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Shibam no Iêmen revela como arranha-céus de barro de até 30 metros foram erguidos há 500 anos para defesa urbana e planejamento vertical no deserto

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Escrito por Caio Aviz Publicado em 17/03/2026 às 11:57
Arranha-céus de barro da cidade de Shibam no deserto do Iêmen, com edifícios verticais históricos cercados por vegetação e construções tradicionais
Vista da cidade de Shibam, no Iêmen, conhecida como a “Manhattan do deserto”, com suas torres de barro de até 30 metros erguidas para defesa e organização urbana
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Cidade histórica no Wadi Hadhramaut combina engenharia de terra, proteção contra ataques e urbanismo vertical pioneiro

Uma paisagem singular no deserto do Iêmen chama atenção há séculos e, ao mesmo tempo, revela soluções urbanas avançadas para sua época.
No vale do Wadi Hadhramaut, Shibam se destaca com cerca de 500 edifícios verticais, variando entre 5 e 11 andares.
Todas as construções foram feitas com tijolos de terra crua, o que reforça sua singularidade histórica.
Segundo a UNESCO, a cidade é considerada a mais antiga metrópole a adotar construção vertical planejada.

Fundada por volta do século III, Shibam ganhou relevância em 300 d.C., quando se tornou capital do Reino de Hadhramaut.
Naquele momento, após a destruição de Shabwa, a nova capital precisou se reorganizar rapidamente.
Por estar localizada em uma rota estratégica de especiarias e incenso, a cidade acumulava riqueza e atraía ataques constantes.
Diante disso, a solução encontrada foi transformar o espaço urbano em uma fortaleza vertical.

Estratégia urbana transforma cidade em fortaleza vertical

Para garantir proteção, as torres foram construídas lado a lado dentro de uma muralha retangular de 330 por 240 metros.
Dessa forma, pontos vulneráveis foram eliminados e o controle do espaço se tornou mais eficiente.
Além disso, os andares térreos não possuem janelas, pois eram utilizados para armazenar grãos e proteger animais durante cercos.

Ao mesmo tempo, passarelas elevadas conectam os edifícios.
Assim, os moradores conseguiam circular entre as torres sem descer ao nível da rua.
Segundo a UNESCO, a competição entre famílias influenciou diretamente esse modelo urbano compacto e verticalizado.

Técnica construtiva combina terra, palha e engenharia estrutural

Os edifícios de Shibam foram construídos com uma mistura de solo, palha e água, moldada em tijolos e seca ao sol.
Além disso, as paredes da base chegam a 1,2 metro de espessura, o que garante sustentação.
Com o avanço da altura, essa espessura diminui, criando formato trapezoidal.
Dessa forma, o peso é distribuído de maneira mais eficiente.

Internamente, vigas de madeira reforçam a estrutura.
Assim, alguns prédios ultrapassam 30 metros de altura, sendo considerados exemplos pioneiros de arranha-céus.
Além disso, o sistema construtivo está diretamente ligado à agricultura local.
Após a colheita, o solo fértil é reutilizado para fabricar novos tijolos ou restaurar fachadas.

Essa manutenção contínua é essencial.
Sem ela, vento, chuva e calor extremo degradam rapidamente as estruturas, conforme apontam especialistas.

Reconstrução histórica consolida a “Manhattan do deserto”

Embora a cidade tenha cerca de 1.700 anos, a maior parte das construções atuais data de 1533.
Naquele ano, uma enchente destruiu a cidade anterior, exigindo reconstrução quase completa.
Ainda assim, permanecem estruturas antigas, como uma mesquita de 904 e um castelo de 1220.

Nos anos 1930, a exploradora britânica Freya Stark visitou Shibam.
Na ocasião, ela a apelidou de “Manhattan do deserto”, comparação que permanece até hoje.
Posteriormente, em 1982, a UNESCO reconheceu a cidade como Patrimônio Mundial.
O título considerou seu valor urbano, histórico e adaptativo.

Enchentes e guerra colocam cidade em risco

Apesar da resistência histórica, Shibam enfrenta ameaças constantes.
Em outubro de 2008, uma tempestade tropical provocou enchentes severas.
Segundo relatório da UNESCO, as águas comprometeram fundações e aceleraram a erosão das torres.

Diante disso, a União Europeia financiou um programa de restauração.
O projeto utilizou técnicas tradicionais e empregou moradores locais.
No entanto, em 2015, a guerra civil no Iêmen interrompeu parte dessas iniciativas.

Com isso, a UNESCO incluiu Shibam na lista de Patrimônio em Perigo.
Além disso, a organização GOPHCY conseguiu documentar 98% das moradias tradicionais.
Antes da paralisação, mais de 60% das estruturas já haviam sido restauradas.

Arquitetura milenar ainda inspira soluções modernas

Mesmo diante dos desafios, Shibam continua sendo referência global.
Por exemplo, as torres sem janelas no térreo funcionam como isolamento térmico natural, reduzindo a temperatura interna.
Além disso, a disposição compacta das construções cria sombra entre os edifícios.

Dessa forma, a incidência solar direta é reduzida, melhorando o conforto térmico.
Por isso, projetos modernos, como os de Masdar em Abu Dhabi, utilizam princípios semelhantes.
A cidade se mantém relevante para o urbanismo contemporâneo.

Atualmente, cerca de 7 mil pessoas ainda vivem dentro da muralha.
Esses moradores mantêm técnicas tradicionais e realizam manutenção constante.
Dessa maneira, a cidade continua funcional, mesmo em condições adversas.

Um modelo urbano que atravessa séculos

Shibam demonstra que a engenharia vertical não depende de materiais modernos como aço ou concreto.
Muito antes das grandes metrópoles atuais, estruturas de até 11 andares já eram construídas com barro.
Além disso, resistiram por séculos a enchentes, conflitos e desgaste natural.

Assim, a cidade permanece como exemplo de adaptação e planejamento urbano eficiente.
Ao mesmo tempo, enfrenta desafios que exigem preservação contínua.
Diante disso, será que soluções antigas como as de Shibam ainda podem influenciar o futuro das cidades modernas?

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Caio Aviz

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