O Reino Unido ampliou o uso do esterco de aves na geração de eletricidade, com usinas de biomassa em operação há mais de 20 anos e projetos mais recentes capazes de processar 40 mil toneladas por ano para abastecer indústrias e cerca de 6 mil residências
O Reino Unido vem transformando esterco de aves em eletricidade por meio de usinas de biomassa, em uma estratégia que une gestão de resíduos da indústria avícola e geração de energia para a atividade industrial e, em alguns casos, para residências. A iniciativa ganhou escala ao longo de mais de duas décadas e se consolidou com diferentes projetos voltados ao aproveitamento desse subproduto agrícola.
Durante anos, a cama de aves foi tratada principalmente como um problema ambiental ligado ao grande volume produzido nas granjas.
Esse resíduo reúne excrementos de aves, restos de ração, penas e o material utilizado como cama, o que torna seu manejo um desafio por causa da liberação de nitratos e das emissões associadas à decomposição.
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Reino Unido usa esterco de aves há mais de 20 anos
O país que se tornou referência nesse tipo de aproveitamento energético foi o Reino Unido, onde centrais de biomassa movidas a resíduos de aves operam há mais de 20 anos. Uma das pioneiras foi a Usina Termoelétrica de Eye, inaugurada na década de 1990 e apontada como uma das primeiras experiências de destaque nessa área.
A unidade de Eye alcançou potência próxima de 17 MW e utilizou principalmente resíduos de aves como combustível. Com esse desempenho, passou a ser citada como uma referência global no uso dessa biomassa para geração de eletricidade.
Outro projeto de maior porte foi a usina de Thetford, desenvolvida pela Fibrowatt, com cerca de 38,5 MW de capacidade instalada. Segundo documentação técnica reunida pelo Instituto para a Diversificação e Poupança de Energia, a planta tinha potencial para abastecer dezenas de milhares de residências, embora sem atender “cidades inteiras” em sentido estrito.
Nova planta amplia uso exclusivo da cama de aves
A etapa mais recente dessa trajetória ocorreu em 2024, com a entrada em operação de uma usina em Ballymena, na Irlanda do Norte. A instalação é descrita como a primeira do mundo a funcionar com cama de aves sem mistura com outros combustíveis, marcando uma nova geração de plantas mais especializadas.
A unidade processa aproximadamente 40 mil toneladas de resíduos de aves por ano e produz cerca de 3 MW de eletricidade. Esse volume é apontado como suficiente para abastecer aproximadamente 6 mil residências, ampliando o uso energético de um resíduo antes associado apenas a passivos ambientais.
Além da eletricidade, o projeto em Ballymena também prevê a produção de biometano. O objetivo é substituir parte do gás importado, associando o aproveitamento do resíduo avícola à diversificação da matriz energética.
Como a biomassa transforma resíduos em energia
A geração elétrica a partir de resíduos de aves ocorre por meio de um processo de biomassa que converte resíduos agrícolas em energia utilizável. Na etapa inicial, o material passa por preparação do combustível, com secagem e mistura para homogeneizar a composição antes da queima.
Depois desse tratamento, os resíduos são colocados em uma caldeira industrial e queimados em altas temperaturas. O calor produzido aquece a água em um sistema de tubos e gera vapor de alta pressão, que movimenta uma turbina ligada a um gerador elétrico.
A turbina transforma a energia do vapor em energia mecânica, enquanto o gerador converte esse movimento em eletricidade. Dessa forma, o esterco de aves deixa de ser apenas um resíduo da produção avícola e passa a integrar um sistema de geração energética com uso industrial e residencial.
Benefícios e debate sobre impactos ambientais
O aproveitamento de resíduos avícolas é classificado como biomassa renovável porque utiliza um subproduto agrícola que, de outra forma, geraria emissões e problemas de gestão. Em alguns casos, as cinzas resultantes do processo ainda são reutilizadas como fertilizante, fechando parcialmente o ciclo de utilização.
Ao mesmo tempo, a combustão de biomassa gera emissões de CO2 e partículas, o que mantém aberto o debate científico sobre seu impacto climático líquido. Essa discussão compara esse tipo de geração com outras fontes renováveis, como a eólica e a solar.
A conversão de resíduos de aves em eletricidade mostra como um passivo ambiental pode ser incorporado à produção de energia e à obtenção de subprodutos úteis.
No Reino Unido, a experiência acumulada por décadas e os projetos mais recentes indicam a continuidade dessa rota tecnológica baseada no aproveitamento da cama de aves.
