Mapeamento global baseado em dados de satélites Sentinel-1 revela que o solo está afundando em ritmo superior à elevação do nível do mar em grandes deltas fluviais, afetando regiões que concentram cerca de 500 milhões de pessoas e ampliando riscos de inundação, perda territorial e intrusão salina em áreas urbanas densamente povoadas
O solo está afundando mais rápido do que o nível do mar sobe em grandes deltas fluviais do mundo, segundo estudo publicado na revista Nature, que analisou 40 regiões densamente povoadas e identificou riscos crescentes para milhões de pessoas que vivem próximas ao nível do mar.
Deltas concentram população e infraestrutura enquanto o solo perde altitude
Os deltas de rios são áreas planas formadas ao longo de milhares de anos pela deposição de sedimentos transportados pelos rios até o oceano. Apesar de ocuparem menos de 1% da superfície terrestre, essas regiões abrigam cerca de 500 milhões de pessoas.
Dez das 34 maiores cidades do planeta estão localizadas nesses territórios de baixa altitude. Entre elas estão Calcutá, no Delta do Ganges, Alexandria, no Delta do Nilo, Xangai, no Delta do Yangtzé, e Bangkok, situada no Delta do Chao Phraya.
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Essas regiões concentram portos, aeroportos, rodovias e áreas urbanas densas. Também sustentam atividades agrícolas e ecossistemas essenciais para milhões de habitantes. A maioria dos deltas encontra-se apenas entre 1 e 2 metros acima do nível do mar.
Essa baixa elevação torna qualquer alteração no nível do terreno especialmente crítica. Quando o solo perde altura, mesmo pequenas variações ampliam o impacto de enchentes, tempestades costeiras e intrusão de água salgada.
Estudo mostra que o solo afunda acima de 3 milímetros por ano em mais da metade dos deltas
Durante anos, faltavam dados globais consistentes capazes de medir a velocidade de redução da elevação nesses ambientes. O cenário mudou com a análise baseada em uma década de observações de radar dos satélites Copernicus Sentinel-1.
Os pesquisadores mapearam mudanças na elevação da superfície em 40 grandes deltas ao redor do mundo. Mais da metade apresentou subsidência superior a 3 milímetros por ano, equivalente a cerca de 0,12 polegadas anuais.
Embora o valor pareça reduzido, ele rivaliza ou supera o ritmo da elevação global do nível do mar em diversas regiões. Em alguns deltas, o afundamento do solo tornou-se o principal fator responsável pela elevação relativa do nível da água.
Casos observados incluem os deltas do Chao Phraya, na Tailândia, do Mekong, no Vietnã, e do Rio Amarelo, na China. Nessas áreas, o rebaixamento do solo intensifica inundações, acelera a perda territorial e amplia danos provocados por tempestades.
O levantamento incluiu deltas com populações urbanas superiores a 3 milhões de habitantes, regiões historicamente afetadas por subsidência e áreas menos estudadas anteriormente.
Atividades humanas aceleram o afundamento do solo nos principais deltas
Os deltas passam naturalmente por transformações. Sedimentos constroem novas camadas enquanto processos erosivos removem material ao longo do tempo. Movimentos verticais da crosta terrestre também influenciam a altitude dessas áreas.
O estudo, porém, identifica atividades humanas como fator determinante na aceleração do fenômeno. A extração excessiva de água subterrânea aparece como principal causa associada ao afundamento do solo.
Quando grandes centros urbanos bombeiam água de aquíferos subterrâneos, ocorre compactação do terreno. Esse processo reduz o volume interno do solo e provoca o rebaixamento gradual da superfície terrestre.
A extração de petróleo e gás apresenta efeitos semelhantes. O crescimento urbano rápido aumenta o peso exercido sobre terrenos instáveis. Ao mesmo tempo, barragens construídas a montante retêm sedimentos que normalmente reabasteceriam os deltas.
Sem novos depósitos sedimentares, o solo perde capacidade de regeneração natural. O padrão observado indica que deltas com maior expansão populacional urbana apresentam taxas mais elevadas de subsidência.
Entre os exemplos citados estão os deltas dos rios Amarelo, Pó, Nilo, Chao Phraya e Mekong. Diversas cidades costeiras registram índices acima da média global, incluindo Alexandria, Bangkok, Daca, Calcutá, Xangai, Yangon, Can Tho, Thai Binh, Niigata, Jacarta, Surabaya e Dongying.
Populações abaixo de 1 metro enfrentam risco crescente com o solo em subsidência
As consequências atingem diretamente milhões de moradores. Dos 76 milhões de pessoas que vivem em áreas deltaicas com altitude inferior a 1 metro, cerca de 84%, equivalente a 63,7 milhões, residem em regiões onde o solo está afundando rapidamente.
Na Ásia, a exposição ao risco é particularmente elevada. Ainda assim, o fenômeno possui alcance global. Na América do Norte e do Sul, os deltas do Amazonas e do Mississippi estão entre os sete responsáveis por mais de 57% da subsidência total observada.
Os outros cinco são o Delta do Nilo e os deltas do Ganges-Brahmaputra, Mekong, Yangtzé e Irrawaddy. Em 18 dos 40 deltas analisados, o solo afunda mais rapidamente do que o nível do mar se eleva.
Segundo Leonard Ohenhen, professor assistente de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade da Califórnia, Irvine, as taxas médias atuais de subsidência superam a elevação geocêntrica do nível do mar em diversos deltas estudados.
O pesquisador afirma que os resultados indicam necessidade de intervenções direcionadas para enfrentar o fenômeno paralelamente às ações voltadas à adaptação diante da elevação global do nível do mar.
Satélites Sentinel-1 permitem medir mudanças mínimas no solo a partir do espaço
As conclusões dependem de tecnologia capaz de detectar variações extremamente pequenas na superfície terrestre. Os satélites Sentinel-1 operam em órbita desde 2014 equipados com radar de abertura sintética.
O sistema coleta dados SAR interferométricos, conhecidos como InSAR, capazes de identificar deslocamentos mínimos na superfície, incluindo mudanças no nível do solo ao longo do tempo.
Os cientistas analisaram o arquivo completo de dados SAR entre 2014 e 2023 utilizando análises InSAR multitemporais avançadas. O método permitiu acompanhar alterações na elevação e no movimento vertical do terreno em deltas inteiros.
Nuno Miranda, gerente da missão Sentinel-1 da Agência Espacial Europeia, afirmou que o estudo demonstra a capacidade do sistema em fornecer medições globais contínuas e de alta resolução.
Segundo ele, observações sistemáticas de radar são fundamentais para quantificar fatores de subsidência e orientar estratégias de adaptação em escala global.
Gestão futura dependerá de conter o avanço do mar e o afundamento do solo
Os deltas sempre foram ambientes dinâmicos moldados por rios e tempestades. Entretanto, a combinação entre pressão humana e mudanças climáticas intensificou transformações em ritmo superior ao observado anteriormente.
Combater a subsidência simultaneamente à elevação do nível do mar é apontado como fator decisivo para proteger algumas das regiões mais populosas e vulneráveis do planeta nas próximas décadas.
O desafio enfrentado por grandes cidades deltaicas não se limita à contenção da água oceânica. Também envolve impedir que o solo continue perdendo altitude sob áreas urbanas densamente ocupadas.
O estudo completo foi publicado na revista Nature.
