Uma expedição no Pacífico revelou formações gigantes no fundo do mar e reacendeu o interesse científico por ambientes extremos, hidrogênio natural e ecossistemas que vivem longe da luz solar oceânica.
Pesquisadores chineses identificaram no oeste do Oceano Pacífico um sistema hidrotermal até então desconhecido, formado por 20 crateras no fundo do mar e associado à liberação intensa de hidrogênio.
Batizada de Kunlun, a área fica perto da fossa de Mussau, a nordeste de Papua-Nova Guiné, e reúne estruturas de grande porte, além de abrigar comunidades de animais adaptadas à vida sem luz solar.
Os resultados foram publicados em 8 de agosto de 2025 na revista Science Advances.
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A maior das crateras tem cerca de 1.800 metros de largura e 130 metros de profundidade.
No conjunto, o sistema ocupa 11,1 quilômetros quadrados.
Segundo os autores, as 20 estruturas estão distribuídas em uma área agrupada, descrita no estudo como um “enxame de pipes”, expressão usada para indicar um conjunto de condutos e depressões circulares concentrados numa mesma região.
Sistema hidrotermal no Pacífico em área incomum
O estudo destaca que Kunlun difere de muitos sistemas hidrotermais já documentados, que costumam ocorrer perto de dorsais mesoceânicas e de limites entre placas tectônicas.
Neste caso, o campo está situado no interior da Placa Caroline, a cerca de 80 quilômetros a oeste da fossa de Mussau.

De acordo com os pesquisadores, essa localização contrasta com a distribuição mais comum de sistemas hidrotermais associados à geração expressiva de hidrogênio por serpentinização.
Em comunicado divulgado pela Academia Chinesa de Ciências, o pesquisador Weidong Sun afirmou que o sistema se destaca pelo fluxo elevado de hidrogênio, pela escala e pelo contexto geológico.
A serpentinização é um processo em que a água do mar penetra por fraturas e reage quimicamente com rochas do manto sob o assoalho oceânico.
Essa reação forma minerais do grupo da serpentina e libera hidrogênio molecular.
Em trabalhos anteriores, esse tipo de ambiente já vinha sendo estudado por seu potencial para sustentar formas de vida baseadas em reações químicas, e não na luz solar.
Fluxo de hidrogênio chama atenção dos pesquisadores
As medições feitas no local apontaram concentrações elevadas de hidrogênio nos fluidos hidrotermais.
Segundo o artigo, os valores registrados in situ variaram entre 5,9 e 6,8 milimoles por quilograma.
Com base nesses dados, os autores estimaram um fluxo total de 4,8 × 10¹¹ mols por ano.
Pelo cálculo apresentado no estudo, esse volume corresponderia a cerca de 5% a 8% do fluxo submarino global de hidrogênio abiótico estimado.

O trabalho observa, no entanto, que essa produção está concentrada num único sistema, o que ajuda a dimensionar a relevância geológica da descoberta segundo os próprios autores.
Outro ponto descrito no artigo é o padrão de descarga dos fluidos.
Em vez de ocorrer principalmente por chaminés concentradas, como em certos campos hidrotermais mais conhecidos, o fluxo em Kunlun aparece de forma difusa e distribuída por uma área extensa.
Isso o diferencia dos chamados fumantes negros, sistemas ligados ao vulcanismo e marcados por temperaturas muito mais altas.
No caso de Kunlun, os fluidos medidos são mais frios.
O valor máximo registrado foi de 18,2 °C, acima da temperatura da água profunda ao redor, mas distante dos níveis observados em sistemas hidrotermais magmáticos clássicos.
O estudo também relata a presença de carbonatos em grande escala dentro dos pipes, inclusive calcita e dolomita.
Além disso, os pesquisadores descreveram rochas carbonáticas autigênicas expostas no fundo marinho e fraturas por onde os fluidos escapam.
Para a equipe, esse conjunto de evidências é compatível com uma dinâmica geológica em que o hidrogênio se acumula no subsolo e é liberado em episódios sucessivos de ruptura.
Vida marinha em ambiente sem luz solar
Durante as expedições com o submersível tripulado Fendouzhe, a equipe observou camarões, lagostas agachadas, anêmonas-do-mar, pequenos vermes tubícolas e peixes nas áreas hidrotermais.
Segundo o artigo, camarões do grupo Alvinocarididae foram vistos perto das saídas de fluido com temperatura mais elevada.
Já nas áreas vizinhas, mais frias, apareceram concentrações de anêmonas e lagostas.
O estudo descreve essas comunidades como típicas de ecossistemas de mar profundo associados à atividade hidrotermal.
Como a luz solar não alcança essas profundidades, a base biológica do ambiente não depende de fotossíntese.
Nesses locais, a produção de energia ocorre por quimiossíntese, processo em que microrganismos utilizam substâncias químicas como fonte energética.
No caso de Kunlun, os autores apontam que o hidrogênio pode ter papel importante nesse mecanismo.
Em comunicado da Academia Chinesa de Ciências, Sun afirmou que as espécies observadas podem depender de quimiossíntese alimentada por hidrogênio.
O próprio artigo, porém, não trata essa relação como confirmação definitiva para toda a fauna registrada.
O que os dados mostram, com base nas observações feitas no campo, é a presença simultânea de emissão intensa de hidrogênio, fluidos alcalinos e organismos característicos de ambientes hidrotermais profundos.

Descoberta amplia estudos sobre o fundo do mar
Para os pesquisadores, Kunlun abre uma nova frente de investigação sobre ambientes ricos em hidrogênio no oceano profundo.
Sistemas desse tipo vêm sendo estudados por sua relevância para a geologia marinha e também por servirem de referência em pesquisas sobre condições químicas da Terra antiga.
Nesse contexto, o novo campo amplia o conjunto de ambientes naturais disponíveis para observação direta.
O estudo não afirma que a descoberta resolva questões sobre a origem da vida, mas indica que ela oferece um novo local para examinar processos associados à serpentinização e à produção natural de hidrogênio.
A localização do sistema também tem implicações para o entendimento da circulação de fluidos no interior das placas oceânicas.
Segundo os autores, o registro de um campo desse porte longe de uma dorsal mesoceânica sugere que esse tipo de geração natural de hidrogênio pode ocorrer em áreas menos esperadas do que se supunha.
A equipe propõe que o campo tenha se formado em etapas.
Primeiro, o hidrogênio teria se acumulado abaixo da superfície.
Depois, esse material teria escapado em eventos explosivos, abrindo grandes crateras.
Em seguida, fraturas nas bordas e no fundo dessas estruturas teriam servido como rotas para fluidos hidrotermais ricos em hidrogênio.
Com o avanço da mineralização, parte dessas fraturas poderia ter sido selada, o que permitiria novo acúmulo de gás e outros episódios de ruptura.
Essa interpretação foi apresentada pelos autores para explicar a morfologia observada no mapeamento do fundo oceânico.
A identificação de Kunlun também reforça a avaliação, recorrente em estudos oceanográficos, de que grande parte do assoalho oceânico ainda permanece pouco explorada.
Nesse cenário, levantamentos com submersíveis tripulados e sistemas de mapeamento em alta resolução seguem revelando estruturas e ecossistemas ainda não descritos pela literatura científica.
