Satélites revelam que a Terra perdeu 28 trilhões de toneladas de gelo desde 1994 e ritmo de degelo global já supera 1,2 trilhão de toneladas por ano
A medição só poderia ser feita a partir do espaço. O gelo que a Terra está perdendo não está concentrado em um único lugar, mas espalhado por regiões extremamente remotas e de difícil acesso humano. Parte desse gelo está no Ártico, outra parte na Antártida, além de centenas de milhares de geleiras de montanha distribuídas por praticamente todos os continentes. Essas formações incluem aproximadamente 215 mil geleiras catalogadas, além das gigantescas plataformas de gelo que flutuam ao redor da Antártida e enormes massas congeladas que recobrem a Groenlândia.
Monitorar todas essas regiões com medições diretas em campo seria impossível de forma contínua. Por isso, cientistas recorreram à observação orbital. Em janeiro de 2021, uma equipe internacional formada por pesquisadores da Universidade de Leeds, Universidade de Edinburgh e University College London (UCL) publicou na revista científica The Cryosphere a primeira avaliação global da perda de gelo baseada exclusivamente em dados de satélite.
O estudo utilizou três décadas de observações obtidas por diferentes missões orbitais especializadas em monitoramento climático e criosfera. O resultado surpreendeu até os próprios autores.
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O número registrado pelos satélites: 28 trilhões de toneladas de gelo desaparecidas
Entre 1994 e 2017, o planeta perdeu aproximadamente 28 trilhões de toneladas de gelo. O pesquisador Thomas Slater, autor principal do estudo e cientista do Centro de Observação e Modelagem Polar da Universidade de Leeds, tentou traduzir esse número gigantesco em uma escala compreensível.
Segundo ele, essa quantidade de gelo seria suficiente para cobrir toda a superfície do Reino Unido com uma camada de gelo de aproximadamente 100 metros de espessura.
Nas palavras do próprio Slater:
“É simplesmente assombroso.”
A análise dividiu a perda total de gelo em seis grandes categorias da criosfera terrestre:
- Gelo marinho do Ártico: 7,6 trilhões de toneladas
- Plataformas de gelo da Antártida: 6,5 trilhões de toneladas
- Geleiras de montanha: 6,1 trilhões de toneladas
- Calota de gelo da Groenlândia: 3,8 trilhões de toneladas
- Calota de gelo da Antártida: 2,5 trilhões de toneladas
- Gelo marinho do Oceano Austral: 0,9 trilhão de toneladas
Todas as categorias apresentaram perda líquida de massa. Nenhuma delas apresentou estabilidade ou crescimento.
A aceleração do degelo global observada nas últimas décadas
Embora o volume total de gelo perdido seja impressionante, o dado mais preocupante identificado pelos pesquisadores é a aceleração da taxa de perda.
Durante a década de 1990, o planeta perdia cerca de 0,8 trilhão de toneladas de gelo por ano. Em 2017, esse número já havia aumentado para aproximadamente 1,2 trilhão de toneladas por ano.
Isso representa um aumento de 57% no ritmo de perda em menos de três décadas.
Mais importante ainda: a trajetória observada nos dados de satélite não indica qualquer sinal de desaceleração.
Novo estudo mostra aceleração extrema do derretimento das geleiras de montanha
Um estudo posterior, publicado na revista científica Nature em fevereiro de 2025, analisou especificamente as geleiras de montanha, excluindo as grandes calotas polares da Groenlândia e da Antártida.
Essas geleiras menores são extremamente importantes porque abastecem rios e reservatórios naturais de água doce em diversas regiões do planeta.
Os dados mostraram uma aceleração ainda mais intensa. Entre 2000 e 2011, as geleiras de montanha perderam cerca de 255 bilhões de toneladas de gelo por ano. Na década seguinte, esse ritmo aumentou para 346 bilhões de toneladas anuais.
Em 2023, o último ano analisado no estudo, ocorreu o maior degelo anual já registrado: 604 bilhões de toneladas de gelo desapareceram em apenas um ano.
Esse valor representa o recorde histórico de perda anual de massa glacial desde o início das medições modernas.
O papel do albedo: por que o desaparecimento do gelo acelera o aquecimento global
Quando o gelo desaparece, o problema não se limita ao aumento do nível do mar. Existe um mecanismo físico extremamente importante envolvido nesse processo chamado albedo.
O albedo mede a capacidade de uma superfície refletir radiação solar de volta para o espaço. A neve fresca reflete entre 80% e 90% da luz solar que recebe. Já o oceano escuro, exposto após o derretimento do gelo, absorve mais de 90% da radiação solar incidente.
Isso significa que cada metro quadrado de gelo perdido é substituído por uma superfície que absorve calor em vez de refletir energia para o espaço. Esse processo é conhecido como retroalimentação gelo-albedo. Ele funciona como um mecanismo de amplificação climática:
- Mais calor provoca mais degelo.
- Mais degelo expõe mais água escura.
- Mais água escura absorve mais calor.
- Mais calor acelera ainda mais o degelo.
O ciclo se reforça continuamente.
Degelo marinho não eleva diretamente o nível do mar — mas amplifica o aquecimento
Nem todo gelo perdido contribui da mesma forma para a elevação do nível dos oceanos. O gelo marinho, que já flutua na água, não aumenta diretamente o volume do oceano quando derrete.
