Poucos países têm tanto petróleo quanto a Venezuela. A explicação está nas placas tectônicas e na formação do subsolo.
A Venezuela voltou ao centro do noticiário internacional no início de 2026 por dois motivos interligados: a captura do presidente Nicolás Maduro por tropas dos Estados Unidos e as declarações do ex-presidente Donald Trump sobre o potencial do petróleo venezuelano.
O episódio reacendeu o debate sobre por que o país concentra as maiores reservas de petróleo do planeta, como elas se formaram e por que nem todo esse volume é facilmente explorável.
Segundo dados divulgados pelo próprio governo, a Venezuela declara cerca de 300 bilhões de barris de petróleo em reservas comprovadas, número que representa quase um quinto de todo o petróleo conhecido no mundo.
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Especialistas, no entanto, alertam que essa cifra pode estar inflada, pois o conceito de reserva comprovada exige não apenas a existência física do petróleo, mas também a viabilidade técnica e econômica de sua extração com 90% de probabilidade.
Ainda assim, mesmo com questionamentos, não há dúvida de que a Venezuela é uma potência petrolífera.
A explicação está menos na política e mais na geologia, envolvendo milhões de anos de interação entre placas tectônicas, relevo, clima e tempo geológico.
O que são reservas comprovadas de petróleo
Antes de entender por que a Venezuela tem tanto petróleo, é fundamental diferenciar potencial geológico de produção real.
Reserva comprovada é aquela que pode ser extraída de forma economicamente viável com a tecnologia disponível.
No caso venezuelano, grande parte do petróleo está concentrada na Faixa Petrolífera do Orinoco. Trata-se de um petróleo pesado e extrapesado, com alto teor de enxofre, o que torna a extração e o refino mais caros.
Portanto, embora o volume seja gigantesco, a produção efetiva enfrenta limitações técnicas e financeiras.
A geografia que favoreceu o petróleo venezuelano
Do ponto de vista geológico, o território da Venezuela se divide em duas grandes regiões, separadas pela cordilheira dos Andes, que atravessa o oeste do país.

Essa configuração, que combina cadeias montanhosas elevadas com extensas bacias sedimentares planas, é essencial para a formação de grandes campos de petróleo.
Essas bacias funcionaram, ao longo de milhões de anos, como verdadeiros reservatórios naturais, onde sedimentos ricos em matéria orgânica se acumularam, foram soterrados e transformados em hidrocarbonetos.
O papel decisivo das placas tectônicas
A Venezuela está localizada em uma zona de interação complexa entre a placa Sul-Americana, a placa do Caribe e a placa de Nazca.

Esse choque constante de placas tectônicas criou bacias profundas, falhas geológicas e dobras capazes de aprisionar o petróleo no subsolo.

“As placas tectônicas se empurram umas contra as outras. A borda da placa sul-americana está sendo engolida sob a placa do Caribe, como se fosse uma máquina limpa-neve empilhando rocha com literalmente quilômetros de espessura”, explica o geólogo Philip Prince, professor da Virginia Tech, em entrevista à BBC News Mundo.
Esse processo enterra profundamente a chamada rocha geradora, permitindo a formação do petróleo.
Com o tempo, o óleo migra por falhas naturais até encontrar armadilhas geológicas, onde se acumula em grandes volumes.
Por que o petróleo do Orinoco é tão abundante
A Faixa Petrolífera do Orinoco é considerada a maior acumulação contínua de hidrocarbonetos do mundo.
De forma simplificada, ela funciona como o destino final do petróleo gerado em áreas profundas da bacia, que migrou ao longo de milhões de anos até se concentrar nessa região.
“As vastas reservas do país talvez sejam melhor explicadas quando se reconhece que as bacias atuais são remanescentes de áreas sedimentares muito mais extensas”, escreveu o geólogo K. H. James em artigo publicado no Journal of Petroleum Geology.
Os ingredientes iniciais do petróleo venezuelano
A origem do petróleo venezuelano remonta a centenas de milhões de anos, quando ambientes aquáticos ricos em algas e fitoplâncton cobriam a região.
Esse material orgânico foi soterrado por sedimentos, submetido a altas pressões e transformado quimicamente em petróleo.
“No subsolo venezuelano existe uma espessa sequência de rochas sedimentares ricas em matéria orgânica. Esses pequenos organismos são, na prática, os ingredientes iniciais do petróleo”, explica Prince.
Além disso, a presença de rochas geradoras do período Cretáceo, de altíssima qualidade, combinada com arenitos eficientes como rochas reservatório, criou condições quase perfeitas para a formação e preservação de gigantescas reservas de petróleo.
Um gigante energético com desafios
Portanto, a Venezuela possui tanto petróleo não por acaso, mas por uma combinação geológica rara no planeta.
A interação entre placas tectônicas, bacias sedimentares profundas e matéria orgânica abundante explica por que o país concentra volumes tão expressivos de petróleo.
Por outro lado, o caráter pesado do petróleo venezuelano impõe desafios técnicos e econômicos, tornando a diferença entre reservas declaradas e produção real um tema central no debate energético global.

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