, içado por guindastes e colocado em carretas no pátio São Gabriel. A composição é da Série 900, fabricada pela Cobrasma, e integrava a frota do Metrô-BH, hoje sob concessão do Grupo Comporte. A CBTU pagou cerca de R$ 10 milhões por cada trem, sendo R$ 7,6 milhões pela compra e R$ 2,4 milhões pelo pacote de transporte, revisão e treinamento, totalizando R$ 60 milhões em recursos do Novo PAC para seis composições sem ar-condicionado e com mais de 30 anos de uso.
A operação, no entanto, está longe de ser consensual. Em 28 de abril, o Sindicato dos Metroviários de Pernambuco formalizou denúncia em audiência pública do BNDES questionando o valor pago, a tecnologia dos trens e uma possível relação de favorecimento envolvendo o Grupo Comporte. Segundo o vice-presidente do Sindmetro-PE, Thiago Mendes, os veículos teriam sido inicialmente negociados com um ferro-velho por valores próximos a R$ 2 milhões por unidade, e a CBTU só entrou na negociação depois que a Comporte desfez esse acordo e elevou os preços. A denúncia coloca sob escrutínio público uma aquisição que a CBTU justifica pela urgência operacional do Recife, mas que o sindicato classifica como financeiramente injustificável.
O cronograma de envio e a urgência do sistema no Recife

O transporte dos trens de Belo Horizonte ao Recife seguirá ritmo mensal: uma composição em maio, uma em junho, uma em julho, uma em agosto e duas em setembro. A previsão da CBTU é que o primeiro trem comece a operar comercialmente na Linha Sul do Metrô do Recife já em junho de 2026, com todas as seis composições em circulação entre outubro e novembro. A Linha Sul atende cerca de 60 mil passageiros por dia e opera atualmente com apenas 16 trens, parte deles com mais de 40 anos de uso.
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Segundo informações do CBN Recife, a urgência é real. Segundo José Innocêncio, gerente de operação da CBTU Recife, o sistema pernambucano não recebe trens novos desde 2012, e a sobrevida estimada da frota atual se estende apenas até abril de 2027. Sem reforço, o metrô do Recife corre risco de colapso operacional em menos de um ano. A CBTU avaliou alternativas antes de fechar a compra: composições da Trensurb, em Porto Alegre, exigiriam intervenções extensas e incompatíveis com o prazo necessário; trens da CPTM de São Paulo com ar-condicionado também foram considerados, mas precisariam de modernizações profundas após anos fora de operação. Diante das opções, a CBTU optou pelos trens de Belo Horizonte como solução mais rápida.
A denúncia do Sindmetro-PE: valor inflado e conflito de interesses
O ponto mais delicado da operação é financeiro. Documentos da própria CBTU citados pelo sindicato indicam que o valor contábil líquido de cada trem está na faixa de R$ 3 milhões, resultado da depreciação acumulada ao longo de décadas. A Comporte, porém, adquiriu toda a frota do Metrô-BH por cerca de R$ 26 milhões durante o processo de concessão no final de 2025, e agora revende seis unidades à CBTU por R$ 60 milhões no total, quase o triplo do valor contábil por composição.
Segundo a denúncia apresentada ao BNDES, a sequência dos fatos levanta suspeitas. Thiago Mendes, do Sindmetro-PE, afirmou ao Diário de Pernambuco que os trens teriam sido inicialmente negociados pela Comporte com um ferro-velho por cerca de R$ 2 milhões cada. Após a CBTU manifestar interesse na aquisição, a Comporte teria desfeito o acordo com o ferro-velho e fechado a negociação com a estatal por valores significativamente superiores. O sindicato também aponta um possível conflito de interesses estrutural: a Comporte é apontada como interessada na futura concessão do Metrô do Recife, o que significaria que a empresa poderia recomprar do governo os mesmos ativos que lhe vendeu, configurando o que o Sindmetro-PE descreve como fluxo circular de dinheiro público. A CBTU e a Comporte foram procuradas para comentar as acusações.
Sem ar-condicionado, motor obsoleto e sistema de controle incompatível

Os problemas apontados pelo sindicato não se limitam ao preço. As composições da Série 900 não possuem ar-condicionado, e a CBTU não anunciou planos para instalar o equipamento. Um parecer técnico da própria CBTU, citado pelo Diário de Pernambuco, reconhece que a ventilação foi considerada aceitável em Belo Horizonte em horários de menor movimento, mas ressalva que o desempenho pode não ser satisfatório nos horários de pico e nas condições climáticas do Recife, capital com temperaturas e umidade significativamente superiores às de Belo Horizonte.
A denúncia do Sindmetro-PE vai além do conforto e questiona a viabilidade técnica dos trens. As composições utilizam motores alternadores, tecnologia que o próprio sistema do Recife descartou há 20 anos por falhas recorrentes. Além disso, o sistema de Controle Automático de Trens dos veículos vindos de Belo Horizonte é incompatível com o utilizado no Recife, e a substituição custaria cerca de R$ 3 milhões adicionais por composição, valor que não está incluído nos R$ 10 milhões já pagos por cada trem. Se confirmado, o custo real por unidade se aproximaria de R$ 13 milhões, mais de quatro vezes o valor contábil apontado pelo sindicato.
Os trens da CRRC e o contraste entre Belo Horizonte e o Recife

Enquanto o Recife absorve trens com mais de 30 anos, Belo Horizonte vive sua maior renovação de frota. A concessionária Metrô-BH, operada pelo Grupo Comporte, recebe 24 composições novas da Série 2000, fabricadas pela chinesa CRRC, a maior fabricante de material rodante ferroviário do mundo. Os trens da CRRC substituirão integralmente a frota antiga, incluindo as composições da Série 900 que agora seguem para o Recife, numa troca prevista no contrato de concessão firmado em 2025.
O contraste entre os dois cenários expõe a desigualdade de investimento entre os sistemas metroviários do país. Belo Horizonte estreia tecnologia de fabricação contemporânea com recursos da concessão privada, enquanto o Recife recorre a dinheiro federal do Novo PAC para comprar, por R$ 60 milhões, exatamente o material que a capital mineira descartou. A CBTU justifica a decisão pela urgência operacional e pela falta de alternativas viáveis no prazo necessário. O sindicato dos metroviários, por sua vez, argumenta que a urgência foi usada como pretexto para uma aquisição financeiramente questionável que beneficia a Comporte e entrega aos passageiros pernambucanos trens sem ar-condicionado, com tecnologia obsoleta e com custos ocultos que ainda não foram contabilizados.
E você, acha justificável que o Recife receba trens de mais de 30 anos, sem ar-condicionado, enquanto Belo Horizonte estreia frota nova da CRRC? A denúncia do sindicato sobre o valor pago pela CBTU e o papel da Comporte merece investigação aprofundada? Deixe seu comentário e diga o que pensa sobre o uso de R$ 60 milhões do Novo PAC em composições que o próprio sistema de origem descartou.


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