Especialistas alertam que a redução da vacinação infantil nos EUA pode ampliar o risco epidemiológico e favorecer doenças infecciosas.
Nos últimos dias, uma decisão tomada nos Estados Unidos reacendeu o debate global sobre vacinação infantil, saúde pública e risco epidemiológico.
O governo norte-americano anunciou a retirada de seis vacinas do calendário vacinal recomendado para crianças.
A medida, divulgada nesta semana, preocupa médicos e especialistas, inclusive no Brasil, por ampliar a circulação de doenças infecciosas em um mundo cada vez mais conectado.
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Quem faz o alerta é a pediatra Andréa Jácomo, professora de medicina no Centro Universitário de Brasília.
Em entrevista ao programa CB.Saúde, parceria entre Correio e TV Brasília, ela destacou que decisões locais podem ter efeitos globais.
“Os vírus e as doenças andam de avião”, afirmou a médica, ao explicar por que o tema ultrapassa fronteiras nacionais.
A mudança anunciada pelos EUA envolve vacinas contra hepatites A e B, gripe, meningococo, vírus sincicial respiratório e rotavírus.
Segundo especialistas, o impacto pode ser imediato, principalmente em países com grande fluxo de pessoas, como o Brasil.
Vacinação infantil e a mudança no calendário vacinal dos EUA
A decisão partiu do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), órgão responsável pelas diretrizes de saúde pública nos Estados Unidos.
Na prática, isso transfere a responsabilidade para os pais. Além disso, nos EUA não existe um sistema público universal como o SUS brasileiro.
Portanto, muitas famílias terão de pagar pelas vacinas, que têm alto custo, o que pode reduzir ainda mais a adesão à imunização infantil.
Saúde pública sob pressão e ausência de evidências científicas
Um dos pontos mais críticos, segundo Andréa Jácomo, é a falta de embasamento científico para a retirada das vacinas. “Desta vez, não há estudos que justifiquem a retirada”, afirmou.
Historicamente, a saúde pública global avançou com estratégias amplas de vacinação.
Um exemplo citado pela especialista é a erradicação da poliomielite, iniciada na década de 1980 com as famosas “gotinhas”, vacina oral com vírus atenuado. Esse modelo salvou milhões de vidas ao redor do mundo.
Doenças infecciosas: impactos já comprovados da vacinação
Entre as vacinas retiradas, a contra hepatite B é considerada uma das mais sensíveis.
A doença pode ser transmitida da mãe para o bebê ainda no parto.
Após a introdução da vacina, houve uma redução de 89% nos casos em apenas um ano, um resultado que nenhuma medicação isolada consegue alcançar.
Outro exemplo é a imunização contra bronquiolite, causada pelo vírus sincicial respiratório.
Rotavírus e os custos evitáveis para os sistemas de saúde
A retirada da vacina contra o rotavírus também preocupa.
Mesmo sendo um país rico, essas hospitalizações geram custos elevados.
No Brasil, a experiência foi positiva.
Em 2006, a introdução da vacina no sistema público reduziu de forma expressiva as internações e mortes por diarreia infantil, reforçando a importância da vacinação infantil como política de saúde pública.
Meningite, sarampo e o risco epidemiológico global
A vacina meningocócica também está no centro do debate.
O Brasil tem registrado aumento de casos, inclusive no Distrito Federal.
Em 2025, o país contabilizou mais de nove mil casos de meningite e mais de mil mortes.
“O cenário mudou completamente após a vacina ser incorporada em 2010”, lembrou Andréa Jácomo. Ainda assim, ela alerta que copiar modelos estrangeiros pode ser perigoso.
Nos EUA, por exemplo, o sarampo voltou a preocupar, com mais de dois mil casos e três mortes na última temporada.
No Brasil, surtos anteriores mostraram que a queda na cobertura vacinal tem efeitos diretos. Em 2018, a região Norte registrou mais de nove mil casos e 12 mortes, principalmente entre crianças não vacinadas.
Alerta das entidades médicas e a necessidade de vigilância
Assim, a decisão dos EUA foi classificada como perigosa e desnecessária pela American Academy of Pediatrics. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Imunização também manifestaram preocupação.
Segundo especialistas, o risco epidemiológico aumenta à medida que a circulação de pessoas se intensifica.
Em um mundo globalizado, a mensagem é clara: proteger a vacinação infantil é proteger a saúde pública de todos.

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