Negociação com investidores europeus coloca o trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio em uma nova etapa, enquanto a TAV Brasil tenta destravar financiamento, tecnologia, licenciamento e decisões sobre estações antes do cronograma que prevê obras em 2027 e operação em 2032.
O projeto de trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio de Janeiro avançou para uma fase considerada decisiva pela TAV Brasil, que busca um investidor europeu para viabilizar a implantação da linha, segundo o presidente da empresa, Bernardo Figueiredo.
Para a companhia, a definição desse parceiro é o principal passo para tirar o empreendimento do papel, já que o grupo escolhido deverá reunir capacidade financeira, tecnologia ferroviária, experiência operacional e atuação em negócios ligados às futuras estações.
Investidor europeu pode destravar o trem-bala Rio-SP
Ainda em fase preliminar, as conversas indicam tendência de acordo com investidores da Europa, depois de a TAV Brasil manter diálogo com empresários chineses e também avaliar alternativas ligadas a grupos japoneses e sul-coreanos.
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Na avaliação de Figueiredo, os japoneses demonstraram interesse apenas em um modelo com participação direta do poder público, enquanto representantes sul-coreanos não chegaram a procurar a empresa para discutir uma eventual participação no projeto.
Além do financiamento, a escolha do parceiro deve influenciar decisões de engenharia, porque cada tecnologia ferroviária exige soluções específicas para túneis, rampas, obras civis, sistemas de segurança e integração operacional ao longo do traçado.
Mesmo com o traçado principal praticamente consolidado, a definição do modelo de trem e dos equipamentos ainda pode levar a ajustes pontuais no projeto, especialmente em trechos que dependem de soluções técnicas mais complexas.
Por causa dessas variáveis, a empresa ainda não apresenta uma estimativa fechada para o investimento total do trem-bala, enquanto as tratativas com possíveis parceiros seguem protegidas por cláusulas de confidencialidade.
Traçado prevê estações entre São Paulo e Rio de Janeiro
Pelo desenho atual, o sistema deve contar com estações em São Paulo, São José dos Campos e no Sul Fluminense, antes de chegar ao Rio de Janeiro, com a parada regional ainda entre Barra Mansa e Volta Redonda.
As negociações com a Prefeitura de Barra Mansa estão mais avançadas, segundo Figueiredo, o que aumenta as chances de o município receber a estação planejada para atender passageiros da região intermediária no estado do Rio.
Na capital paulista, a empresa trabalha com a possibilidade de instalar o terminal na futura estação Água Branca, área prevista para concentrar conexões com linhas metroferroviárias e serviços regionais de transporte.
No Rio de Janeiro, a TAV Brasil deixou de lado a proposta inicial de usar o ramal de Santa Cruz e passou a considerar a região da Central do Brasil como destino final do sistema.
Para viabilizar a chegada à capital fluminense, o executivo afirmou que houve entendimento com a SuperVia para compartilhar parte da infraestrutura ferroviária, em uma etapa vista como relevante para integrar o trem ao centro do Rio.
Viagem direta entre capitais deve levar 1h30
A operação planejada pela TAV Brasil combina dois modelos de serviço, com uma ligação expressa entre as capitais e outra com paradas intermediárias em cidades estratégicas ao longo do percurso.
Na modalidade direta entre São Paulo e Rio de Janeiro, a estimativa apresentada pela companhia é de uma viagem de aproximadamente uma hora e meia, com tarifa média em torno de R$ 500.
Esse valor foi calculado a partir de estudos que apontavam preço equivalente a cerca de 60% a 70% da tarifa aérea média praticada na ponte aérea, embora a política final dependa do operador escolhido.
“O trem não tem as incertezas do avião”, afirmou Figueiredo, ao defender que a previsibilidade do transporte ferroviário pode se tornar um diferencial competitivo diante de interrupções operacionais registradas em aeroportos paulistas.
Passagens intermediárias podem partir de R$ 250
Com paradas em pontos intermediários, o segundo serviço deve ter tarifas mais próximas das cobradas no transporte rodoviário, com estudos trabalhando valores entre R$ 250 e R$ 300 para determinados deslocamentos.
Essa modalidade deve atender viagens até cidades como São José dos Campos, Barra Mansa ou Volta Redonda, reforçando a proposta de unir uma conexão rápida entre capitais a deslocamentos regionais de maior alcance.
Além da venda de passagens, a TAV Brasil considera a exploração imobiliária no entorno das estações uma das bases econômicas do empreendimento, com possibilidade de criar polos residenciais e comerciais associados à ferrovia.
Na visão apresentada por Figueiredo, experiências internacionais mostram que estações de alta velocidade podem estimular o desenvolvimento urbano ao redor dos terminais, desde que o planejamento seja integrado à mobilidade e aos serviços locais.
Autorização da ANTT e licenciamento ambiental
Em 2023, a Agência Nacional de Transportes Terrestres aprovou a celebração de contrato de adesão para construção e exploração de uma estrada de ferro entre São Paulo e Rio de Janeiro, pelo prazo de 99 anos.
Publicada no Diário Oficial da União de quarta-feira (22), a autorização se enquadra no modelo de ferrovias privadas, no qual cabe à empresa assumir riscos, buscar financiamento, desenvolver projetos e obter licenças.
Na época da aprovação, a ANTT informou que empreendimentos ferroviários autorizados ainda precisam cumprir marcos regulatórios, incluindo apresentação de licença ambiental prévia, licença de instalação e licença de operação.
O cronograma estimado pela TAV Brasil prevê início das obras em 2027 e começo da operação em 2032, mas esses prazos dependem da conclusão do licenciamento ambiental e da definição do grupo investidor.
Segundo o próprio presidente da empresa, as datas devem ser tratadas como referências, porque o empreendimento envolve engenharia complexa, financiamento de grande porte, aprovações ambientais e decisões comerciais ainda em aberto.
Com o parceiro europeu ainda em negociação e licenças pendentes, o trem-bala conseguirá finalmente transformar a ligação entre as duas maiores metrópoles do país ou voltará a enfrentar entraves que já adiaram projetos anteriores?
