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Terra está atravessando os destroços radioativos de uma supernova antiga e cientistas encontraram a prova congelada no gelo da Antártida com traços de ferro-60 que ainda caem sobre o planeta

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 14/05/2026 às 20:42
Atualizado em 14/05/2026 às 20:45
Terra atravessa cinzas de supernova antiga e cientistas encontram ferro-60 radioativo no gelo da Antártida com até 80 mil anos, confirmando a origem cósmica.
Terra atravessa cinzas de supernova antiga e cientistas encontram ferro-60 radioativo no gelo da Antártida com até 80 mil anos, confirmando a origem cósmica.
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Pesquisadores do Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf detectaram ferro-60 no gelo da Antártida com até 80 mil anos e confirmaram que a Terra coleta poeira de supernova enquanto o Sistema Solar viaja por uma nuvem interestelar formada pela explosão de uma estrela antiga

A Terra está silenciosamente coletando cinzas radioativas de uma estrela que explodiu há milhões de anos. Cientistas que analisaram amostras de gelo da Antártida com até 80.000 anos descobriram traços de ferro-60, um isótopo raro que só se forma no interior de estrelas massivas e é liberado no espaço durante explosões de supernova. A descoberta, publicada na revista Physical Review Letters, confirma que a Nuvem Interestelar Local que envolve nosso Sistema Solar carrega material proveniente de uma antiga explosão estelar.

Segundo estudo publicado no ScienceDaily, o achado transforma o gelo antártico em uma espécie de arquivo cósmico. A pesquisa foi liderada por uma equipe internacional do Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf (HZDR), na Alemanha, e revelou que a Terra vem acumulando essa poeira de supernova à medida que o Sistema Solar se desloca pela nuvem interestelar. O ferro-60 encontrado no gelo da Antártida funciona como uma impressão digital deixada por uma estrela que já não existe, mas cujos restos ainda alcançam a superfície do nosso planeta.

O que é o ferro-60 e por que ele só vem de uma supernova

Terra atravessa cinzas de supernova antiga e cientistas encontram ferro-60 radioativo no gelo da Antártida com até 80 mil anos, confirmando a origem cósmica.

O ferro-60 é uma forma radioativa rara de ferro que não se forma naturalmente na Terra. Sua origem é exclusivamente estelar. Ele é forjado no interior de estrelas massivas e só é liberado no espaço quando essas estrelas atingem o fim de suas vidas e explodem em supernova, espalhando seus elementos pelo meio interestelar. Quando esse isótopo aparece em amostras geológicas terrestres, os cientistas sabem que ele veio de fora do planeta.

Estudos anteriores já haviam detectado ferro-60 em neve relativamente jovem da Antártida e em sedimentos marinhos, mas a origem do material permanecia incerta porque não se conhecem explosões de supernova recentes nas proximidades da Terra. A grande questão era descobrir como esse isótopo continuava chegando ao planeta se nenhuma estrela havia explodido por perto em tempos recentes. A hipótese dos pesquisadores era de que a Nuvem Interestelar Local funcionava como um reservatório de ferro-60, armazenando o material por longos períodos e liberando-o gradualmente conforme o Sistema Solar atravessa a nuvem.

300 quilos de gelo da Antártida revelam a assinatura de uma estrela morta

Terra atravessa cinzas de supernova antiga e cientistas encontram ferro-60 radioativo no gelo da Antártida com até 80 mil anos, confirmando a origem cósmica.
Trajetória do sistema solar através da Nuvem Interestelar Local.
Fonte: B. Schröder

Para testar essa hipótese, a equipe transportou cerca de 300 quilos de gelo antártico do Instituto Alfred Wegener, em Bremerhaven, até Dresden, onde o material passou por um extenso processo químico. Após todo o preparo, restaram apenas algumas centenas de miligramas de poeira, quantidade minúscula que continha os átomos de ferro-60 que os pesquisadores procuravam.

