Resta um único exemplar selvagem da árvore Dendroseris neriifolia, agarrado a um penhasco numa ilha do Chile e preso por cordas para não cair. Para evitar a extinção da espécie, guardas florestais escalam até os galhos e colhem as sementes, agora guardadas em um banco genético na Inglaterra.
Existe no mundo uma única árvore de sua espécie ainda viva na natureza, e ela está literalmente pendurada à beira de um abismo. Segundo informações do portal LiveScience, trata-se da Dendroseris neriifolia, que sobrevive presa a um penhasco na Ilha Robinson Crusoé, no Chile, amarrada por cordas para não despencar. Diante do risco de extinção, cientistas correram para coletar suas sementes antes que fosse tarde.
As sementes foram colhidas em março e enviadas ao Banco de Sementes do Milênio, em Kew, na Inglaterra, onde já germinaram as primeiras mudas. Segundo o Jardim Botânico Real de Kew, das 29 sementes recebidas, 25 se mostraram potencialmente viáveis, num esforço internacional que pode representar a derradeira chance de salvar a árvore da extinção.A Dendroseris neriifolia é uma espécie de margarida que cresce em forma de árvore, endêmica das Ilhas Juan Fernández, um arquipélago vulcânico a cerca de 673 quilômetros do Chile continental.
A última árvore presa a um penhasco no Chile

Dendroseris neriifolia remanescente na Ilha Robinson Crusoé, no Chile.
(Crédito da imagem: Gonzalo Rojas)
Um dia comum nas áreas baixas da Ilha Robinson Crusoé, ela foi reduzida a um único indivíduo selvagem, agarrado a um penhasco íngreme e sustentado por cordas para não cair no abismo.
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O exemplar é monitorado por guardas florestais da CONAF, a agência florestal nacional do Chile.
Segundo Paulina Hechenleitner, taxonomista de plantas do Jardim Botânico Real de Edimburgo, na Escócia, a população da árvore vem diminuindo há mais de um século.
A espécie foi empurrada para a beira da extinção por uma soma de fatores: perda de habitat, erosão, espécies invasoras, animais em pastoreio, incêndios e desmatamento histórico.
O caso não é isolado, já que o gênero Dendroseris reúne 11 espécies, todas em declínio, e nenhuma semente desse grupo havia sido guardada em um banco até agora.
A escalada perigosa para coletar as sementes

Chegar até a árvore já é uma aventura de risco. Como explica Hechenleitner, a Ilha Robinson Crusoé é um terreno vulcânico rochoso, sem estrada acessível por carro.
O único caminho até o penhasco envolve uma viagem de quatro horas e, depois, uma escalada de cerca de duas horas. Tudo isso para alcançar uma planta que se equilibra em uma parede de pedra.
Todo mês de março, quando as sementes amadurecem, os guardas do parque sobem pelo próprio tronco da árvore para chegar aos galhos floridos e recolher o material em redes.
Foi assim que, pela primeira vez, sementes desse gênero acabaram depositadas em um banco genético.
No futuro, novas ferramentas podem facilitar o trabalho: segundo os pesquisadores, drones poderão ajudar a coletar sementes de plantas que crescem em encostas de difícil acesso como essa.
Por que guardar sementes pode salvar a espécie da extinção
Depois de colhidas, as sementes seguiram para o Banco de Sementes do Milênio, em Kew Wakehurst, no condado de West Sussex, na Inglaterra.
Lá, análises de raios X revelaram que 25 das 29 unidades eram potencialmente viáveis, e as primeiras mudas já começaram a criar raízes.
De acordo com o Jardim Botânico Real de Kew, parte dessas novas plantas será transferida para o Logan Botanic Garden, na Escócia, reforçando a estratégia de conservação fora do habitat original.
Para Alice Hudson, responsável por parcerias do Banco de Sementes do Milênio, esse tipo de guarda funciona como uma apólice de seguro.
Se algo acontecer ao exemplar que resta na natureza, existem sementes armazenadas que os cientistas já sabem como germinar, o que dilui o risco de perder a espécie de vez.
Os bancos também permitem estudar de perto o processo de germinação e, mais à frente, devolver plantas ao Chile para projetos de restauração, evitando a extinção definitiva.
Gargalos genéticos, um beija-flor e a corrida contra o tempo
Mesmo com sementes viáveis, há obstáculos biológicos. Os pesquisadores temem gargalos genéticos, baixa fertilidade e endogamia.
A Dendroseris neriifolia consegue se autopolinizar, mas a produção de sementes pode ficar limitada se os galhos com flores forem poucos, o que torna cada safra ainda mais valiosa para conter a extinção.
O desaparecimento dessa árvore teria efeitos que vão além dela. Suas flores alimentam o beija-flor conhecido como picaflor de Juan Fernández, também criticamente ameaçado, num elo que mostra como a perda de uma planta pode abalar todo um ecossistema.
Para se ter ideia da urgência, estudos indicam que, nos últimos 250 anos, plantas foram extintas a um ritmo duas vezes maior que o de aves, mamíferos e anfíbios somados.
A espécie foi descrita em 1830 pelo botânico italiano Carlo Bertero e, embora uma expedição de 1980 ainda tenha achado sete exemplares no Chile, hoje sobrou apenas um.
Arriscar a vida escalando um penhasco para salvar a última árvore de uma espécie é o tipo de história que mostra até onde vai o esforço para evitar uma extinção.
Conte nos comentários se você acha que vale a pena todo esse trabalho para preservar uma única planta e o que isso diz sobre a forma como tratamos a natureza.

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