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Rover da NASA encontra em Marte uma rocha com água antiga, matéria orgânica e possível assinatura biológica, e a descoberta reacende o alerta de que o planeta vermelho pode ter abrigado vida microbiana há bilhões de anos e ainda guardar rastros fora do alcance dos robôs atuais

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 03/05/2026 às 10:14
Atualizado em 03/05/2026 às 12:01
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Amostra coletada pelo rover Perseverance em Marte pode preservar a evidência mais convincente já encontrada de uma potencial biossinatura no Planeta Vermelho, com moléculas orgânicas, minerais associados a reações químicas e padrões geoquímicos em uma rocha formada há cerca de 3,7 bilhões de anos na Cratera Jezero.

Segundo o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, uma amostra coletada pelo rover Perseverance em julho de 2024, em um antigo leito de rio seco na Cratera Jezero, em Marte, pode preservar evidências de vida microbiana antiga. A amostra foi retirada de uma rocha chamada Cheyava Falls e recebeu o nome Sapphire Canyon.

O material contém potenciais biossinaturas, segundo artigo publicado na revista Nature em 10 de setembro de 2025. O estudo passou por um ano inteiro de análise e revisão por pares independentes, o processo científico mais rigoroso disponível antes que uma afirmação desse peso seja aceita pela comunidade científica.

“Esta descoberta pelo Perseverance é a mais próxima que já chegamos de descobrir vida em Marte. A identificação de uma potencial biossinatura no Planeta Vermelho é uma descoberta inovadora”, disse Sean Duffy, administrador interino da NASA. Nenhum cientista afirmou que vida foi descoberta, mas a evidência é a mais convincente já coletada em mais de 50 anos de exploração marciana.

Rocha Cheyava Falls em Marte chamou atenção por manchas de leopardo em antigo vale fluvial da Cratera Jezero

A história da Cheyava Falls começou em julho de 2024, quando o Perseverance explorava a formação Bright Angel, um conjunto de afloramentos rochosos nas bordas norte e sul do Vale Neretva. Esse vale fluvial antigo, com quase 400 metros de largura, foi escavado pela água que corria para dentro da Cratera Jezero há bilhões de anos.

Foto: NASA

A rocha chamou atenção imediatamente pela aparência. Era um argilito, rocha sedimentar de grão fino formada em ambientes de água parada, como lagos ou deltas de rios, coberto por manchas brancas e vermelhas distribuídas em padrão irregular. Os cientistas da missão rapidamente apelidaram essas marcas de “manchas de leopardo”.

Cada mancha tem núcleo branco e borda avermelhada. A distribuição não parece aleatória, pois apresenta espaçamento regular que sugere um padrão geoquímico específico. Foi esse desenho mineral incomum que transformou a Cheyava Falls na rocha marciana mais importante já analisada pelo Perseverance.

Instrumentos do Perseverance identificaram moléculas orgânicas e minerais associados a processos biológicos na Terra

O Perseverance passou semanas analisando a Cheyava Falls com todos os instrumentos disponíveis antes de perfurá-la e extrair um núcleo de rocha.

O instrumento PIXL, espectrômetro de fluorescência de raios X capaz de mapear a composição química de grãos individuais com resolução de fração de milímetro, identificou uma combinação altamente relevante.

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Os cientistas descreveram o achado como um “coquetel de moléculas orgânicas e minerais fortemente associados a processos biológicos na Terra”. Nas manchas de leopardo, foram identificados carbonato de cálcio, olivina, fosfato, enxofre oxidado e matéria orgânica.

O carbonato de cálcio indica presença histórica de água em Marte. A olivina reage com água e pode produzir hidrogênio, fonte de energia usada por microrganismos terrestres. O fosfato é essencial ao metabolismo de qualquer forma de vida conhecida, enquanto o enxofre oxidado aparece em reações de oxidação-redução usadas por micróbios para obter energia em ambientes sem luz.

