Quase quatro décadas depois do desastre com o Césio-137, o maior acidente radiológico do Brasil ainda exige vigilância constante: todo o lixo radioativo gerado pela tragédia está enterrado em Abadia de Goiás sob camadas de concreto, com monitoramento ambiental rigoroso que analisa solo, água e vegetação a cada trimestre para garantir que Goiânia e a região permaneçam seguras.
O pior acidente radiológico do Brasil completou mais de 37 anos, mas seus restos continuam ali enterrados, concretados e vigiados. Em setembro de 1987, uma cápsula de Césio-137 abandonada em uma clínica desativada de Goiânia desencadeou a maior tragédia radiológica já registrada fora de usinas nucleares. O resultado foram 3.500 metros cúbicos de lixo radioativo que precisaram ser recolhidos, selados e depositados em um lugar seguro o suficiente para durar séculos.
Esse lugar existe. Fica a apenas 23 quilômetros de Goiânia, na cidade de Abadia de Goiás, dentro do Parque Telma Ortegal. Sob dois montes perfeitamente simétricos, 4.223 tambores, 1.343 caixas metálicas e 10 contêineres guardam tudo o que foi contaminado de roupas e entulhos a animais de estimação. O monitoramento ambiental é feito a cada três meses por técnicos especializados, porque o acidente radiológico do Brasil não é passado: é presente contínuo.
O que aconteceu em Goiânia em setembro de 1987
A história começa com um equipamento médico esquecido. Uma clínica de radioterapia no centro de Goiânia foi desativada e abandonou no local uma cápsula contendo Césio-137, um isótopo radioativo usado em tratamentos contra o câncer.
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Dois catadores de materiais recicláveis encontraram o aparelho, desmontaram a blindagem e expuseram a fonte radioativa sem saber o que estavam manuseando.
O pó azul brilhante que saiu da cápsula fascinou moradores do bairro. Foi passado de mão em mão, levado para casas, esfregado na pele de crianças.
Quando os primeiros sintomas de contaminação começaram a aparecer vômitos, queimaduras, queda de cabelo já era tarde demais para evitar que o acidente radiológico do Brasil se tornasse uma catástrofe de proporções internacionais.
Ao final, quatro pessoas morreram diretamente pela radiação, centenas ficaram contaminadas e Goiânia entrou para a história por um dos episódios mais trágicos da era nuclear.
Como 3.500 metros cúbicos de lixo radioativo foram recolhidos e selados

A operação de limpeza foi tão extraordinária quanto o próprio desastre. Técnicos precisaram percorrer ruas, casas e terrenos de Goiânia identificando e removendo tudo o que havia sido contaminado pelo Césio-137.
Roupas, móveis, paredes, solo, vegetação e até animais domésticos que tiveram contato com a radiação foram recolhidos e catalogados como lixo radioativo.
Segundo o físico Walter Mendes Ferreira, em depoimento à Assembleia Legislativa de Goiás, foram utilizados ao todo 4.223 tambores, 1.343 caixas metálicas e dez contêineres para acondicionar o material contaminado.
Cada item foi isolado em caixas de chumbo para evitar vazamento de radiação. O volume final chegou a 3.500 metros cúbicos o equivalente a preencher completamente mais de uma piscina olímpica com resíduos radioativos.
A questão seguinte era decidir onde depositar tudo isso. O terreno escolhido ficava em Abadia de Goiás, a 23 quilômetros da capital. O plano original previa que o depósito seria temporário, mas as condições do terreno mudaram essa decisão.
A área não oferecia risco de contaminação do lençol freático, e deslocar novamente todo o material trazia perigos que ninguém queria correr. O lixo radioativo do pior acidente radiológico do Brasil ficou onde estava dessa vez, com proteção de engenharia projetada para durar.
Por dentro das paredes de 50 centímetros que isolam o Césio-137

