Da lavoura de café ao barracão moderno de compostagem, casal transforma trabalho duro, fé e manejo técnico em uma produção leiteira eficiente, sustentável e lucrativa, mostrando que riqueza no campo vai além do dinheiro
No interior, longe de promessas fáceis e discursos motivacionais vazios, a história de Renato e Tatiana é construída com trabalho diário, decisões difíceis e uma relação direta com a terra. Eles nunca disseram que não tinham nada. Tinham algo essencial: força de vontade. Foi com essa base que o casal saiu da lavoura de café, entrou na produção de leite em 2008 e, ao longo dos anos, construiu um patrimônio que hoje os faz afirmar, sem exagero: “nós é rico”.
A informação foi divulgada pelo canal do Daniel, que acompanhou de perto a rotina da família, registrando cada detalhe da propriedade, da alimentação do rebanho à ordenha, do manejo da cama de compostagem ao envolvimento dos filhos no dia a dia da fazenda. Mais do que números, o que se vê é um modelo real de crescimento no campo brasileiro.
Inicialmente, Renato trabalhava em lavouras de café e sempre viveu na região de Tobati. A mudança definitiva para a roça veio quando surgiu a oportunidade de tirar leite em um retiro próximo. Foram seis meses trabalhando para terceiros até que apareceu a chance de comprar as primeiras vacas, marco que deu início à trajetória na pecuária leiteira. Desde então, o leite passou a ser a principal fonte de renda da família.
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Durante quatro anos, eles viveram de aluguel. Somente em 2012 conseguiram construir a própria casa, inteiramente com recursos gerados pela atividade leiteira. Nada veio pronto. Tudo foi fruto da produção, da venda do leite e de uma rotina intensa de trabalho, muitas vezes conciliada com filhos pequenos e poucas garantias de estabilidade.
Da lavoura ao leite: como começou a virada no campo

A entrada definitiva na produção de leite aconteceu em 2008. Na época, o casal tinha apenas uma filha pequena, Renata. Pouco depois nasceu Davi, que hoje já participa ativamente das tarefas da fazenda. Esse envolvimento familiar é um dos pilares do crescimento do negócio, criando não apenas renda, mas continuidade.
Ao longo dos anos, Renato e Tatiana entenderam que crescer no leite exige mais do que quantidade de vacas. Exige manejo, alimentação correta, conforto animal e, principalmente, decisões técnicas bem embasadas. Por isso, cada etapa da produção foi pensada com cuidado, desde a dieta até a estrutura do barracão.
Atualmente, a propriedade trabalha com cerca de 50 vacas em lactação, produzindo em média 1.500 litros de leite por dia. A relação de eficiência é clara: aproximadamente 3 litros de leite para cada quilo de ração, um índice considerado bom dentro da pecuária leiteira.
Esse resultado não veio por acaso. Ele é consequência direta de ajustes finos na alimentação, no ambiente e no manejo diário do rebanho, sempre com acompanhamento técnico e observação constante do comportamento dos animais.
Alimentação, manejo e números que explicam o resultado
A base da dieta das vacas é composta por milho, complementada com ração de 24% de proteína, caroço de algodão e casquinha de soja, que entra como fibra e volumoso. O primeiro lote consome cerca de 8 kg de ração por dia, enquanto outro chega a 11 kg, resultando em uma média aproximada de 10 kg de ração por vaca diariamente.
Com esse manejo, o consumo diário chega a cerca de 500 kg de ração para 50 vacas. Além disso, cada animal recebe aproximadamente 2 kg de casquinha de soja peletizada por dia, o que melhora a digestibilidade da dieta e o aproveitamento dos nutrientes.
Outro ponto técnico importante é a adição de água na dieta. Para melhorar a palatabilidade e reduzir a matéria seca do trato, Renato adiciona cerca de 2 litros de água por vaca em cada vagão, totalizando aproximadamente 100 litros por trato. Ao longo do dia, isso representa uma média de 8 litros de água incorporados à alimentação.
Segundo ele, após adotar essa prática, a produção aumentou entre 1 e 2 litros de leite por vaca, um ganho significativo quando se considera o volume total diário. Água é barata, como ele mesmo diz, e o retorno aparece rapidamente na produção.
A rotina de trato é dividida ao longo do dia. São dois vagões logo cedo, antes da ordenha, mais um no meio do dia e outro no fim da tarde para garantir alimento durante a noite. Em dias de saída da propriedade, o ajuste é feito com três tratos pela manhã e um à tarde, sempre mantendo a regularidade.
Conforto animal, barracão e produção sustentável

Além da alimentação, o conforto das vacas é tratado como prioridade. A propriedade utiliza um barracão com cama de compostagem, que passa por viradas duas vezes ao dia. Em períodos de muita umidade, esse processo chega a ser feito três vezes diariamente.
A cama atinge temperaturas próximas de 70 °C, fundamentais para a compostagem correta e a eliminação de bactérias. Ao revirar o material, o que está na superfície vai para o fundo e vice-versa, mantendo a cama seca, fofa e adequada para o descanso dos animais.
Ventiladores desempenham papel crucial nesse sistema. Além de refrescar as vacas, eles ajudam a reduzir a umidade, fator essencial para manter a sanidade do ambiente. Uma cama úmida favorece bactérias e prejudica tanto o conforto quanto a saúde do rebanho.
Na sala de espera da ordenha, a combinação de aspersão de água e ventilação ajuda a reduzir o estresse térmico. Vacas de alta produção geram muito calor, e o resfriamento adequado favorece a liberação natural de ocitocina, hormônio responsável pela descida do leite. Estima-se que cerca de 80% do leite já esteja formado no úbere, enquanto o restante é finalizado durante a ordenha, desde que o animal esteja confortável.
Riqueza no campo: dinheiro, estrutura e continuidade
Quando Renato afirma que hoje se considera rico, ele não fala apenas de dinheiro. Fala de estrutura, segurança, investimentos feitos com o próprio trabalho e da possibilidade de continuar crescendo. Há projetos, ideias e planos em andamento, todos guiados pela mesma lógica: fazer com que a fazenda funcione bem antes de ampliar.
A recria de animais, por exemplo, já gera renda extra. Caso toda a recria fosse mantida, o espaço atual não comportaria o gado, o que exigiria novas estruturas ou pastejo adicional. Por isso, cada passo é calculado, respeitando o ritmo da propriedade.
Os filhos acompanham de perto a rotina. Davi, ainda jovem, já ajuda na ordenha e no manejo, sempre de forma espontânea, sem imposição. A família acredita que o exemplo diário é o maior incentivo, deixando que o futuro profissional dos filhos seja uma escolha natural.
Assim, a história dessa família mostra que riqueza no campo não nasce de atalhos, mas de constância, fé, conhecimento técnico e decisões bem executadas. Um modelo real, possível e profundamente conectado à realidade da pecuária leiteira brasileira.
Fonte: Daniel de Andrade e Pecuária leiteira familiar


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