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Tesouro perdido no fundo do mar, barco de luxo de 2 mil anos reaparece em Alexandria e muda o que se sabia sobre festas no Egito Antigo

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Escrito por Geovane Souza Publicado em 09/12/2025 às 15:29
Tesouro perdido no fundo do mar, barco de luxo de 2 mil anos reaparece em Alexandria e muda o que se sabia sobre festas no Egito Antigo
Foto: Barco de luxo de 2 mil anos é encontrado no antigo porto de Alexandria e revela festas, rituais e poder no Egito Antigo.
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Embarcação de cerca de 35 metros, do tipo “thalamagos”, foi achada no antigo porto de Alexandria, perto do templo de Ísis, e pode ter servido a festas da elite e a rituais sagrados no Egito do século 1

Os arqueólogos acabam de revelar um achado raro nas águas de Alexandria, no Egito. Trata-se de um barco de luxo de aproximadamente 2 mil anos, preservado no antigo porto da cidade, hoje submerso. A embarcação era usada como barca de recreio da elite, uma espécie de “superiate” do Egito Antigo.

O naufrágio foi localizado próximo à ilha submersa de Antirhodos, região que fazia parte do Portus Magnus, o grande porto de Alexandria na época greco-romana. A descoberta foi feita pela equipe do Instituto Europeu de Arqueologia Submarina (IEASM), sob direção do arqueólogo francês Franck Goddio, referência mundial em arqueologia subaquática.

Estima-se que o barco tenha cerca de 35 metros de comprimento e 7 metros de largura, seguindo padrões descritos em fontes antigas. Esse tipo de embarcação era conhecido como “thalamagos”, citado pelo geógrafo grego Estrabão, que descreveu barcos luxuosos lotados de músicos, dançarinos e cortesãos em festas que duravam dia e noite.

A descoberta é considerada histórica porque é a primeira vez que um barco desse tipo é encontrado no Egito, preenchendo uma lacuna entre os textos clássicos, mosaicos e relevos e a evidência material concreta. Para pesquisadores, o achado abre uma janela inédita sobre o cotidiano, a religião e o lazer da elite no Egito sob domínio romano.

Onde o barco de luxo foi encontrado na antiga Alexandria

Foto: Christoph Gerigk

O naufrágio foi identificado na área do antigo porto da ilha de Antirhodos, hoje totalmente submersa na baía de Alexandria. Essa região concentrava palácios, templos e estruturas ligadas à corte dos Ptolomeus e ao período de Cleópatra VII, o que reforça o caráter aristocrático da embarcação.

Segundo o IEASM, o barco repousa a poucos metros das ruínas do templo de Ísis, já escavado em campanhas anteriores pela mesma equipe. A proximidade com o santuário é uma das pistas de que a embarcação não servia apenas a passeios de luxo, mas poderia estar envolvida em rituais religiosos ligados à deusa.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, que entrevistou pesquisadores da Universidade de Oxford, a embarcação faz parte de um conjunto de achados que inclui restos de palácios e estruturas portuárias desmoronadas após terremotos e maremotos que atingiram a região por volta do ano 50 d.C., contribuindo para o afundamento de parte da antiga Alexandria.

Como era o “thalamagos”: o superiate de 35 metros da elite egípcia

Os estudos preliminares indicam que o barco tinha casco de fundo chato e grande boca, projetado para navegar em águas calmas e rasas, como canais e braços do Nilo. Essa construção permitia instalar um pavilhão central com cabine ricamente decorada, onde viajavam os passageiros de maior status.

As marcas de estrutura e o desenho do casco sugerem que o thalamagos era movido exclusivamente a remos, sem velas, exigindo mais de 20 remadores para deslocar a embarcação. Para os arqueólogos, isso reforça a ideia de um barco pensado mais para ostentação e conforto do que para viagens longas em mar aberto.

Festas, rituais e a deusa Ísis: para que servia a embarcação

Graffiti em grego encontrados em partes estruturais do barco indicam que ele foi construído em Alexandria na primeira metade do século 1 d.C., período em que o Egito já estava sob domínio romano, mas ainda preservava tradições religiosas próprias. Essa inscrição é uma das chaves para a datação precisa do naufrágio.

Estrabão, que visitou Alexandria entre 29 e 25 a.C., descreveu embarcações cabinadas usadas pela corte e por multidões em festivais, com pessoas tocando flauta, dançando e festejando sem restrições. Os pesquisadores enxergam no naufrágio uma correspondência direta entre esse relato literário e o barco real agora documentado por fotogrametria 3D.

Foto: Christoph Gerigk

Uma das hipóteses mais fortes é que o thalamagos estivesse ligado ao ritual do “navigium Isidis”, uma procissão naval em homenagem à deusa Ísis. Nesse evento, uma embarcação ricamente decorada representava a barca solar da divindade e era conduzida em cortejo a outros santuários, como o de Osíris em Canopo, seguindo canais ligados ao delta do Nilo.

Ao mesmo tempo, a localização no antigo bairro real e as dimensões da embarcação permitem imaginar seu uso em passeios de luxo, banquetes flutuantes e eventos políticos, à semelhança dos famosos barcos associados a Cleópatra. Ainda que não haja prova direta de ligação com a rainha, o achado reforça o contexto de ostentação naval atribuído à corte ptolomaica.

Para especialistas ouvidos por veículos como Opera Mundi e pela própria Universidade de Oxford, o barco de Alexandria ajuda a compreender como lazer, religião e poder político se misturavam nas águas do Egito Antigo, em cerimônias que eram ao mesmo tempo sagradas, festivas e altamente simbólicas.

O que a descoberta muda sobre o Egito Antigo e o interesse turístico

Até agora, o conhecimento sobre esse tipo de barco de luxo egípcio dependia de relatos de autores clássicos e de representações em obras como o mosaico do Nilo de Palestrina, na Itália. A descoberta em Alexandria oferece, pela primeira vez, um exemplo arqueológico completo desse modelo de embarcação, permitindo testar e corrigir hipóteses antigas.

Segundo o diretor do Oxford Centre for Maritime Archaeology, citado pela imprensa britânica, trata-se de um tipo de navio que nunca havia sido encontrado em escavações anteriores. O naufrágio funciona como peça que faltava para ligar a arte, os textos históricos e os vestígios materiais, permitindo pesquisas mais detalhadas sobre técnicas navais, decoração e uso cotidiano dessas barcas.

Por razões de conservação e seguindo diretrizes da Unesco, o barco permanecerá no fundo do mar, onde as condições são consideradas mais estáveis para sua preservação de longo prazo. A ideia dos pesquisadores é continuar documentando o sítio com tecnologias como fotogrametria 3D e, futuramente, criar exposições virtuais e modelos em museus acessíveis ao público.

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Geovane Souza

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