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Enquanto a Petrobras opera a 7.000 metros no pré-sal, a China está extraindo petróleo e gás a 10.910 metros em terra firme — Shenditake 1 é o primeiro poço terrestre do mundo a passar dos 10 km

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 09/05/2026 às 17:00
Atualizado em 09/05/2026 às 17:03
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Enquanto as plataformas brasileiras do pré-sal trabalham com colunas de até 7.000 metros entre lâmina d’água e reservatório, engenheiros chineses da CNPC concluíram em 20 de fevereiro de 2025 a perfuração do poço Shenditake 1.

Conforme registros oficiais, a coluna chegou a 10.910 metros sob o Deserto de Taklimakan, na Província de Xinjiang.

Segundo comunicado da PetroChina divulgado pelo Global Times, é o primeiro poço terrestre do mundo a ultrapassar 10 km. O feito confirmou reservas comerciais abaixo desse limite.

De fato, durante décadas, executivos de petróleo consideravam essa fronteira economicamente inviável. As pressões e as temperaturas extremas destruíam equipamentos antes de qualquer retorno em produção sustentada.

Sonda de perfuração do poço Shenditake 1 no Deserto de Taklimakan
Representação do equipamento operando o poço chinês sob o Deserto de Taklimakan.

A operação começou em 30 de maio de 2023. Levou 279 dias para chegar aos 10.000 metros — segundo dado oficial compilado pelo World Energy.

Conforme a CNPC, foram 632 dias de perfuração ininterrupta. Quase 21 meses operando equipamento sob temperaturas e pressões que destroem componentes convencionais.

Por isso, o último quilômetro consumiu mais tempo que toda a primeira fase. A engenharia precisou trocar brocas, ajustar fluidos e reagir a fraturas inesperadas em rocha sob 145 megapascais.

Sete recordes globais simultâneos no poço Shenditake 1

Além da profundidade absoluta, a operação estabeleceu sete marcos simultâneos. Cada um expandiu a fronteira técnica em uma disciplina diferente da indústria.

  • Cimentação de liner mais profunda do mundo — selagem da coluna a 10.910 metros
  • Perfilagem por imagem mais profunda do mundo — análise petrofísica em tempo real
  • Perfuração onshore mais rápida acima de 10.000 metros — 279 dias até a marca
  • Cimentação de tail pipe mais profunda — fixação de revestimento extremo
  • Amostragem de testemunho mais profunda da Ásia — coleta de rocha intacta
  • Perfilagem por cabo mais profunda da Ásia — varredura geofísica
  • Primeira descoberta de óleo e gás abaixo dos 10 km em terra

Além disso, a equipe penetrou 12 formações geológicas distintas da Bacia do Tarim. O resultado foi o primeiro perfil geológico contínuo de 10.000 metros já levantado em solo asiático.

“Esse perfil é a primeira janela direta para a estrutura sedimentar profunda da bacia”, afirmou Wang Chunsheng, engenheiro-chefe da CNPC, ao People’s Daily.

A primeira sonda automatizada de 12.000 metros já construída

Para alcançar essa profundidade, a CNPC desenvolveu a primeira sonda terrestre automatizada de 12.000 metros do mundo. O equipamento foi projetado para gradientes geotérmicos extremos.

Sonda CNPC de 12.000 metros usada no Shenditake 1
A sonda CNPC de 12.000 metros, primeiro equipamento automatizado terrestre dessa categoria.

Segundo a South China Morning Post, a temperatura no fundo do poço passa de 210 graus Celsius. É calor suficiente para vaporizar óleo de cozinha.

Ao mesmo tempo, a pressão excede 145 megapascais. Para efeito comparativo, a Fossa das Marianas registra cerca de 110 megapascais — bem menos do que o fundo do poço chinês.

Portanto, a operação ocorre em condições mais severas que o leito do oceano mais profundo conhecido. Cada componente metálico precisa resistir a tensões fora dos catálogos convencionais.

Por que a Bacia do Tarim virou laboratório da exploração ultraprofunda

A Bacia do Tarim é uma das mais complexas regiões sedimentares do mundo. Encrustada na Província de Xinjiang, ela combina depósitos carbonáticos antigos e sobrecarga sedimentar massiva.

De fato, a região concentra reservas estimadas em bilhões de metros cúbicos de gás. Há horizontes ainda inexplorados abaixo dos 8.000 metros, segundo a PetroChina.

Em março de 2024, a empresa havia anunciado a quebra da barreira dos 10.000 metros com um poço anterior. O projeto identificou a primeira reserva de gás além dos 10 km.

Esse poço anterior, registrado pelo Global Times, não trouxe óleo. Apenas gás natural foi encontrado naquela reserva.

Dessa forma, o feito de 2025 fechou a janela: confirmou que existem hidrocarbonetos comerciais — não apenas gás — em horizontes ultraprofundos da bacia.

O que a descoberta significa para o pré-sal brasileiro

Conforme dados da Petrobras, o pré-sal opera entre 5.000 e 7.000 metros verticais. Isso inclui lâmina d’água, pós-sal e a camada de sal.

Comparação entre o Shenditake 1 e a profundidade do pré-sal brasileiro
Esquema comparativo: poço chinês a 10.910 m em terra firme versus pré-sal brasileiro a até 7.000 m em mar.

A diferença, no entanto, está em terra versus mar. O Brasil ainda não tem operação onshore comparável em complexidade.

Igualmente, as projeções da EIA para o petróleo sul-americano não preveem campos terrestres ultraprofundos no curto prazo.

Por outro lado, as tecnologias chinesas de cabeça-de-poço de alta temperatura podem ser licenciadas para campos brasileiros mais profundos. Atualmente, a Petrobras importa equipamentos de Schlumberger, Halliburton e Baker Hughes.

Como resultado, a entrada de fornecedores chineses no mercado pode pressionar preços e ampliar opções tecnológicas para a frota offshore brasileira.

O próximo alvo do Shenditake 1: superar 12.000 metros do Kola

A China já anunciou planos para perfurar um poço de 12.000 metros. Esse marco superaria o recorde mundial absoluto, estabelecido pelo Soviete Kola Superdeep Borehole, que parou aos 12.262 metros em 1992 por limitações técnicas.

Conforme a CNPC, o equipamento atual foi desenhado exatamente para esse alvo. A diferença é que o Kola era exclusivamente científico, sem produção comercial.

Por isso, o próximo poço chinês, se replicar a metodologia, poderá inaugurar a primeira reserva comercial em escala superprofunda da história do petróleo.

Segundo registro do State Council Information Office chinês, He Jiangchuan, vice-presidente da PetroChina, afirmou: “A descoberta valida que reservatórios comerciais existem mesmo nas profundidades mais extremas.”

Ressalvas e o que a CNPC ainda não divulgou

No entanto, a PetroChina não divulgou volumes comerciais estimados das reservas encontradas. O cronograma de início da produção em escala também não foi tornado público.

Apesar disso, especialistas independentes consultados pelo ScienceDirect alertam que reservatórios em condições tão extremas exigem testes prolongados.

A descoberta confirma óleo e gás ali, porém ainda não se sabe por quanto tempo a janela permanecerá comercial.

Contudo, o acompanhamento dos próximos 12 meses, quando a CNPC deve divulgar produção sustentada, dirá se o feito inaugura uma nova era ou permanecerá como conquista isolada.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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