1. Início
  2. / Agronegócio
  3. / Satélites da NASA flagraram o impossível no deserto de Thar, na Índia, areia escaldante virando mancha verde de lavouras, mas o mesmo milagre que alimenta milhões já cobre 50 mil hectares de sal e ameaça afundar a terra que acabou de florescer
Tempo de leitura 7 min de leitura Comentários 0 comentários

Satélites da NASA flagraram o impossível no deserto de Thar, na Índia, areia escaldante virando mancha verde de lavouras, mas o mesmo milagre que alimenta milhões já cobre 50 mil hectares de sal e ameaça afundar a terra que acabou de florescer

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 21/05/2026 às 23:31
Atualizado em 21/05/2026 às 23:33
Assista o vídeoSatélites flagraram o deserto de Thar, na Índia, virando lavoura verde, mas a irrigação já salinizou milhares de hectares e ameaça a terra que acabou de florescer.
Satélites flagraram o deserto de Thar, na Índia, virando lavoura verde, mas a irrigação já salinizou milhares de hectares e ameaça a terra que acabou de florescer.
  • Reação
  • Reação
4 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Satélites flagraram uma mudança improvável no deserto de Thar, na Índia: areia escaldante virando mancha verde de lavouras de trigo, algodão e mostarda. Mas o mesmo esforço de irrigação que alimenta milhões de pessoas já provocou salinização e alagamento de dezenas de milhares de hectares, ameaçando degradar a terra que acabou de florescer no maior deserto do país.

Imagens de satélite captadas ao longo das últimas décadas registraram uma transformação que parecia impossível no deserto de Thar, no noroeste da Índia: vastas áreas de areia, onde a temperatura passa dos 50 graus Celsius e a evaporação supera em muitas vezes a chuva, foram gradualmente sendo cobertas por vegetação verde e lavouras produtivas. O fenômeno é resultado de meio século de esforço humano, que combinou técnicas ancestrais de captação de água com megaobras de engenharia, especialmente o Canal Indira Gandhi, transformando parte do deserto em terras de trigo, algodão, feijão-mungo e mostarda.

Mas o mesmo milagre que alimenta milhões de pessoas tem um lado sombrio. O excesso de irrigação no deserto de Thar provocou a elevação do lençol freático e o acúmulo de sais na superfície do solo, num processo chamado salinização, que já degradou dezenas de milhares de hectares de terras agrícolas. O resultado é um paradoxo: a mesma água que fez a areia florescer agora ameaça inviabilizar o cultivo em áreas inteiras, num alerta sobre os limites de forçar a natureza a mudar rápido demais.

Como os satélites flagraram o deserto de Thar ficando verde

Satélites flagraram o deserto de Thar, na Índia, virando lavoura verde, mas a irrigação já salinizou milhares de hectares e ameaça a terra que acabou de florescer.
Imagens de satélite

O deserto de Thar, também chamado de Grande Deserto Indiano, cobre cerca de 320 mil quilômetros quadrados, o equivalente a aproximadamente 10% do território da Índia, e abriga uma das maiores densidades populacionais entre os desertos do mundo, com dezenas de milhões de habitantes. Por décadas, ele foi visto como um ambiente quase impossível para a agricultura, marcado por calor extremo, solos arenosos e chuvas escassas concentradas em poucas semanas de monção.

A mudança começou a aparecer nas imagens de satélite a partir dos anos 1980, quando grandes projetos de irrigação passaram a levar água para o coração do deserto. Estudos que analisaram a produtividade primária da vegetação entre 1982 e 2012 confirmaram um aumento expressivo da cobertura verde em parte da região. O que os satélites flagraram no deserto de Thar não foi um fenômeno natural, e sim o efeito de uma das maiores intervenções humanas já feitas em um ambiente árido do planeta.

As cisternas ancestrais que ajudaram a domar o deserto de Thar

Satélites flagraram o deserto de Thar, na Índia, virando lavoura verde, mas a irrigação já salinizou milhares de hectares e ameaça a terra que acabou de florescer.
Antes das megaobras, a sobrevivência no deserto de Thar dependia de engenhosidade local.

Comunidades reativaram e ampliaram técnicas tradicionais de captação de água da chuva, como as taankas, cisternas subterrâneas que armazenam a água das curtas monções. Pátios e telhados são desenhados com inclinação para funcionar como funis de coleta, e a água passa por um sistema de filtragem de areia e lama antes de entrar no reservatório fechado.

O armazenamento subterrâneo protege a água dos dois maiores inimigos do deserto: a evaporação e a contaminação. Como a luz solar não penetra na tampa, não há crescimento de algas, e a estrutura fechada impede a entrada de insetos transmissores de doenças. Medições indicam que a água dentro da cisterna fica de 10 a 15 graus mais fria que o ambiente externo. Outra técnica tradicional, o sistema khadin, usa diques de terra para reter a água das enchentes e forçar sua infiltração no solo, criando lavouras de umidade residual sem irrigação moderna no deserto de Thar.

