Megalago Paratethys cobriu 2,8 milhões de km² na Eurásia, perdeu até 70% da superfície e deixou vestígios no Cáspio e no Mar Negro.
Sete pesquisadores ligados a instituições da Holanda, Brasil, Rússia, Romênia e Alemanha reconstruíram a história de um corpo d’água tão grande que supera qualquer lago moderno conhecido. O Paratethys, antigo mar isolado da Eurásia, chegou a cobrir cerca de 2,8 milhões de km² e armazenar mais de 1,8 milhão de km³ de água salobra, volume mais de dez vezes superior ao de todos os lagos atuais somados.
O estudo mostra que esse mundo aquático, separado do oceano por movimentos tectônicos, não desapareceu de forma simples. Entre fases de expansão e colapso, o maior lago da história da Terra perdeu até 70% da superfície, teve queda de nível de até 250 metros e expôs aproximadamente 1,75 milhão de km² de fundo seco, transformando parte da Eurásia em uma paisagem pós-apocalíptica de sal, lama e extinções.
Paratethys foi o maior lago da história da Terra e ocupava uma área maior que o Mediterrâneo atual
O Paratethys se formou quando o antigo Mar Paratethys ficou tectonicamente isolado do oceano global durante o Mioceno tardio. A elevação de cadeias montanhosas na Europa central bloqueou conexões marinhas e transformou um braço oceânico em um gigantesco lago salobro no interior da Eurásia.
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No auge, esse corpo d’água se estendia dos Alpes orientais até a Ásia Central. Em um mapa moderno, ocuparia regiões hoje associadas à Europa Oriental, Mar Negro, Cáspio, Cáucaso, Rússia e Cazaquistão.
A dimensão assusta porque o lago tinha cerca de 2,8 milhões de km², aproximadamente 10% maior que o Mediterrâneo atual em área. Mesmo assim, era relativamente raso quando comparado a grandes mares oceânicos.
Megalago Paratethys armazenava mais de 1,8 milhão de km³ de água salobra e criou uma fauna única
O Paratethys não era apenas um lago gigante. Ele era um ecossistema isolado, com águas salobras e espécies que evoluíram separadas dos oceanos.
Durante seu período de maior estabilidade, entre cerca de 11,6 milhões e 9,75 milhões de anos atrás, o megalago desenvolveu uma fauna endêmica. Entre os animais associados a esse ambiente estava o Cetotherium riabinini, uma baleia anã de cerca de 3 metros, considerada uma das menores baleias conhecidas no registro fóssil.

Esse isolamento transformou o Paratethys em um laboratório evolutivo natural. Baleias, golfinhos, focas, moluscos e outros organismos ficaram presos em um sistema fechado, vulnerável a qualquer alteração forte no clima, na salinidade e no nível da água.
Colapso climático fez o maior lago da Terra perder até 70% da superfície
O ponto mais dramático da pesquisa está nas regressões do Mioceno tardio. Entre cerca de 9,75 milhões e 7,65 milhões de anos atrás, o Paratethys passou por ciclos severos de enchimento e ressecamento.
Nos episódios mais extremos, o lago perdeu cerca de um terço do volume de água e até 70% da superfície. Isso significa que uma área gigantesca, antes coberta por água, virou fundo seco exposto à evaporação, ao sal e à erosão.
A queda no nível da água chegou a 250 metros. Em escala geológica, foi uma transformação brutal: o que antes era um ambiente aquático contínuo se fragmentou em bacias menores, com áreas periféricas de água mais doce e uma região central muito mais salina.
Fundo seco de 1,75 milhão de km² criou uma paisagem de sal e extinção na Eurásia
A perda de até 70% da área significa que aproximadamente 1,75 milhão de km² de antigo fundo lacustre ficaram expostos. É uma superfície comparável à soma de grandes territórios nacionais, transformada em uma cicatriz geológica continental.

Essa secagem parcial alterou a química da água e aumentou a salinidade em áreas isoladas. Muitas espécies que haviam evoluído naquele ambiente fechado não resistiram à mudança.
O Paratethys deixou de ser um grande refúgio aquático e passou a funcionar como uma armadilha ambiental. A fauna endêmica, adaptada a condições específicas, enfrentou salinização, perda de habitat e fragmentação do ecossistema.
Cáspio, Mar Negro e Aral são vestígios modernos de um mundo aquático desaparecido
O Paratethys não existe mais, mas seus restos ainda aparecem no mapa atual. O Mar Cáspio, o Mar Negro e o antigo sistema do Mar de Aral são considerados vestígios modernos desse imenso domínio aquático da Eurásia.
A história do megalago ajuda a explicar por que essas regiões ainda carregam características ambientais delicadas. O Mar Negro, por exemplo, possui águas profundas pobres em oxigênio e ricas em sulfeto de hidrogênio, condição que remete a ambientes estratificados e frágeis.
O Cáspio, maior lago atual do planeta, também enfrenta riscos modernos de retração. Por isso, entender o Paratethys não é apenas revisitar uma catástrofe antiga, mas observar como grandes massas de água continentais podem reagir a mudanças climáticas e hidrológicas.
Estudo também ajuda a entender sal, petróleo e antigas bacias fechadas
A reconstrução do Paratethys tem importância além da paleontologia. Ambientes fechados, salobros e sujeitos à evaporação intensa são fundamentais para entender a formação de depósitos de sal e sistemas sedimentares complexos.
Pesquisadores associados ao estudo apontam paralelos entre a história do Paratethys e bacias antigas ligadas à formação de camadas salinas. Esse tipo de ambiente interessa diretamente à geologia do petróleo, inclusive por analogia com sistemas associados ao pré-sal.
No caso brasileiro, a comparação não significa que os ambientes sejam idênticos, mas ajuda cientistas a compreender como lagos, mares isolados, salinidade extrema e soterramento de sedimentos podem criar arquivos geológicos de alto valor científico e econômico.
Maior lago da Terra mostra como mudanças climáticas podem reorganizar continentes inteiros
A grande lição do Paratethys está na escala. Um sistema aquático maior que o Mediterrâneo não desapareceu de uma vez, mas foi desmontado por ciclos de isolamento, evaporação, queda de nível e reconexão.
A pesquisa mostra que crises hidrológicas em grandes bacias fechadas não ficam limitadas à água. Elas podem alterar fauna, sedimentos, salinidade, paisagem, clima regional e até conexões entre ecossistemas separados por milhares de quilômetros.
O maior lago que já existiu na Terra virou um lembrete geológico brutal: quando o clima muda e a água recua, até mares continentais podem virar deserto, sal e fóssil.


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