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Reservatórios artificiais estão perdendo oxigênio em escala global, com 74% dos grandes lagos analisados em queda desde 1984 e risco de transformar barragens em zonas críticas para peixes, água potável e emissões invisíveis

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 23/05/2026 às 20:54 Atualizado em 23/05/2026 às 20:57
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Reservatórios artificiais estão perdendo oxigênio em escala global
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Estudo revela queda de oxigênio em 74% dos grandes reservatórios globais, com riscos para biodiversidade, água e emissões.

Um estudo publicado na Scientific Reports em dezembro de 2025 analisou 357 grandes reservatórios artificiais no mundo e identificou uma queda generalizada de oxigênio dissolvido entre 1984 e 2023. Segundo os pesquisadores Liangwei Liao e Xinge Cai, 264 reservatórios, o equivalente a 74% da amostra, apresentaram desoxigenação no período. O dado mais preocupante é que a taxa média de queda foi de 0,13 mg/L por década, ritmo descrito no estudo como mais rápido do que o observado em lagos naturais, oceanos e rios em períodos comparáveis. Em reservatórios, essa perda pode afetar peixes, qualidade da água, nutrientes, sedimentos e até emissões de gases de efeito estufa.

Oxigênio dissolvido é um dos sinais vitais de reservatórios, barragens e grandes lagos artificiais

O oxigênio dissolvido, conhecido pela sigla DO em estudos científicos, indica quanto oxigênio está disponível na água para sustentar peixes, invertebrados, microrganismos e processos químicos essenciais. Quando esse nível cai demais, o ambiente pode entrar em hipóxia ou anoxia.

A hipóxia ocorre quando há oxigênio insuficiente para muitas formas de vida aquática, enquanto a anoxia representa ausência quase total de oxigênio em determinadas camadas. O estudo cita limites de referência de DO abaixo de 2 mg/L para hipóxia e abaixo de 0,5 mg/L para anoxia.

Em reservatórios artificiais, esse problema ganha peso especial porque eles não são apenas ecossistemas. Eles também armazenam água para abastecimento, irrigação, energia, navegação, controle de cheias e atividades econômicas.

Estudo usou satélites e aprendizado de máquina para reconstruir quatro décadas de oxigênio na água

A pesquisa desenvolveu um modelo baseado em sensoriamento remoto e aprendizado de máquina para estimar oxigênio dissolvido em reservatórios com área superior a 100 km². O modelo foi calibrado com cerca de 32.065 amostras in situ de oxigênio dissolvido.

Entre três métodos testados, o Random Forest apresentou o melhor desempenho, com R² de 0,73 e erro médio de 1,23 mg/L no conjunto de teste. Isso permitiu reconstruir a dinâmica de oxigênio em grandes reservatórios ao longo de quase 40 anos.

Esse ponto é importante porque medições diretas em reservatórios globais são limitadas e irregulares. O uso de satélites permitiu ampliar a escala da análise, cobrindo regiões onde a coleta contínua em campo é difícil.

74% dos reservatórios analisados perderam oxigênio entre 1984 e 2023

O resultado central é direto: 74% dos reservatórios globais estudados perderam oxigênio dissolvido de superfície entre 1984 e 2023. Isso representa 264 dos 357 reservatórios analisados.

A tendência média global foi de queda de 0,13 mg/L por década, enquanto os reservatórios que perderam oxigênio apresentaram queda média de 0,07 mg/L por década. O estudo também identificou que 26% da amostra teve aumento, mostrando que o fenômeno não é uniforme.

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Mesmo assim, a perda aparece em todos os continentes avaliados. As taxas médias foram de -0,07 mg/L na África, -0,06 mg/L na Ásia, -0,12 mg/L na Europa, -0,10 mg/L na América do Norte, -0,05 mg/L na Oceania e -0,05 mg/L na América do Sul.

Reservatórios podem perder oxigênio mais rápido que lagos, oceanos e rios

O estudo afirma que a taxa de queda nos reservatórios foi mais rápida do que a observada em outros ambientes aquáticos em períodos similares. A comparação citada pelos autores aponta cerca de -0,08 mg/L por década em lagos, -0,02 mg/L em oceanos e -0,04 mg/L em rios.