O fenômeno pode ser comparado ao gelo em um copo de bebida: quando ele derrete, o nível do líquido permanece praticamente o mesmo. No entanto, a perda de gelo marinho continua sendo extremamente grave por causa do impacto no albedo e nos ecossistemas polares.
Gelo continental é o principal responsável pela elevação do nível dos oceanos
O gelo que realmente contribui para o aumento do nível do mar é o que está armazenado em terra firme.
Isso inclui:
- a calota de gelo da Groenlândia
- a calota da Antártida
- as geleiras de montanha
Entre 1994 e 2017, a perda desse gelo terrestre provocou uma elevação média global do nível dos oceanos de aproximadamente 35 milímetros. Embora pareça um número pequeno, o processo está acelerando rapidamente.

Modelos climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que até 2100 o nível do mar poderá subir:
- 0,3 metro no cenário mais otimista
- até 2 metros em cenários de emissões elevadas e colapso acelerado das calotas polares
A diferença entre esses dois cenários representa a diferença entre adaptação costeira e abandono de grandes regiões urbanas.
Impacto humano: bilhões de pessoas vivem em áreas vulneráveis
Estudos publicados na revista Nature Communications indicam que aproximadamente 1 bilhão de pessoas vivem atualmente em áreas com menos de 10 metros de altitude acima do nível do mar.
Segundo estimativas do IPCC, cada centímetro adicional de elevação do nível do mar coloca cerca de 1 milhão de pessoas em risco de deslocamento.
Isso significa que mesmo mudanças aparentemente pequenas no nível médio dos oceanos podem ter consequências massivas para populações costeiras.
O papel crítico das geleiras de montanha no abastecimento de água doce
Grande parte das geleiras que estão desaparecendo não se encontra nas regiões polares. Elas estão distribuídas em cadeias montanhosas como:
- Andes
- Alpes
- Himalaia
- Montanhas Rochosas
- Cáucaso
Essas geleiras funcionam como reservatórios naturais de água doce. Durante o verão, quando as chuvas são escassas, o degelo gradual dessas massas de gelo mantém o fluxo de rios essenciais para agricultura, abastecimento urbano e geração de energia hidrelétrica.
Esse processo é conhecido como pico hídrico glacial. Enquanto a geleira existe, o degelo fornece água. Quando a geleira desaparece completamente, o fluxo adicional de água desaparece junto.
Regiões onde o degelo está ocorrendo mais rapidamente
O estudo publicado na Nature identificou algumas regiões onde o degelo está ocorrendo em ritmo particularmente acelerado. As geleiras do Alasca perderam cerca de 67 bilhões de toneladas de gelo por ano nas últimas duas décadas.
Na Europa Central, as geleiras já perderam aproximadamente 39% do volume total desde o ano 2000. Os Alpes europeus têm sido especialmente afetados, com recordes consecutivos de temperatura no verão desde 2018.
Cientistas alertam que modelos climáticos podem estar subestimando o degelo
Pesquisadores envolvidos no estudo da Universidade de Leeds afirmam que as grandes calotas de gelo da Groenlândia e da Antártida estão seguindo trajetórias próximas aos cenários mais extremos projetados pelo IPCC.
Isso sugere que alguns modelos climáticos podem estar subestimando a velocidade real do degelo. Uma preocupação particular envolve a Antártida Ocidental. Segundo o glaciologista Eric Rignot, o aquecimento dos oceanos está erodindo as plataformas de gelo por baixo.
Esse processo foi descrito por ele de forma direta:
“É como cortar os pés da geleira em vez de derreter o corpo inteiro.”
Quando a base é enfraquecida, a estrutura inteira pode colapsar muito mais rapidamente do que os modelos originais previam.
Recorde histórico de perda de gelo registrado em 2023
O estudo global publicado em 2025 reuniu dados coletados por cerca de 60 pesquisadores em diversos países e analisou aproximadamente 275 mil geleiras catalogadas no planeta. O dado final chamou a atenção da comunidade científica.
Em 2023, as geleiras de montanha perderam 604 bilhões de toneladas de gelo. Foi o maior valor anual já registrado.
O glaciologista William Colgan, do Serviço Geológico da Dinamarca e Groenlândia, resumiu o estado atual do conhecimento científico de forma direta:
“As geleiras estão recuando exatamente como previmos. O que surpreende é a velocidade com que isso está acontecendo.”
O gelo responde apenas à temperatura — não a acordos climáticos
Ao contrário de políticas públicas ou acordos internacionais, o gelo não responde a decisões políticas. Ele responde apenas às condições físicas do ambiente. Desde 1980, as temperaturas médias globais têm aumentado aproximadamente:
- 0,26°C por década na atmosfera
- 0,12°C por década nos oceanos
Enquanto essas temperaturas continuarem subindo, o degelo continuará. E os satélites continuarão registrando os números.
Os dados mostram que a criosfera da Terra já está mudando e o ritmo dessas mudanças continua acelerando.


One thing which is never mentioned is that most natural cycles seem to work in exponentials unless some constraint is put in place. The world is now entering a more extreme phase of temperature rise which has been going on for many thousands of years. It is being accelerated even more by anthropogenic warming.