Por que a expressão potencial biossinatura é cautelosa, mas extremamente importante para a ciência

A linguagem científica usada no caso da Cheyava Falls é deliberadamente cautelosa, e essa cautela não enfraquece a descoberta. Ela aumenta sua precisão. Uma biossinatura é qualquer substância, estrutura ou padrão que pode ter origem biológica.

Quando os cientistas usam a expressão “potencial biossinatura”, estão dizendo que a evidência é consistente com uma origem biológica, mas que outras explicações ainda não podem ser completamente descartadas. No caso da Cheyava Falls, há dois cenários possíveis: atividade de microrganismos antigos ou processos geoquímicos específicos sem vida.

A hipótese geoquímica envolve serpentinização, um processo capaz de produzir reações de oxidação-redução sem organismos vivos. O ponto histórico é que, pela primeira vez, uma amostra marciana chegou ao nível em que a explicação biológica precisa ser considerada seriamente pela comunidade científica.

A hipótese biológica ainda não foi confirmada porque Marte precisa devolver a amostra à Terra

A razão pela qual os cientistas não confirmam nem descartam a hipótese biológica é técnica. Os dois cenários, vida microbiana antiga ou serpentinização, podem produzir padrões geoquímicos semelhantes. Para distinguir um do outro, seria necessário analisar a amostra com instrumentos muito mais sofisticados do que qualquer robô espacial pode carregar.

Esses instrumentos existem apenas em laboratórios terrestres. A análise capaz de determinar se as estruturas orgânicas são verdadeiramente biogênicas exige espectrômetros de massa de última geração, microscópios eletrônicos de transmissão e técnicas isotópicas capazes de diferenciar moléculas produzidas por vida de moléculas geradas por química inorgânica.

Por isso, o próximo passo decisivo é trazer as amostras de Marte para a Terra. Enquanto Sapphire Canyon permanecer dentro de um tubo de titânio no rover Perseverance, a descoberta continuará no campo da evidência mais forte já encontrada, mas ainda não da prova definitiva.

Cratera Jezero foi escolhida porque abrigou lago, rios e deltas há cerca de 3,7 bilhões de anos

Para entender por que a Cratera Jezero foi escolhida como local de pouso do Perseverance, é preciso entender o que aquela região foi há 3,7 bilhões de anos. Jezero tem aproximadamente 45 quilômetros de diâmetro e foi formada pelo impacto de um asteroide.

Depois do impacto, a cratera abrigou um lago. As evidências são fortes: imagens orbitais mostram canais de entrada e saída de rios, depósitos deltaicos formados quando a água perdeu velocidade ao entrar no lago e camadas rochosas preservadas ao longo das bordas da cratera.

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O Vale Neretva foi um desses rios de entrada. Ele transportou água, sedimentos e compostos dissolvidos de um planalto a oeste para dentro do lago Jezero por centenas de milhares a milhões de anos. A Cheyava Falls foi encontrada justamente em uma zona de transição entre antigo canal fluvial e ambiente lacustre.

Bright Angel reúne água antiga, sedimentos finos e química favorável à preservação de sinais de vida

A formação Bright Angel, onde a Cheyava Falls foi encontrada, fica no ponto em que o Vale Neretva se encontrava com a borda norte da cratera. Esse tipo de ambiente favorece a deposição de sedimentos de grão fino em água relativamente parada.

Para astrobiologistas, esse cenário é ideal. Ele combina água líquida persistente, gradientes químicos capazes de fornecer energia, minerais que podem catalisar reações bioquímicas e sedimentos finos que preservam matéria orgânica por escalas geológicas.

Na Terra, ambientes análogos existem em zonas de descarga de aquíferos e rochas ultramáficas, onde a serpentinização produz hidrogênio e comunidades microbianas vivem sem luz solar. É exatamente esse tipo de ambiente que torna a Cratera Jezero uma das regiões mais promissoras para procurar vida antiga em Marte.