Divulgação/Semad
O sistema de contenção não é improvisado. Os depósitos foram concretados e inseridos dentro de duas grandes estruturas de concreto com paredes de 50 centímetros de espessura.
O objetivo é criar uma barreira física robusta o suficiente para impedir que qualquer nível de radiação escape para o ambiente externo. Tudo foi enterrado e coberto por terra, formando os dois montes simétricos que hoje fazem parte da paisagem do Parque Telma Ortegal.
Por cima dos montes, grama e vegetação crescem normalmente. Para quem passa pelo local sem saber a história, os morros parecem apenas parte do relevo natural. Mas sob a superfície, camadas de chumbo e concreto mantêm selado o legado físico de uma tragédia que marcou Goiânia e colocou o Brasil no mapa dos piores acidentes radiológicos do mundo.
A engenharia de contenção foi projetada considerando que o Césio-137 tem meia-vida de aproximadamente 30 anos. Isso significa que, a cada três décadas, a radiação cai pela metade.
Mas “pela metade” não significa “seguro” serão necessários cerca de 300 anos até que os níveis radioativos se tornem desprezíveis. O concreto, o chumbo e o monitoramento ambiental precisam funcionar por todo esse período.
O monitoramento ambiental que acontece a cada três meses
Selar o lixo radioativo não foi o último passo. Desde que os resíduos foram depositados, técnicos do Programa de Monitoramento Ambiental (PMA) de Rejeitos Radioativos do CRCN-CO realizam inspeções trimestrais no local.
A cada três meses, equipes coletam amostras de solo, analisam a qualidade das águas subterrâneas, examinam a vegetação e verificam os sedimentos ao redor do depósito.
O objetivo do monitoramento ambiental é duplo: confirmar que as barreiras de contenção continuam íntegras e detectar qualquer sinal de vazamento antes que ele se torne um problema.
Até hoje, nenhuma análise indicou contaminação no entorno. Mas a vigilância não pode ser interrompida o acidente radiológico do Brasil deixou um passivo que exige atenção contínua por gerações.
Essa rotina de inspeção transforma o Parque Telma Ortegal em um dos poucos locais no mundo onde resíduos de um desastre radiológico civil recebem acompanhamento técnico permanente e sistemático. É um protocolo que mistura ciência nuclear, engenharia ambiental e responsabilidade histórica tudo isso a pouco mais de 20 quilômetros do centro de Goiânia.
O Parque Telma Ortegal: a reserva que nasceu para proteger um cemitério radioativo
A decisão de transformar a área em parque não foi estética foi estratégica. Com a expansão urbana avançando sobre Abadia de Goiás, havia o risco real de que construções chegassem ao local onde o lixo radioativo estava enterrado. A criação de uma reserva ambiental foi a forma encontrada para impedir que qualquer empreendimento futuro perfurasse o solo e atingisse os contêineres.
A lei que criou a reserva foi aprovada em 1995. O nome “Parque Telma Ortegal” veio em 1997, como homenagem à primeira prefeita do município, falecida durante o mandato.
Além de proteger fisicamente o depósito do Césio-137, o parque funciona como espaço educativo. Estudantes de escolas públicas e particulares visitam o local para aprender sobre a história do acidente radiológico do Brasil e sobre os perigos do manuseio de materiais radioativos.
O parque é, ao mesmo tempo, memorial e advertência. Ele lembra que os restos de uma tragédia causada pela negligência humana não desaparecem precisam ser vigiados, mantidos e explicados para que as próximas gerações não repitam os mesmos erros. E que o monitoramento ambiental constante é o preço de conviver com um legado que vai durar séculos.
O que o maior acidente radiológico do Brasil ensina quase quatro décadas depois
O Césio-137 não é apenas uma página da história de Goiânia. É um lembrete permanente de que materiais radioativos abandonados podem causar catástrofes que atravessam gerações.
Os 4.223 tambores enterrados em Abadia de Goiás são a prova física de que erros de negligência têm custo mensurável em vidas perdidas, em saúde comprometida e em toneladas de lixo radioativo que alguém precisa guardar por séculos.
A estrutura de contenção e o monitoramento ambiental trimestral funcionam como deveriam. Mas a pergunta que persiste é se o país aprendeu o suficiente com o pior acidente radiológico do Brasil para garantir que fontes radioativas nunca mais sejam abandonadas em clínicas desativadas, em cidades onde crianças possam encontrá-las.
Com informações do portal R7.
O que você acha: o Brasil aprendeu de verdade com a tragédia do Césio-137 em Goiânia, ou ainda estamos vulneráveis a acidentes com materiais radioativos abandonados? Deixe sua opinião nos comentários esse debate precisa continuar.

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