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O primeiro combustível de avião 100% brasileiro saiu da soja: SAF Petrobras entregou 3 mil m³ no Galeão e prepara R$ 17,5 bilhões para dominar mercado mundial até 2027

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 01/05/2026 às 06:00
Atualizado em 01/05/2026 às 06:03
Avião comercial decolando de aeroporto internacional brasileiro abastecido com SAF Petrobras ao amanhecer
Conceito visual de avião com SAF brasileiro no Galeão
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Em apenas 3 mil m³ entregues no Aeroporto Internacional do Galeão — equivalente a um dia inteiro de voos no Rio de Janeiro — a Petrobras acaba de inaugurar a era do combustível de aviação 100% brasileiro, abrindo mercado mundial estimado em dezenas de bilhões de dólares

O SAF Petrobras deixou de ser promessa e virou realidade comercial. Em dezembro de 2025, a estatal brasileira entregou o primeiro lote de combustível sustentável de aviação produzido inteiramente no Brasil, totalizando 3 mil m³ destinados ao Galeão.

O volume é simbólico: equivale aproximadamente a um dia de consumo de querosene de aviação em todos os aeroportos do estado do Rio de Janeiro juntos. Mas o salto qualitativo é enorme — pela primeira vez, aeronaves brasileiras decolaram com combustível parcialmente vindo do óleo de soja produzido no Centro-Oeste.

A produção saiu da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), na Baixada Fluminense, via processo de coprocessamento autorizado pela ANP — Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Atualmente, o limite é de até 1,2% de matéria-prima renovável misturada ao querosene fóssil, mas a meta é ampliar progressivamente.

O que é o SAF Petrobras e como funciona o processo de coprocessamento

O termo SAF vem da sigla em inglês “Sustainable Aviation Fuel” — combustível de aviação sustentável. Ao contrário do biodiesel ou do etanol, o SAF é quimicamente idêntico ao querosene tradicional. Por isso, pode ser usado em aeronaves comerciais sem nenhuma adaptação técnica.

Em paralelo, a infraestrutura aeroportuária também não precisa ser modificada. Tanques, oleodutos, caminhões-tanque e bicos de abastecimento operam exatamente como antes. A única diferença é a origem da matéria-prima: ao invés de petróleo bruto, o SAF Petrobras usa óleo vegetal — principalmente soja brasileira — convertido em hidrocarbonetos via coprocessamento.

De acordo com a Times Brasil, o produto entrega redução de até 87% nas emissões líquidas de CO₂ sobre a parcela renovável, atendendo aos critérios de sustentabilidade da certificação internacional ISCC-Corsia.

Conforme afirmou Magda Chambriard, presidente da Petrobras, “essa é uma solução que contribui para o cumprimento das metas de descarbonização do setor aéreo”. A executiva destacou ainda o caráter estratégico da iniciativa para o programa nacional de transição energética.

Soja brasileira como matéria-prima do SAF Petrobras

A Lei do Combustível do Futuro: o que muda em 2027

O grande catalisador comercial para o SAF Petrobras chegará em 2027. Naquele ano, entra em vigor a Lei do Combustível do Futuro, que torna obrigatório o uso de pelo menos 1% de biocombustível em todos os voos domésticos brasileiros. O percentual vai crescer ano a ano, chegando a 10% em 2037.

Em paralelo, voos internacionais ficam sujeitos ao programa CORSIA da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), que também exigirá uso obrigatório de SAF a partir de 2027. Em outras palavras, qualquer companhia aérea que opera no Brasil terá que comprar SAF — local ou importado.

Por consequência, a Petrobras antecipou o movimento. Construir capacidade nacional antes da exigência regulatória vira vantagem competitiva enorme: enquanto Europa e Estados Unidos correm para escalar produção interna, o Brasil já tem usina certificada operando.

Conforme afirmou o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, “estamos estruturando um novo mercado no país, com planejamento, segurança regulatória e investimentos que dão previsibilidade ao setor. A produção nacional de SAF fortalece a indústria brasileira, gera oportunidades econômicas e permite que a aviação cresça de forma sustentável”.

Refinaria brasileira produzindo SAF Petrobras

A expansão para Paulínia e Betim em 2026

O cronograma da Petrobras já está traçado. Em 2026, duas refinarias adicionais começam a produzir SAF: a Refinaria de Paulínia (REPLAN), em São Paulo, e a Refinaria Gabriel Passos (REGAP), em Minas Gerais. A Refinaria Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos, também já testou o processo.

De fato, juntando as quatro refinarias, a Petrobras espera chegar a 1,6 bilhão de litros de produção anual de SAF até 2027 — volume mais que suficiente para atender a demanda doméstica nos primeiros anos da Lei do Combustível do Futuro.

Em comparação, o setor inteiro deve receber investimentos de R$ 17,5 bilhões até 2027, segundo levantamento do Ministério de Minas e Energia. O valor inclui não só infraestrutura de refino, mas também rede logística, certificação e P&D em rotas alternativas como o etanol-para-querosene (ATJ).

Em paralelo, a expectativa do governo é alcançar 100% da demanda nacional de SAF com produção interna até 2029. Esse número significaria zero importação — algo que poucos países do mundo conseguem em combustível sintético.

