A transição das energias renováveis na China avança, mas enfrenta entraves de mercado, disputas geopolíticas e excesso de capacidade industrial em setores estratégicos.
A China atravessa um período decisivo na consolidação das energias renováveis como eixo central de sua matriz energética. Em 2025, o país intensificou reformas no setor elétrico, ao mesmo tempo em que ampliou investimentos tecnológicos e lidou com riscos geopolíticos crescentes. Esse movimento ocorre em um momento estratégico, já que o planejamento do 15º Plano Quinquenal, válido entre 2026 e 2030, está em discussão.
Como maior consumidor e produtor de energia do mundo, o país busca reduzir gradualmente sua dependência do carvão. Paralelamente, tenta garantir segurança energética, fortalecer a indústria nacional e sustentar o crescimento econômico. No entanto, esse equilíbrio tem se mostrado complexo diante das transformações em curso.
Fim das compras garantidas muda lógica dos projetos renováveis
Uma das mudanças mais relevantes ocorreu em fevereiro, quando o governo chinês encerrou o modelo de compras garantidas de energia eólica e solar pela rede elétrica. A medida passou a exigir que novos projetos comercializem eletricidade diretamente no mercado aberto a partir de 1º de junho.
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A decisão faz parte de uma reforma mais ampla que busca aumentar a eficiência e a competitividade do setor elétrico. Segundo diretriz conjunta da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma e da Administração Nacional de Energia, governos locais também ficaram proibidos de exigir sistemas de armazenamento como condição obrigatória para a aprovação de projetos.
Antes disso, essas exigências eram comuns. Apesar de contribuírem para a estabilidade da rede, elevavam custos e, em muitos casos, incentivavam o uso de equipamentos de baixa qualidade.
Reação do mercado e pressão sobre os preços da energia
Inicialmente, o mercado reagiu com cautela. Desenvolvedores aceleraram projetos antes da entrada em vigor das novas regras. Como resultado, a China registrou um recorde mensal de instalações solares em maio.
Ao mesmo tempo, fatores estruturais passaram a pressionar os preços da energia. A expansão contínua da capacidade instalada de energias renováveis coincidiu com demanda industrial mais fraca e queda nos preços do carvão. Além disso, a implementação acelerada de mercados spot regionais intensificou a volatilidade.
Em setembro, o país avançou ainda mais ao divulgar suas primeiras regras nacionais para mercados spot de eletricidade, reforçando a transição para um sistema orientado pelo mercado.
Inteligência artificial ganha espaço no setor energético
Enquanto as reformas avançavam, a adoção de inteligência artificial ganhou novo impulso. Em janeiro, a startup DeepSeek lançou um modelo de linguagem de código aberto que ampliou o acesso à tecnologia por empresas do setor energético.
Pouco depois, a Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais anunciou planos para ampliar o uso de IA nas estatais. Até o fim de março, mais de 500 aplicações operacionais já utilizavam a tecnologia, segundo dados oficiais.
Empresas de petróleo, gás, mineração e redes elétricas passaram a empregar IA para reduzir custos, elevar a eficiência e melhorar a segurança. Ainda assim, executivos reconhecem que as aplicações permanecem limitadas e não alteraram, até agora, os modelos de negócios predominantes.
Avanço tecnológico impulsiona novas soluções energéticas
Além da digitalização, a corrida por tecnologias de próxima geração se intensificou. O setor de baterias ganhou destaque, especialmente com o foco crescente em baterias de estado sólido, vistas como alternativa às limitações das baterias de íon-lítio.
No setor eólico, projetos inovadores também chamaram atenção. Em julho, a Envision Group inaugurou a primeira fase de um empreendimento na Mongólia Interior que utiliza uma rede elétrica própria, alimentada por energias renováveis, para produção de amônia. O modelo sinaliza uma tentativa de reduzir desperdícios e custos em regiões ricas em recursos naturais.
Disputa por minerais críticos acirra tensões internacionais
No campo geopolítico, os minerais críticos tornaram-se um dos principais focos de tensão entre China e Estados Unidos. Em abril, Pequim incluiu sete terras raras médias e pesadas em sua lista de controle de exportações, movimento interpretado como resposta às tarifas impostas por Washington.
Esses minerais são considerados estratégicos para setores como defesa, aeroespacial e tecnologia avançada. Em contrapartida, os EUA passaram a exigir licenças especiais para exportação de chips de IA para a China, afetando empresas como a Nvidia.
Apesar de um breve período de distensão após negociações em junho, novas restrições e retaliações marcaram o segundo semestre, mantendo o ambiente de incerteza nas cadeias globais de suprimentos.
Excesso de capacidade pressiona indústrias verdes
Internamente, as chamadas “Três Novas” indústrias chinesas — veículos elétricos, painéis solares e baterias de íon-lítio — enfrentaram um ciclo de supercapacidade e queda de preços. O setor solar foi o mais afetado.
Os preços do polissilício, por exemplo, despencaram quase 90% em relação ao pico de 2022. Como consequência, grandes empresas do setor registraram prejuízos significativos no primeiro semestre de 2025.
Diante desse cenário, o governo central convocou reuniões com representantes da indústria para discutir medidas contra concorrência desleal e práticas de venda abaixo do custo. Paralelamente, produtores se organizaram em joint ventures para tentar conter a supercapacidade.
Exportações e limites do crescimento verde
Com dificuldades no mercado interno, empresas de energias renováveis voltaram-se para o exterior. As exportações de veículos elétricos e baterias apresentaram desempenho mais favorável. Já as exportações de células solares recuaram quase 10% em valor.
Analistas apontam que a fraca demanda é um problema estrutural. Além disso, cortes de subsídios e aumento de barreiras comerciais na Europa e nos Estados Unidos adicionam novas incertezas ao futuro do setor.
Mesmo assim, o avanço das energias renováveis permanece central para a estratégia chinesa. O desafio está em alinhar crescimento, eficiência econômica e segurança energética em um cenário global cada vez mais competitivo e fragmentado.