Amostra Sapphire Canyon tem 6 centímetros e foi guardada em tubo de titânio pelo Perseverance

O Perseverance coletou um cilindro de rocha de aproximadamente 6 centímetros de comprimento e 1,3 centímetro de diâmetro da Cheyava Falls em 21 de julho de 2024. Essa foi a 22ª amostra de rocha da missão.

A amostra foi vedada hermeticamente em um tubo de titânio e armazenada no interior do rover. Ela permanecerá ali até que uma missão de retorno de amostras de Marte consiga recuperá-la e transportá-la de volta para a Terra.

Rover da NASA encontra em Marte uma rocha com água antiga, matéria orgânica e possível assinatura biológica, e a descoberta reacende o alerta de que o planeta vermelho pode ter abrigado vida microbiana há bilhões de anos e ainda guardar rastros fora do alcance dos robôs atuais

Antes e durante a perfuração, os instrumentos do Perseverance analisaram a rocha em detalhe. O SHERLOC, espectrômetro Raman voltado à detecção de moléculas orgânicas, identificou matéria orgânica no interior das manchas brancas. O PIXL mapeou a distribuição dos minerais, e a câmera WATSON registrou as texturas em alta resolução.

Padrão espacial das manchas reforça a possibilidade de reações químicas associadas à vida microbiana

O detalhe mais sugestivo da Cheyava Falls não é apenas a presença de moléculas orgânicas, mas a forma como esses compostos aparecem distribuídos. O PIXL mostrou que fosfato, enxofre oxidado e matéria orgânica coexistem nas mesmas zonas microscópicas das manchas.

Em rochas terrestres onde microrganismos produziram reações de oxidação-redução, é comum encontrar zonas localizadas com minerais de ferro oxidado na borda, minerais reduzidos no núcleo e matéria orgânica concentrada nas interfaces entre essas áreas.

Em rochas terrestres sem vida, onde a serpentinização gerou reações semelhantes, o padrão costuma ser mais difuso e menos localizado. A Cheyava Falls apresenta um padrão concentrado. É essa organização espacial que torna a amostra tão intrigante para a astrobiologia.

Marte antigo tinha atmosfera mais densa, rios, lagos e condições potencialmente habitáveis

A Cheyava Falls se formou há aproximadamente 3,7 bilhões de anos, em uma época em que Marte era muito diferente do planeta seco e frio observado hoje. Na Terra, esse período coincide com uma fase extremamente primitiva da vida, anterior à diversificação complexa registrada em fósseis posteriores.

Há 3,7 bilhões de anos, Marte possuía atmosfera mais densa, capaz de manter pressão compatível com água líquida na superfície em determinadas condições. O planeta também tinha campo magnético gerado por um núcleo ainda ativo, que protegia parte da superfície da radiação solar.

Rios fluíam, lagos persistiam por longos períodos e a química do ambiente oferecia gradientes de oxidação-redução que astrobiologistas consideram adequados para vida microbiana quimiolitotrófica. Se a vida surgiu em Marte, esse período foi uma das melhores janelas possíveis para sua existência.

Marte pode ter tido centenas de milhões de anos de condições favoráveis à vida microbiana

Se vida surgiu em Marte nesse intervalo, ela pode ter contado com 400 milhões a 700 milhões de anos de condições habitáveis antes que o planeta perdesse seu campo magnético, sua atmosfera densa e a maior parte da água superficial.

Esse tempo é geologicamente relevante. Na Terra, os registros fósseis mais antigos indicam que a vida evoluiu da química orgânica prebiótica para células com metabolismo sofisticado em menos de 300 milhões de anos.

Isso não prova que a vida surgiu em Marte. Mas torna plausível a busca por sinais preservados em rochas sedimentares antigas, especialmente em lugares como a Cratera Jezero. A Cheyava Falls está exatamente no tipo de ambiente onde a vida marciana, se existiu, poderia ter deixado rastros.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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