Em Brasília, alunos do CEUB transformaram a impressão 3D em uma cadeira de rodas 3D para cães e devolveram o movimento ao poodle Bili por R$ 448, 63% menos que o de loja. E não é caso único: estudantes de engenharia de Santa Catarina tocam projetos de baixo custo parecidos.
Um poodle que nasceu sem as patas dianteiras voltou a se mover sozinho graças a uma cadeira de rodas 3D para cães feita por três estudantes em Brasília. O cachorro se chama Bili, e o equipamento que devolveu a ele a liberdade de andar saiu por R$ 448,81, um preço que cabe no bolso e que escancara o poder da impressão 3D quando ela é colocada para resolver um problema real. A história foi divulgada em 10 de setembro de 2025 em reportagem do Correio Braziliense.
O projeto nasceu dentro de uma iniciação científica no Centro Universitário de Brasília, o CEUB, e juntou áreas que quase nunca trabalham lado a lado. As alunas de Medicina Veterinária Beatriz Miranda e Sarah Mazetti cuidaram da parte clínica e das medidas do animal, enquanto o estudante de Engenharia da Computação Arthur Dornfeld tocou o desenho e a parte técnica. A orientação ficou com o professor Carlos Alberto da Cruz Júnior. Foram mais de 50 horas de trabalho até a primeira versão da cadeira sair da impressora e ir parar nas costas de Bili.
Bili nasceu sem as patas dianteiras e ganhou rodas feitas sob medida

O caso de Bili é diferente da maioria. Boa parte dos cães que usam cadeira é de cão paralisado por acidente ou doença, mas o poodle nasceu sem as duas patas dianteiras, o que muda completamente o ponto de apoio do corpo. Uma cadeira de prateleira, pensada para um cachorro que perdeu o movimento das patas traseiras, simplesmente não serviria nele. Era preciso projetar do zero.
-
Idealizada pelo curitibano Marcelo Loureiro, uma telecirurgia robótica entre o Brasil e o Kuwait operou um paciente de hérnia inguinal a 12 mil km e entrou para o Guinness como recorde mundial de distância
-
Cavando para as obras da COP30 em Belém, operários acharam um navio do século XIX, de ferro e cerca de 20 metros, soterrado, ao lado de galerias e cerâmica indígena entre os achados arqueológicos
-
Robôs chineses treinaram duas semanas para remar em um barco dragão no Festival de Sichuan, na China, assumiram o controle total quando os humanos pararam de remar, ainda fizeram bolinhos de arroz em um dos testes mais inusitados já realizados com humanoides
-
Estudantes de escola pública criam em Sergipe um kit de triagem precoce do autismo para comunidades vulneráveis sem médico, no ano em que o Brasil faturou 8 prêmios na maior feira de ciências do mundo
Para acertar o encaixe, os estudantes não usaram só a fita métrica. Além das medidas comuns, como altura, largura do tórax e comprimento do corpo, a dupla de veterinária fez um escaneamento 3D do animal e até um molde de gesso. Esse cuidado garantiu que a estrutura distribuísse o peso sem machucar, um detalhe que separa um equipamento que ajuda de um que vira tortura para o bicho.
No primeiro teste, a cadeira ainda não estava cem por cento ajustada, mas já deu sinais de que o caminho era esse. “Mesmo sem estar totalmente adequada no primeiro teste, deu para ver que ele já demonstrava familiaridade com a cadeira”, contou Sarah Mazetti, uma das criadoras do projeto, ao Correio Braziliense. A partir dali, foi questão de calibrar até o poodle andar com firmeza.
Como a impressão 3D derrubou o preço para R$ 448
O número que faz a história saltar aos olhos é o preço. A cadeira de Bili custou R$ 448,81, enquanto modelos comerciais para a mesma função passam de R$ 1.200. Na conta, são 63% mais barato, ou seja, o animal ganhou mobilidade por pouco mais de um terço do que se pagaria numa loja. Esse abismo de valor é o que torna a impressão 3D uma arma tão poderosa para quem não tem dinheiro sobrando.
O segredo está nos materiais e no método. As partes rígidas da cadeira de rodas 3D para cães foram feitas em PLA, um plástico derivado de fontes renováveis e barato de imprimir. Já as regiões que encostam no corpo do cachorro usaram TPU, um filamento flexível que dá conforto e evita feridas. Como quase tudo sai da própria impressora, o baixo custo não vem de material vagabundo, e sim de cortar o intermediário, o molde industrial e a produção em escala que encarecem o produto de loja.
Esse é o ponto que costuma passar batido. A impressão 3D de baixo custo não significa um equipamento pior, e sim um equipamento personalizado, ajustado ao animal específico, por uma fração do preço. Para uma família que ama o bicho mas não tem mais de mil reais para gastar, a diferença entre R$ 448 e R$ 1.200 é, na prática, a diferença entre o cão andar ou não andar.