O Canal Indira Gandhi e a megaobra que mudou o deserto de Thar

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

A grande virada veio com o Canal Indira Gandhi, originalmente chamado de Canal do Rajastão e renomeado em 2 de novembro de 1984, após o assassinato da então primeira-ministra Indira Gandhi. Trata-se de um dos maiores sistemas de irrigação do mundo, com cerca de 650 quilômetros de extensão somando o canal alimentador e o canal principal, levando água dos rios do estado de Punjab até o coração do deserto, em paralelo à fronteira com o Paquistão.

O impacto econômico foi enorme. Terras antes cobertas apenas por arbustos passaram a produzir arroz, algodão, trigo e mostarda, e segundo estudos, cerca de 1,86 milhão de hectares entraram em cultivo graças ao projeto. O estado do Rajastão se tornou líder nacional na produção de mostarda, e a infraestrutura de irrigação garantiu segurança alimentar para milhões de pessoas, além de atrair mão de obra de volta às áreas rurais. Por onde o canal passa, a seca recuou e o deserto de Thar deu lugar a clusters agrícolas intensivos.

O paradoxo da salinização que ameaça o deserto de Thar

O problema é geológico. Sob a areia do deserto de Thar existem camadas de gesso e argila pouco permeáveis. Quando a água do canal e dos campos irrigados se infiltra em excesso, ela não consegue escoar e fica retida acima dessas camadas, fazendo o lençol freático subir rapidamente, em alguns trechos cerca de 1 metro por ano. Essa água carregada de minerais sobe por capilaridade e, com o calor extremo, evapora na superfície, deixando para trás camadas de cristais de sal.

O fenômeno, conhecido como salinização e alagamento, ou waterlogging, já comprometeu vastas áreas que antes eram produtivas. Estudos da região do canal indicam que dezenas de milhares de hectares sofrem com salinidade severa, e projeções científicas alertam que parte significativa da área irrigada pode estar em risco de alagamento até o fim do século, caso nada seja feito. A natureza, segundo os pesquisadores, responde com sinais negativos quando o equilíbrio é rompido, e o excesso de verde no deserto de Thar pode se tornar tão problemático quanto a antiga falta de água.

Espécies invasoras e o desequilíbrio ecológico

Além da salinização, há um problema ecológico ligado à vegetação introduzida. Uma das árvores mais associadas ao avanço verde do deserto de Thar é a Prosopis juliflora, espécie originária da América Central, provavelmente introduzida na região entre 1980 e 2000. Embora ajude a fixar nitrogênio no solo e a conter a areia, ela é considerada invasora por especialistas, que apontam sua expansão como uma das causas da redução das pastagens nativas do Rajastão.

Vale o esclarecimento técnico de que existe uma confusão comum entre essa espécie invasora e a Prosopis cineraria, conhecida como khejri, árvore nativa e culturalmente reverenciada no deserto, com raízes que mergulham fundo em busca de água. A substituição da vegetação nativa por espécies exóticas altera a fauna, a flora e o regime de água do solo, mostrando que o reverdecimento do deserto de Thar, quando não é conduzido com critério científico, pode gerar perdas de biodiversidade difíceis de reverter.

As soluções de precisão para salvar o deserto de Thar

Diante do risco de salinização, o manejo no deserto de Thar entrou em uma nova fase, com foco em governança inteligente e sustentável. Em vez de inundar os campos, agricultores adotam cada vez mais a irrigação por gotejamento, que entrega água diretamente à base de cada planta, com auxílio de sensores de umidade e dados de satélite em tempo real. Essa agricultura de precisão chega a reduzir o uso de água pela metade e a elevar a produtividade, ao mesmo tempo em que evita que o excesso de água se infiltre e alimente o lençol freático.

Em paralelo, a Índia investe em grandes projetos ambientais, como a chamada Grande Muralha Verde indiana, faixa de vegetação inspirada no modelo africano, e em iniciativas de drenagem para baixar o lençol freático em áreas críticas. O deserto de Thar também virou polo de energia renovável, com o enorme parque solar de Bhadla e projetos agrivoltaicos, em que painéis solares geram eletricidade e, ao mesmo tempo, criam sombra que reduz a evaporação do solo, num arranjo que tenta unir geração de energia e conservação da água.

A transformação do deserto de Thar é, ao mesmo tempo, uma das maiores conquistas da engenharia humana e um alerta sobre seus limites. Levar água e vegetação a um dos ambientes mais hostis do planeta garantiu comida e renda a milhões de pessoas, mas também ensinou, na prática, que forçar a natureza a mudar rápido demais cobra um preço. O futuro da região depende de equilibrar produção e sustentabilidade, com tecnologia de precisão e respeito aos ciclos naturais, para que o verde conquistado na areia não vire deserto de sal.

Você acredita que o caso do deserto de Thar serve de lição para projetos de irrigação no Brasil, como os do semiárido nordestino? Acha que vale a pena transformar desertos em lavouras, mesmo com o risco de salinização? Deixe seu comentário, conte o que pensa sobre esse paradoxo entre progresso e meio ambiente e compartilhe a matéria com quem se interessa por agricultura, clima e grandes obras de engenharia.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x