A reportagem investigativa da Deutsche Welle desnuda a severa crise habitacional em Berlim ao acompanhar a rotina exaustiva de trabalhadores assalariados que, impedidos pela burocracia e pelos altos aluguéis, são forçados a viver nas ruas ou em abrigos precários mesmo mantendo seus empregos formais em dia.
Nas primeiras horas da manhã, enquanto Berlim ainda dorme sob o frio europeu, uma realidade invisível se movimenta pelas ruas do bairro de Neukölln. Uma reportagem recente da Deutsche Welle (DW) trouxe à tona a vida de homens como Denny Wagner e Attila Kokas.
Ambos desafiam o estereótipo do morador de rua: eles não estão desempregados, não pedem esmolas e lutam para manter uma aparência impecável. Denny é cozinheiro; Attila é jardineiro. No entanto, ao final do expediente, nenhum dos dois tem um lar para onde voltar.
A investigação da DW revela um fenômeno crescente na maior economia da Europa: os “trabalhadores sem-teto“.
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São milhares de pessoas que, apesar de possuírem emprego formal e salário, foram expulsas do mercado imobiliário devido à escassez de moradias, à burocracia e aos altos custos de vida nas metrópoles alemãs.
A rotina exaustiva documentada pela DW
A equipe de reportagem acompanhou a rotina extenuante de Denny Wagner. Às 5h30 da manhã, ele já está no ponto de ônibus. “Aqui dentro é quentinho”, diz ele à DW, valorizando o conforto térmico do transporte público que muitos ignoram.
Denny trabalha na cozinha de um abrigo para moradores de rua, uma ironia cruel captada pela reportagem.
Ele serve refeições reforçadas para outros desabrigados, sabendo exatamente o que eles sentem, pois ele próprio vive o drama de não ter residência fixa há quase seis meses.
“Morar nas ruas é mais estressante do que trabalhar”, desabafou Denny aos repórteres. Ele explica que a vida nas ruas exige um estado de alerta constante, das seis da manhã até as dez da noite.
Não há descanso real. “Se você fica na rua o dia todo, isso te esgota. Sei por experiência própria”, relata.
Paralelamente, a DW seguiu os passos de Attila Kokas, um húngaro que vive na Alemanha há sete anos. Jardineiro de uma instituição de caridade, a Missão da Cidade de Berlim, Attila também coleta lixo e limpa o prédio.
Sua rotina é marcada pelo medo e pela estratégia de sobrevivência. Ele acorda de madrugada, muitas vezes às 3h, para pegar o trem para o trabalho sem ser notado pelos fiscais, já que não tem dinheiro para as passagens.
À reportagem, Attila mostrou como escolhe seus locais de pernoite: sempre com paredes protegendo dois lados para evitar ataques surpresa. “Não vou mais precisar ficar meio acordado para cuidar das minhas coisas… para que ninguém roube nada enquanto eu não estiver olhando”, disse ele, expressando o desejo simples de dormir em paz.
O perfil diferenciado dos novos sem-teto
A apuração da DW destaca um ponto crucial: nem todos os moradores de rua se encaixam no perfil de dependência química ou desemprego crônico.
Denny, por exemplo, tinha uma vida estável, família e um emprego de doze anos antes de uma separação e uma mudança para Berlim o deixarem vulnerável. Após ser assaltado e perder seus documentos, ele caiu nas malhas da burocracia e da falta de moradia.
O chefe do abrigo onde Denny trabalha confirmou à DW que o cozinheiro é uma exceção valiosa. “Ele sabe o que precisa fazer para sair dessa.
Outros também já vêm fazendo isso aos poucos, mas eles usam drogas, bebem álcool. Denny não faz nada disso”. O empregador oferece suporte prático, permitindo que Denny tome banho e lave roupas no local de trabalho, suprindo a falta de infraestrutura básica de sua vida atual.
Attila compartilha dessa sobriedade. Ele veio da Hungria em busca de melhores condições, mas esbarrou na complexidade do sistema alemão. “A burocracia alemã é diferente da burocracia húngara. E eu ainda tenho que descobrir como funciona”, explicou ele à reportagem.
A crise habitacional em números
A reportagem da Deutsche Welle contextualiza as histórias de Denny e Attila em um cenário maior. Segundo estimativas citadas pela emissora, há mais de meio milhão de pessoas sem moradia na Alemanha. Dessas, cerca de 50 mil vivem efetivamente nas ruas ou em abrigos de emergência.
Os motivos listados pela DW são variados: desemprego, dívidas, rompimentos familiares e, cada vez mais, a gentrificação e a falta de imóveis acessíveis.
Em grandes centros como Berlim, conseguir um apartamento exige não apenas dinheiro, mas uma série de documentos e garantias que alguém em situação de rua – mesmo empregado – dificilmente consegue reunir.
Habitação precária e soluções temporárias
A equipe da DW teve acesso aos locais onde esses trabalhadores descansam. Para proteger a privacidade de Attila, o local exato de seu pernoite não foi revelado, mas ele demonstrou à câmera seu “kit de sobrevivência”: colchão térmico, sacos de dormir e a busca incessante por cantos protegidos do vento e de olhares hostis.
Já Denny mostrou à reportagem sua atual residência: uma cabana de madeira de apenas quatro metros quadrados, financiada pela prefeitura. O local não possui água encanada, eletricidade ou banheiro.
O aquecimento é improvisado com um pequeno fogareiro a gás, que ele acende por algumas horas para tornar a temperatura suportável. “Dá para ficar praticamente de bermuda”, diz ele com otimismo, mostrando que sua régua de conforto foi drasticamente reajustada pela necessidade. Para carregar o celular — sua única conexão com o mundo moderno —, ele depende das tomadas do trabalho.
O desfecho agridoce
A reportagem da DW acompanhou um momento decisivo na vida de Attila: a notícia de que ele havia conseguido um quarto em um abrigo de transição. A assistente social, Barbara Breuer, comunicou a novidade por telefone. No entanto, a reação captada pelas câmeras não foi de euforia, mas de decepção contida.
Ao receber as chaves, Attila constatou que teria que dividir cozinha e banheiro com outros moradores. Após anos de insegurança nas ruas, seu sonho era a privacidade total de um apartamento próprio. “Sim, é quentinho e você também terá um pouco de privacidade”, tentou consolar a assistente social.
Para Attila, é um teto, mas ainda não é o lar que ele idealizava para reconstruir sua dignidade plena.
A matéria da Deutsche Welle encerra com uma reflexão sobre a persistência desses trabalhadores. Denny Wagner mantém o pragmatismo: “Só preciso encontrar um lugar que eu possa pagar. Isso já seria suficiente. Afinal, eu ganho um bom dinheiro“.
Através das lentes da DW, a história de Denny e Attila serve como um alerta social. Ela expõe como o trabalho, historicamente visto como o grande equalizador e garantidor de estabilidade, já não é suficiente para proteger cidadãos de caírem na margem da sociedade em uma das nações mais ricas do mundo.

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