Abastecimento de aeronave com combustível SAF Petrobras

Por que a soja brasileira dá vantagem ao SAF Petrobras

A grande aposta brasileira está na cadeia agrícola. O Brasil é o maior produtor mundial de soja — e quase metade dessa produção é processada para gerar farelo (alimento animal) e óleo vegetal. O óleo é a matéria-prima ideal para o SAF Petrobras.

Em comparação com a Europa, que importa boa parte de seu óleo vegetal (palma da Indonésia, colza francesa), o Brasil usa matéria-prima nacional, com logística existente e custo competitivo. Isso significa SAF brasileiro mais barato e com certificação rastreável de origem.

Conforme detalhado pelo Ministério de Portos e Aeroportos, a estratégia é também usar óleo técnico de milho (TCO) — subproduto da indústria de etanol — como rota alternativa. O Brasil já tem capacidade técnica certificada para essa segunda matéria-prima.

Por outro lado, como reportou recentemente o Click Petróleo e Gás com base em estudo da Deloitte, a descarbonização do setor de óleo e gás é considerada estratégica para os próximos anos — e o SAF é uma das principais rotas comerciais para isso.

Como o Brasil sai à frente da Europa e dos EUA no mercado global

Globalmente, a corrida pelo SAF está acirrada. A União Europeia tem a meta ReFuelEU de 2% SAF em 2025, subindo para 70% em 2050 — mas a maior parte do volume hoje é importada. Os Estados Unidos investem pesado via Inflation Reduction Act, com créditos fiscais para produção, mas ainda dependem de matéria-prima de waste oil e milho.

O Brasil, por sua vez, já tem certificação ISCC-Corsia em mãos, refino comprovado e cadeia de soja integrada. De fato, o SAF Petrobras pode virar produto exportável a partir de 2027, vendendo para companhias aéreas europeias e asiáticas que não conseguem atender suas próprias metas internamente.

Em paralelo, esse cenário fortalece a posição brasileira no setor energético global. Como mostrou matéria recente do Click Petróleo e Gás, Brasil, Guiana e Argentina vão responder por metade do crescimento mundial de petróleo em 2026. Agora, com o SAF, o país também desponta como protagonista do “petróleo verde” do futuro.

  • 3 mil m³ — primeiro lote de SAF Petrobras entregue no Galeão (dez/2025)
  • 87% — redução de CO₂ na parcela renovável certificada ISCC-Corsia
  • 1,2% — limite atual de matéria-prima renovável no coprocessamento
  • 1% — exigência mínima de biocombustível em voos domésticos a partir de 2027
  • 1,6 bilhão de litros — produção anual de SAF prevista pela Petrobras em 2027
  • R$ 17,5 bilhões — investimento setorial até 2027
  • 100% — meta de atender demanda nacional com produção interna até 2029

Ressalvas: ainda há desafios técnicos e econômicos

Apesar do salto, há limitações reais. O volume inicial de 3 mil m³ é simbólico — corresponde a apenas um dia de consumo no Rio. Para atender a Lei do Combustível do Futuro inteira, a Petrobras precisará escalar produção em mais de 100 vezes em três anos.

Além disso, a matéria-prima principal — óleo de soja — pode entrar em conflito com a demanda alimentar global. Críticos apontam que dedicar parte da safra brasileira para combustível pode pressionar preços de comida em mercados emergentes, com impacto social significativo.

Em paralelo, a certificação ISCC-Corsia exige rastreabilidade total da cadeia — desde a fazenda até o tanque do avião. Isso significa custos adicionais com auditoria e tecnologia de tracking, encarecendo o produto final em comparação ao querosene fóssil.

Por outro lado, há também questões regulatórias por resolver. Os incentivos fiscais previstos pela Lei do Combustível do Futuro ainda dependem de regulamentação complementar, e o Tesouro Nacional precisa equilibrar subsídios sem comprometer o orçamento federal.

O que vem pela frente: a corrida começou

Para entender o que pode acontecer nos próximos anos, vale olhar para o passado recente. O Brasil virou potência mundial em etanol porque entrou cedo na cadeia comercial, na década de 1970, com o Proálcool. Hoje, exporta etanol e tecnologia para mais de 80 países.

Da mesma forma, o SAF Petrobras pode repetir essa trajetória. Se a expansão para REPLAN e REGAP confirmar viabilidade comercial, o Brasil pode virar exportador líquido de combustível sustentável de aviação antes do final da década, capturando bilhões em receita externa.

Em outras palavras, a aposta vai além de cumprir metas climáticas — é estratégia de inserção global. Cada litro de SAF certificado vendido na Europa em 2027 vale potencialmente quatro vezes o preço do querosene fóssil, segundo cotações atuais do mercado spot.

Por fim, a pergunta que fica é incômoda. Se o Brasil já tem soja, refino, certificação e marco regulatório, falta apenas escala — e tempo. Será que a Petrobras vai conseguir multiplicar produção por 100 em três anos antes que Estados Unidos e Europa montem suas próprias cadeias internas? E o que acontece se o mundo descobrir, em 2030, que o avião limpo do futuro vem do cerrado brasileiro?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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