As amostras de gelo analisadas nesta pesquisa são muito mais antigas do que as estudadas anteriormente, cobrindo o período entre 40.000 e 80.000 anos atrás. Esse intervalo de tempo é fundamental porque coincide com a fase em que o Sistema Solar pode ter entrado na Nuvem Interestelar Local. Os resultados apontaram fortemente para a nuvem como a fonte do ferro-60 que chega à Terra, reforçando a ideia de que as cinzas da supernova estão preservadas nessa estrutura cósmica que envolve nossa vizinhança galáctica. O gelo foi fornecido pelo projeto europeu de perfuração EPICA, voltado para a recuperação de amostras profundas da Antártida.

A máquina que encontra uma agulha em 50 mil estádios de feno

Detectar ferro-60 em amostras terrestres exige uma precisão quase inimaginável. Para as medições finais, os cientistas utilizaram o Acelerador de Íons Pesados da Universidade Nacional da Austrália, atualmente a única instalação no mundo capaz de identificar quantidades tão extremamente pequenas desse isótopo. O equipamento utiliza filtros elétricos e magnéticos para separar átomos por massa até isolar apenas alguns átomos de ferro-60 de uma amostra original que continha 10 trilhões de átomos.

Annabel Rolofs, pesquisadora da Universidade de Bonn que participou do estudo, comparou o processo a procurar uma agulha em 50.000 estádios de futebol lotados de feno, tarefa que a máquina completa em cerca de uma hora. Antes de chegar a essa etapa, a equipe validou o preparo das amostras usando dois outros isótopos radioativos, berílio-10 e alumínio-26, cujos níveis no gelo da Antártida já são bem conhecidos. Essa verificação garantiu que nenhum átomo de ferro-60 foi perdido durante o processamento químico.

A Terra coleta mais poeira de supernova hoje do que há 80 mil anos

Uma das descobertas mais reveladoras do estudo é que a quantidade de ferro-60 que chega à Terra hoje é maior do que a registrada entre 40.000 e 80.000 anos atrás. Essa diferença indica que o Sistema Solar está atualmente em uma região da Nuvem Interestelar Local com maior concentração de detritos de supernova, ou que a própria nuvem apresenta variações significativas de densidade ao longo de sua extensão.

O Dr. Dominik Koll, do HZDR, explicou que o sinal do ferro-60 muda de forma expressiva em períodos de apenas dezenas de milhares de anos, o que é relativamente rápido em escalas de tempo cósmicas. Essa velocidade de variação ajudou os pesquisadores a descartar explicações alternativas, como a hipótese de que o material tivesse vindo de explosões de supernova muito mais antigas e se dissipado lentamente ao longo de milhões de anos. Os dados do gelo da Antártida confirmam que a fonte é a nuvem interestelar que envolve o Sistema Solar neste momento.

O que a poeira de supernova no gelo da Antártida revela sobre o futuro

Os cientistas acreditam que o Sistema Solar entrou na Nuvem Interestelar Local há várias dezenas de milhares de anos e que deverá sair dela nos próximos milhares de anos. A Terra está atualmente posicionada próxima à borda externa dessa estrutura cósmica, o que explica a concentração relativamente alta de ferro-60 detectada nas amostras mais recentes em comparação com o gelo mais antigo da Antártida.

O próximo passo da pesquisa envolve a análise de núcleos de gelo ainda mais antigos, de uma época anterior à entrada do Sistema Solar na nuvem. O Instituto Alfred Wegener participa do projeto Beyond EPICA, que busca recuperar amostras de gelo que remontam a um passado ainda mais remoto da Terra. Se o ferro-60 desaparecer nessas amostras mais antigas, será a confirmação definitiva de que a Nuvem Interestelar Local é a origem do material e de que a supernova que a criou deixou uma marca que ainda hoje cai sobre o nosso planeta.

A Terra atravessa neste momento os restos de uma estrela que explodiu há milhões de anos, e a prova está preservada no gelo da Antártida. O ferro-60 que os cientistas encontraram é uma mensagem cósmica escrita em átomos, e pela primeira vez a ciência conseguiu lê-la com clareza.

O que você acha dessa descoberta? A ideia de que a Terra coleta poeira de supernova muda a forma como você enxerga o planeta? Deixe sua opinião nos comentários.

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