Sedimentos sob o gelo da Groenlândia revelaram folhas e musgos de 416 mil anos e indicam que parte da ilha ficou sem gelo em um clima mais quente.
Durante décadas, uma amostra esquecida em um freezer ajudou a esconder uma das descobertas climáticas mais surpreendentes já feitas no Ártico. Sedimentos retirados debaixo de quase 1,4 km de gelo na Groenlândia revelaram que parte da ilha já foi coberta por vegetação, musgos e tundra exposta ao ar livre em um período relativamente recente da história geológica. O material veio de Camp Century, uma base militar secreta construída pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria sob a camada de gelo da Groenlândia. A análise dos sedimentos mostrou que a região permaneceu sem gelo há cerca de 416 mil anos, durante um período natural de aquecimento conhecido como Marine Isotope Stage 11 (MIS 11).
Camp Century foi construída dentro do gelo durante a Guerra Fria e acabou preservando uma cápsula climática escondida por centenas de milhares de anos
Camp Century foi criada pelo Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos no final da década de 1950. A instalação foi escavada diretamente dentro da camada de gelo do noroeste da Groenlândia e chegou a operar com um pequeno reator nuclear.
Durante perfurações realizadas nos anos 1960, cientistas atravessaram aproximadamente 1.389 metros de gelo antes de atingir sedimentos localizados abaixo da calota. Após problemas mecânicos, parte do material acabou armazenada e permaneceu esquecida por décadas.
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Quando as amostras foram redescobertas e analisadas com técnicas modernas, os pesquisadores perceberam que não estavam olhando apenas para lama antiga, mas para vestígios preservados de um ecossistema que existiu antes do retorno do gelo.
Folhas, musgos e fragmentos de tundra encontrados sob quase 1,4 km de gelo mostraram que a Groenlândia já teve paisagens verdes
Ao examinar os sedimentos em laboratório, os pesquisadores encontraram restos de vegetação preservada, incluindo fragmentos de folhas, musgos e sinais de um antigo ambiente de tundra. O material indicava que a região havia permanecido exposta ao ar livre durante um intervalo significativo de tempo.
Técnicas de luminescência e análises isotópicas permitiram reconstruir quando aqueles sedimentos ficaram pela última vez sob a luz solar. Os resultados apontaram para cerca de 416 mil anos atrás, com margem de erro de aproximadamente 38 mil anos.
Segundo os pesquisadores, a área permaneceu livre de gelo por milhares de anos antes que a calota voltasse a avançar e enterrasse novamente a paisagem sob enormes espessuras de gelo.
Estudo indica que parte da calota da Groenlândia desapareceu quando o dióxido de carbono era muito menor que o atual
Um dos aspectos que mais chamou atenção dos cientistas foi a comparação entre o clima daquele período e o atual. O intervalo MIS 11 ocorreu naturalmente, impulsionado principalmente por mudanças orbitais da Terra e pela quantidade de energia solar recebida nas altas latitudes.

Naquela época, os níveis atmosféricos de dióxido de carbono permaneceram entre aproximadamente 265 e 280 partes por milhão (ppm). Hoje, a concentração global ultrapassa 420 ppm e continua aumentando devido às emissões humanas de gases de efeito estufa.
Para os pesquisadores, o fato de parte significativa da Groenlândia ter perdido gelo em um mundo com CO2 muito inferior ao atual reforça a sensibilidade da calota às mudanças climáticas prolongadas.
O desaparecimento parcial do gelo elevou os oceanos e ajuda cientistas a estimar riscos para cidades costeiras modernas
Os estudos indicam que o derretimento associado àquele período contribuiu para uma elevação global do nível do mar de pelo menos 1,5 metro, podendo chegar a aproximadamente 6 metros quando consideradas as estimativas mais altas.
Os modelos utilizados pelos pesquisadores mostram que a camada de gelo da Groenlândia precisou encolher drasticamente para permitir que a região de Camp Century permanecesse exposta. Em algumas áreas, o recuo teria alcançado centenas de quilômetros.
Como a Groenlândia atualmente armazena gelo suficiente para elevar os oceanos em vários metros caso derreta completamente, entender episódios antigos de retração tornou-se uma das principais ferramentas para avaliar cenários futuros.
A antiga “Groenlândia verde” virou uma das evidências mais fortes sobre a fragilidade das grandes calotas polares
Os autores do estudo classificaram os sedimentos de Camp Century como uma das evidências geológicas mais diretas já encontradas de que grandes setores da Groenlândia ficaram sem gelo durante períodos quentes do passado.
O caso também chamou atenção porque a descoberta surgiu de uma amostra praticamente perdida. O que parecia apenas lama congelada esquecida em armazenamento acabou revelando uma paisagem inteira soterrada sob quase um quilômetro e meio de gelo.
Hoje, enquanto satélites monitoram o derretimento acelerado das regiões polares, aquelas folhas e musgos preservados sob a Groenlândia funcionam como uma mensagem enviada por um planeta antigo: um mundo onde parte da ilha já havia ficado verde muito antes de existirem fábricas, carros ou cidades costeiras modernas ameaçadas pela subida do mar.

