Sob as ruas de Springfield, no Missouri, existe uma cidade escondida: um complexo de armazéns subterrâneos cavado em uma antiga mina de calcário. Centenas de caminhões entram todos os dias na terra, e milhares de toneladas de comida ficam guardadas a cerca de 17 graus naturais, com enorme economia de energia de refrigeração.
Sob as ruas de Springfield, no estado americano do Missouri, existe uma verdadeira cidade escondida no subsolo: o Springfield Underground, um gigantesco complexo de armazéns subterrâneos com cerca de 3,2 milhões de pés quadrados de área locável, o equivalente a aproximadamente 300 mil metros quadrados, cavado dentro de uma antiga mina de calcário. Todos os dias, centenas de caminhões, chegando a cerca de 700 nos relatos mais altos, descem para dentro da terra para carregar e descarregar mercadorias, em um dos centros de distribuição mais singulares e eficientes dos Estados Unidos, operado pela empresa familiar Erlen Group.
O grande trunfo dessa cidade escondida é a temperatura. A rocha calcária ao redor mantém o ambiente a constantes 62 graus Fahrenheit, cerca de 17 graus Celsius, durante o ano inteiro, sem necessidade de qualquer sistema de climatização nas áreas comuns. Isso transforma o local no lugar ideal para armazenar alimentos: cerca de 75% do espaço é dedicado a produtos alimentícios e aproximadamente 60% é refrigerado, com enorme economia de energia frente a um galpão convencional na superfície, exposto ao sol e às variações do clima.
Como uma mina de calcário virou uma cidade escondida

Por volta da metade da década de 1950, a operação foi convertida em mina subterrânea, e em 1960 começou a construção do primeiro armazém aproveitando o espaço vazio deixado pela extração da rocha. A mina original, conhecida como Griesemer, permaneceu ativa até 2015, com mineração e construção de armazéns acontecendo em paralelo por mais de cinco décadas.
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Ao longo desse período, foram removidas mais de 31 milhões de toneladas de calcário, material usado na fabricação de concreto para estradas e pontes. Cerca de 600 acres de rocha foram minerados em aproximadamente 70 anos, abrindo o enorme vazio que hoje abriga a cidade escondida. Em 1994, a fusão de três empresas, a Griesemer Stone Company, a Security Terminal e a General Warehouse Corporation, uniu tudo sob um único nome, dando origem ao Springfield Underground como ele é conhecido hoje.
A temperatura natural de 17 graus que economiza energia

Em profundidade, a rocha funciona como uma gigantesca massa térmica que estabiliza a temperatura, mantendo o ambiente em torno de 17 graus Celsius o ano inteiro, independentemente de fazer calor escaldante ou frio congelante na superfície. Essa estabilidade natural elimina grande parte do gasto com climatização que um armazém comum teria, especialmente em uma região de verões quentes e invernos rigorosos como o Meio-Oeste americano.
Para os produtos que exigem temperaturas ainda mais baixas, o complexo conta com uma equipe própria de manutenção de refrigeração, que controla edifícios refrigerados em faixas que vão de 29 graus Celsius negativos a 13 graus Celsius positivos. A combinação entre a massa térmica da rocha e a construção eficiente dos edifícios faz com que o sistema gaste muito menos energia para manter essas temperaturas do que gastaria na superfície. É por isso que a cidade escondida atrai tantas empresas do setor de alimentos, incluindo armazenagem de queijos, carnes e outros perecíveis.
Centenas de caminhões que somem dentro da terra
O movimento logístico dessa cidade escondida impressiona. Estimativas variam conforme a fonte e o período, indo de cerca de 400 a 600 caminhões por dia em levantamentos mais conservadores, chegando a relatos de mais de 700 veículos diários nas contagens mais altas. Para organizar esse fluxo intenso, o complexo dispõe de 224 portas de doca, dois pátios de manobra na superfície e mais de 4,8 quilômetros de vias internas iluminadas, por onde os caminhões circulam como em ruas de uma cidade comum.
A localização também é estratégica. O Springfield Underground tem acesso imediato às rodovias Interstate 44 e US-65, além da linha principal da ferrovia BNSF, uma das maiores dos Estados Unidos. Essa conexão permite o transbordo direto de trens para caminhões dentro do subsolo, com mais de uma dezena de edifícios servidos por trilhos. Esse modelo de transbordo é um dos grandes atrativos comerciais da cidade escondida, porque pode economizar dezenas de milhares de dólares por carga para as empresas que movimentam grandes volumes.
Por que transportadoras e embarcadores adoram o subsolo

Em uma visita às instalações, o apresentador Jared Flinn percorreu o complexo ao lado de Christina Angle, do Erlen Group, mostrando como funciona esse mundo oculto. Entre as vantagens citadas por motoristas e empresas estão a proteção total contra sol, chuva, neve e variações de temperatura, o que melhora as condições de trabalho e preserva melhor a carga durante o carregamento.
Há também desvantagens relatadas por alguns motoristas, que ajudam a dar equilíbrio ao retrato dessa cidade escondida. Caminhões com entre-eixos muito longos podem ter dificuldade em fazer as curvas mais fechadas das vias internas, e a ausência de sinal de celular no subsolo é apontada como um incômodo por parte dos profissionais. Ainda assim, o saldo costuma ser positivo, e o complexo segue crescendo, escavando novas áreas a cada ano para oferecer mais espaço locável protegido dos elementos externos.
O futuro dos armazéns subterrâneos e a segurança da carga
O modelo do Springfield Underground tem chamado a atenção de empresas e pesquisadores de logística no mundo todo. Além da economia de energia, a cidade escondida oferece vantagens de segurança: o ambiente fechado e controlado dificulta furtos de materiais valiosos, como tubos e conexões de cobre, e protege estoques sensíveis de variações climáticas extremas. Espaços com pé-direito de cerca de 9 metros e proteção por sprinklers contra incêndio completam a infraestrutura industrial.
O conceito também desperta interesse fora dos Estados Unidos. Empresas de armazenagem refrigerada de outros países, como das Ilhas Faroé, já visitaram o complexo em busca de inspiração para projetos próprios. Em um mundo pressionado a reduzir o consumo de energia e as emissões de carbono, aproveitar a temperatura natural e estável do subsolo aparece como uma solução elegante e de baixo custo operacional, capaz de unir eficiência logística, conservação de alimentos e sustentabilidade em uma mesma cidade escondida sob a terra.
O Springfield Underground prova que algumas das soluções mais inteligentes de engenharia podem estar literalmente debaixo dos nossos pés. Uma antiga mina de calcário que poderia ter virado um buraco abandonado se transformou em um polo logístico de centenas de milhares de metros quadrados, movido pela física simples da temperatura estável da terra. Para o setor de alimentos, de transporte e de armazenagem, essa cidade escondida é um exemplo de como reaproveitar espaços e recursos naturais pode gerar eficiência e economia ao mesmo tempo.
Você já tinha ouvido falar dessa cidade escondida sob as ruas de Springfield, no Missouri? Acha que o Brasil, com tantas minas e cavernas, poderia aproveitar espaços subterrâneos assim para armazenar alimentos e reduzir o gasto de energia? Deixe seu comentário, conte o que achou dessa ideia e compartilhe a matéria com quem se interessa por logística, engenharia, alimentos e soluções sustentáveis.


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