Área usada para descarte irregular em Ikota foi convertida em um pequeno equipamento urbano com brinquedos, arborização e reaproveitamento de resíduos, em uma região de Lagos pressionada por calor, alagamentos e falta de espaços verdes
Um terreno usado como ponto de descarte de lixo em Ikota, na região de Lagos, foi transformado em um parque infantil construído com pneus reciclados, madeira reaproveitada e metal recuperado. O espaço foi aberto em 1º de março de 2025 e recebeu apoio financeiro após vencer uma etapa regional do The Earth Prize.
O projeto foi criado pela organização Preserve Our Roots e liderado por Amara Nwuneli, jovem nigeriana de 17 anos. Mas o caso ganhou relevância para além da trajetória pessoal dela porque reúne três temas urbanos em um mesmo espaço: resíduos sólidos, falta de áreas verdes e risco de enchentes.
Segundo o Business Insider, a iniciativa recebeu US$ 12,5 mil e prevê a construção de mais três parques comunitários na Nigéria. A proposta inclui jardins, estufas e pontos de coleta de resíduos, o que aproxima o projeto de uma pequena estrutura de economia circular e infraestrutura verde.
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Pneus abandonados deixam de ser resíduo e viram estrutura de brincadeira em área urbana vulnerável

O terreno de Ikota era usado para descarte irregular antes da intervenção. Em vez de comprar brinquedos prontos ou importar estruturas caras, a equipe trabalhou com artesãos locais para reaproveitar materiais disponíveis na própria região.
Pneus usados foram incorporados ao espaço infantil. Madeira e metal recuperados entraram na construção de balanços, escorregador e uma parede de escalada. A escolha reduziu custos e retirou resíduos de circulação em uma área onde o descarte desordenado já fazia parte da paisagem.
Esse detalhe é central para a leitura do projeto. Pneus abandonados podem acumular água, atrair mosquitos e ocupar áreas públicas sem destinação adequada. Quando reaproveitados com instalação segura e manutenção, passam a fazer parte de um equipamento comunitário.
O parque não resolve sozinho o problema do lixo em Lagos. Ainda assim, mostra uma aplicação prática para materiais que normalmente seriam descartados, com uso direto pela população local.
Árvores resistentes a alagamentos entraram no projeto para reduzir calor e melhorar drenagem
Além dos brinquedos, a Preserve Our Roots plantou árvores resistentes a enchentes no entorno do parque. A ação fez parte de uma mobilização mais ampla que, segundo informações divulgadas pelo projeto, chegou a 300 árvores plantadas na região.
A escolha tem relação com a realidade de Ikota. A área é vulnerável a alagamentos, e muitas casas próximas ficam sobre estruturas elevadas por causa da presença frequente de água. Nesse contexto, vegetação urbana não é apenas paisagismo.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos aponta que árvores e vegetação ajudam a reduzir a temperatura do solo e do ar por sombra e evapotranspiração. O órgão também informa que áreas arborizadas contribuem para absorver parte da água da chuva e reduzir o escoamento superficial.
Em bairros com pouco verde, o chão pavimentado absorve mais calor e a drenagem fica pressionada durante chuvas fortes. Por isso, mesmo um parque pequeno pode funcionar como uma peça local de adaptação urbana.
Lagos tem apenas cerca de 3% de área verde e enfrenta pressão crescente por drenagem
Lagos está entre as maiores áreas urbanas da África e convive com expansão rápida, alta densidade populacional e forte disputa por terra. O The Earth Prize citou que as áreas verdes representam cerca de 3% da área total da cidade, proporção baixa para uma metrópole exposta a calor e chuvas intensas.
Esse dado ajuda a explicar por que um projeto pequeno ganhou visibilidade. Em regiões com pouca sombra, poucos espaços públicos e descarte irregular, a conversão de um terreno abandonado pode alterar a rotina de crianças e moradores do entorno.
Uma revisão publicada em 2025 na revista Frontiers in Climate aponta que as enchentes em Lagos são agravadas por urbanização rápida, drenagem deficiente e mudanças climáticas. O impacto recai com mais força sobre comunidades vulneráveis, onde a infraestrutura urbana costuma chegar mais tarde.
O Banco Mundial também trata a infraestrutura verde como ferramenta complementar na gestão de enchentes urbanas. A instituição cita soluções como áreas vegetadas, pavimentos permeáveis, zonas úmidas e jardins de chuva como recursos que ajudam a lidar com água da chuva junto de obras tradicionais.
Prêmio de US$ 12,5 mil deve financiar novos parques com coleta de resíduos e hortas comunitárias

O The Earth Prize reconheceu o projeto como vencedor regional da África em 2025. A premiação é voltada a adolescentes de 13 a 19 anos que desenvolvem soluções ambientais com aplicação prática em suas comunidades.
No caso de Ikota, o prêmio de US$ 12,5 mil será usado para ampliar a proposta. A próxima etapa prevê três novos parques comunitários, com jardins, estufas e pontos de coleta de resíduos.
A ideia muda o parque de uma área apenas recreativa para um espaço multifuncional. Além de receber crianças, esses locais podem organizar descarte, estimular plantio e criar pontos de sombra em bairros com pouca estrutura pública.
Uma das metas mais ambiciosas é converter um grande aterro em Lagos, dependendo de aprovação governamental. Outros dois projetos miram os estados de Ogun e Oyo, também afetados por eventos climáticos extremos, como enchentes e secas.
Projeto mostra limite e potencial da reciclagem urbana em comunidades sem grandes obras públicas
O caso de Ikota não substitui políticas públicas de saneamento, drenagem, coleta de lixo e planejamento urbano. A própria expansão do projeto depende de licenças, manutenção, segurança dos brinquedos e continuidade das parcerias locais.
Mesmo com essas limitações, a experiência mostra como resíduos urbanos podem ser reaproveitados em obras comunitárias de baixo custo. Pneus, madeira e metal deixaram de ocupar um terreno usado como lixão e passaram a formar um espaço de uso coletivo.
A força do projeto está no efeito combinado. Ele reduz descarte visível, cria sombra, abre área de convivência e introduz educação ambiental em uma região vulnerável a alagamentos.
Para cidades que lidam com calor, lixo acumulado e falta de áreas verdes, o exemplo de Lagos mostra uma alternativa de pequena escala. Não é uma solução definitiva, mas pode servir como modelo inicial para bairros onde grandes obras ainda não chegaram.
Você acha que terrenos abandonados poderiam virar áreas verdes com materiais reaproveitados também no Brasil? Deixe seu comentário e conte se existe algum espaço assim perto da sua casa.