Por que fazer um cão voltar a andar é mais do que emoção
É fácil olhar para o vídeo de um cachorro correndo de novo e ver só fofura. Mas a mobilidade tem peso de saúde. Um cão paralisado ou sem apoio nas patas tende a arrastar o corpo, o que gera feridas, infecções urinárias e perda de massa muscular. Devolver o movimento não é luxo nem mimo: é o que mantém o animal saudável e longe de complicações que encurtam a vida dele.
Há também o lado do comportamento. Um cão paralisado que recupera a autonomia volta a interagir, brincar e gastar energia, o que reduz o estresse e a depressão que a imobilidade costuma trazer. Por isso a fala dos estudantes sobre Bili reconhecer a cadeira logo no primeiro teste importa tanto: o bicho não rejeitou o aparelho, ele o adotou como extensão do próprio corpo.
E é justamente aqui que a tecnologia barata encontra a emoção sem cair no choro vazio. O que comove no caso de Bili não é só ele voltar a andar, é ver estudantes de engenharia e de veterinária resolvendo, com R$ 448 e uma impressora, um problema que o mercado cobrava caro para resolver. A emoção vem junto com a construção concreta, e não no lugar dela.
Não é caso único: a onda de estudantes brasileiros resolvendo isso
O mais animador é que Bili não é exceção. Pelo Brasil, vários grupos de estudantes de engenharia e design estão chegando à mesma ideia por conta própria, o que mostra uma onda real e não um caso isolado. Em Santa Catarina, dois projetos chamam a atenção.
No Instituto Federal de Santa Catarina, o IFSC, um cachorro chamado Tiringa virou símbolo dessa virada. O animal ficou sem o movimento das patas traseiras depois de uma aplicação incorreta de vacina que causou fratura e hematoma, segundo o próprio IFSC. A estudante de Engenharia Mecânica Jaqueline Tainara Costa projetou e imprimiu uma cadeira sob medida no LabMais, o Laboratório de Manufatura Aditiva e Inovação em Saúde do câmpus Florianópolis. “Nós nos baseamos em modelos existentes, adaptamos para imprimir e produzir do nosso jeito. Imprimimos em PLA com impressora de filamento, colocamos parafusos e usamos rodas de roletes, que têm um bom rolamento”, explicou Matheus Savi, coordenador do laboratório. O vídeo de Tiringa correndo de novo viralizou e emocionou milhares de pessoas.
Na Universidade Federal de Santa Catarina, a UFSC, o caminho virou produto. O designer Artur Donadel Balthazar criou no trabalho de conclusão de curso o Petwheels, uma cadeira de rodas 3D para cães com barras flexíveis que permitem o movimento lateral do animal sem desestabilizar a coluna, sob orientação da professora Regiane Trevisan Pupo, do laboratório Pronto 3D. Fora os parafusos e as cintas que prendem o bicho, tudo pode sair da impressora, e o projeto chegou a ter o pedido de patente registrado no INPI em fevereiro de 2022, conforme noticiou a própria UFSC. Casos como esses também foram reunidos em reportagem do portal UAI, que mapeou a multiplicação desses projetos pelo país.
O que a impressão 3D de baixo custo muda para os pets no Brasil
Somados, esses projetos apontam para uma mudança maior do que a soma das partes. Quando estudantes de engenharia conseguem entregar uma cadeira de rodas 3D para cães por R$ 448, eles não estão só ajudando um animal, estão provando que a tecnologia de prototipagem rápida já é barata e acessível o suficiente para sair do laboratório e entrar na vida real. A mesma lógica que serve para Bili serve para próteses, órteses e adaptações de todo tipo.
O elo com o Brasil é o que dá força ao caso. Em um país onde levar o pet ao veterinário já pesa no orçamento, uma alternativa de baixo custo que devolve a mobilidade ao animal tem impacto direto no bolso de milhões de famílias. E o fato de a solução vir de dentro de universidades e institutos federais mostra que o conhecimento público está virando coisa concreta, e não ficando preso em artigo acadêmico.
Há ainda um efeito que costuma ser ignorado. Cada cão paralisado que ganha uma cadeira impressa vira uma vitrine viva da técnica, e cada vídeo que viraliza inspira outro grupo de estudantes de engenharia a tentar. É assim que uma ideia boa deixa de ser exceção e vira padrão, com a impressão 3D funcionando como a ponte entre a vontade de ajudar e a capacidade de fazer.
O caso de Bili junta tudo o que costuma ficar separado: a ciência feita na faculdade, a tecnologia barata da impressão 3D, o cuidado com o animal e um preço que de fato cabe no orçamento de uma família comum. Não é mágica nem sorte, é engenharia aplicada a um problema concreto, com resultado que dá para ver no cachorro correndo. E o melhor é que, espalhada por Brasília e por Santa Catarina, a mesma ideia já está virando movimento.
E você, pagaria R$ 448 numa cadeira de rodas 3D para cães feita sob medida para o seu pet, ou ainda confia mais no produto caro de loja? Conta aqui nos comentários o que você faria pelo seu animal.

Seja o primeiro a reagir!