Bolha com 2 mil toneladas de CO2 vira bateria gigante na Itália, atrai o Google e coloca a Sardenha no centro da nova corrida por armazenamento de energia.
Na região de Ottana, na Sardenha, uma enorme cúpula inflável branca passou a representar uma das apostas mais incomuns da transição energética. Em vez de usar células químicas, a estrutura guarda dióxido de carbono e o transforma no elemento central de um sistema criado para armazenar eletricidade e devolvê-la à rede quando a geração renovável perde força. O projeto foi desenvolvido pela italiana Energy Dome e ganhou projeção internacional depois que o Google anunciou, em 25 de julho de 2025, uma parceria de longo prazo e um investimento na empresa.
O objetivo declarado é apoiar projetos comerciais de armazenamento de longa duração em mercados onde a companhia já opera e precisa ampliar o uso de energia livre de carbono.
Armazenamento de energia limpa virou o grande gargalo da transição energética
A expansão da energia solar e da energia eólica trouxe um desafio que o setor elétrico ainda tenta resolver em escala.
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A geração sobe quando há sol e vento, mas a demanda cresce em horários que nem sempre coincidem com essa oferta, especialmente no fim da tarde, à noite e em janelas de baixa produção renovável.

Foi nesse ponto que a bateria de CO2 entrou no radar do Google. No anúncio oficial da parceria, a empresa afirmou que a tecnologia da Energy Dome pode armazenar excedentes de energia limpa e devolvê-los à rede por 8 a 24 horas, cobrindo uma faixa acima do armazenamento curto mais comum hoje.
Na prática, isso coloca a solução em um segmento visto como estratégico para redes elétricas e grandes consumidores de energia. O foco não é apenas guardar eletricidade por algumas horas, mas manter fornecimento mais estável quando a produção renovável já caiu e a demanda continua alta.
Como a bateria de CO2 da Energy Dome transforma gás em eletricidade
O funcionamento do sistema é baseado em um ciclo termodinâmico. Quando há excesso de energia na rede, a eletricidade é usada para comprimir o CO2, resfriá-lo e convertê-lo em líquido, armazenando energia nesse processo.
Quando a rede volta a precisar de potência, o caminho é invertido. O CO2 líquido é aquecido, retorna ao estado gasoso sob pressão e passa por uma turbina, que então gera eletricidade para devolução ao sistema.
Na usina de Ottana, esse ciclo foi dimensionado para entregar 20 MW de potência e 200 MWh de energia, o equivalente a 10 horas de descarga contínua. A instalação é a primeira unidade full scale da empresa e virou a principal vitrine comercial da tecnologia.
Sistema fechado mantém o CO2 dentro da usina e reduz a pressão sobre minerais críticos
Um dos pontos centrais da tecnologia é que o dióxido de carbono não é liberado continuamente na atmosfera durante a operação normal.
A IEEE Spectrum informou que o gás usado na instalação veio de um fornecedor e permanece dentro de um sistema fechado, alternando entre estado líquido e gasoso para cumprir a função de armazenamento energético.
Esse detalhe muda o papel do CO2 dentro do projeto. A usina não foi apresentada como sistema de captura de carbono, mas como uma solução de armazenamento elétrico que usa o gás como fluido de trabalho, convertendo um símbolo clássico da crise climática em componente operacional de uma infraestrutura de energia limpa.

Outro argumento forte da Energy Dome é a menor dependência de matérias-primas críticas. Segundo o Google, a tecnologia evita o uso de minerais escassos como parte central do armazenamento e pode ajudar a ampliar a flexibilidade da rede sem repetir parte da pressão que hoje recai sobre cadeias globais ligadas a baterias convencionais.
Google acelera a visibilidade global da bateria de longa duração
O anúncio do Google mudou o peso comercial e político do projeto italiano. A empresa informou que sua parceria com a Energy Dome é seu primeiro acordo comercial para armazenamento de longa duração e que servirá para apoiar múltiplos projetos globais com essa tecnologia.
Esse movimento é relevante porque liga a bateria de CO2 a uma demanda concreta de grandes consumidores de eletricidade, como data centers e operações digitais que precisam de energia limpa com mais regularidade ao longo do dia e da noite.
A busca por fornecimento livre de carbono 24 horas por dia, 7 dias por semana é um dos eixos centrais da estratégia energética do Google.
A expansão comercial também já começou a sair do papel. A IEEE Spectrum relatou que projetos derivados da planta da Sardenha avançaram em mercados como Índia e Estados Unidos, mostrando que a proposta da Energy Dome já entrou em uma fase de replicação internacional e não ficou restrita ao projeto italiano.
Ottana virou a principal prova de que a tecnologia pode sair do piloto e entrar no mercado
A unidade da Sardenha ajudou a tirar a bateria de CO2 do campo experimental e levá-la para a etapa comercial.
Em 19 de dezembro de 2024, a Energy Dome anunciou com a ENGIE um acordo de offtake para a planta de 20 MW/200 MWh em Ottana, consolidando a instalação como ativo de mercado e não apenas como demonstração técnica.
No comunicado oficial, a empresa afirmou que a usina foi projetada para fornecer eletricidade ao equivalente a cerca de 14 mil residências durante um período contínuo de 10 horas. Esse dado reforçou a posição da planta como uma das referências mais concretas do armazenamento de longa duração com CO2 em escala de rede.
A IEEE Spectrum também informou que a cúpula abriga 2 mil toneladas de CO2 e que a usina entrou em operação em julho de 2025. Com isso, Ottana passou a concentrar quase todos os elementos que o setor busca observar antes de apostar em uma nova tecnologia: escala, operação real, contrato comercial e interesse de grandes compradores de energia.
Vantagens e pontos de atenção da nova bateria de CO2
A principal força da tecnologia está na combinação entre armazenamento de longa duração, uso de equipamentos industriais conhecidos e menor dependência de minerais críticos.
Esse pacote ajuda a explicar por que a Energy Dome saiu do nicho das soluções experimentais e passou a ser observada por utilities, investidores e gigantes de tecnologia.

Ao mesmo tempo, a expansão global ainda precisa ser confirmada na prática em diferentes mercados. Projetos de armazenamento em escala dependem de licenciamento, integração à rede, cronogramas de construção, financiamento e desempenho comercial consistente depois da entrada em operação.