Essa diferença pode ocorrer porque reservatórios combinam características naturais e artificiais. Eles sofrem influência de clima, aquecimento, nutrientes, uso do solo, operação de barragens e alterações no fluxo da água.

Quando a água fica estratificada, camadas profundas podem se isolar da superfície oxigenada. Com menos mistura vertical, o oxigênio do fundo é consumido por processos biológicos e não é reposto na mesma velocidade.

Aquecimento, uso do solo e nutrientes aparecem como motores principais da queda

A análise de atribuição do estudo indicou três grandes grupos de fatores por trás da queda de oxigênio. Mudanças climáticas responderam por cerca de 46%, perturbações humanas por 31% e processos biogeoquímicos por 23%.

O aumento da temperatura reduz a solubilidade do oxigênio na água. Em termos simples, água mais quente consegue reter menos oxigênio, ao mesmo tempo em que acelera metabolismo microbiano e consumo de oxigênio.

A agricultura e outras mudanças no uso do solo também pesam. A entrada de nutrientes pode estimular florações de algas; quando esse material orgânico se decompõe, microrganismos consomem oxigênio e podem empurrar o reservatório para níveis críticos.

A perda de oxigênio pode afetar peixes, abastecimento e qualidade da água

Quando o oxigênio dissolvido cai, peixes e outros organismos podem perder habitat, migrar para áreas menores ou morrer em eventos extremos. A perda também altera cadeias alimentares e reduz a estabilidade ecológica do reservatório.

Reservatórios artificiais estão perdendo oxigênio em escala global, com 74% dos grandes lagos analisados em queda desde 1984 e risco de transformar barragens em zonas críticas para peixes, água potável e emissões invisíveis
Reservatórios artificiais estão perdendo oxigênio em escala global

O estudo destaca que a desoxigenação pode favorecer florações nocivas de algas, perda de biodiversidade e deterioração da água potável. Esses efeitos tornam o problema relevante não apenas para ecologistas, mas também para cidades, hidrelétricas e sistemas de abastecimento.

Reservatórios com baixa oxigenação no fundo também podem liberar fósforo, nitrogênio e metais reduzidos dos sedimentos. Isso retroalimenta a eutrofização e piora a qualidade da água em ciclos difíceis de controlar.

Baixo oxigênio também pode aumentar emissões de metano e óxido nitroso

A desoxigenação tem impacto climático porque muda os processos microbianos dentro da água e dos sedimentos. Em ambientes pobres em oxigênio, microrganismos podem produzir mais metano e óxido nitroso, gases de efeito estufa potentes.

O GEOMAR e outros pesquisadores defendem que a perda de oxigênio aquático seja tratada como uma possível fronteira planetária, porque ela responde ao aquecimento global e também pode interferir em ciclos climáticos, biodiversidade e atividades econômicas.

Reservatórios artificiais estão perdendo oxigênio em escala global, com 74% dos grandes lagos analisados em queda desde 1984 e risco de transformar barragens em zonas críticas para peixes, água potável e emissões invisíveis
Reservatórios artificiais estão perdendo oxigênio em escala global

Esse é o ponto que dá força à pauta. Barragens e reservatórios costumam ser vistos como infraestrutura de água e energia, mas também podem se transformar em sistemas biogeoquímicos ativos, capazes de alterar nutrientes, carbono e gases invisíveis.

O estudo não afirma que todos os reservatórios estão à beira de colapso. A conclusão é mais precisa: a perda de oxigênio é ampla, mensurável e mais rápida nesses ambientes do que em outros sistemas aquáticos comparáveis.

Isso exige monitoramento mais contínuo, porque reservatórios são peças centrais de abastecimento, energia, irrigação e segurança hídrica. Quando o oxigênio cai, o problema não fica restrito aos peixes; ele pode atingir qualidade da água, custos de tratamento e estabilidade ecológica.

A pergunta que fica é quantas barragens ainda são tratadas apenas como obras de engenharia, quando os dados mostram que elas também funcionam como ecossistemas artificiais sensíveis ao aquecimento, ao uso do solo e à pressão humana crescente.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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