O reflorestamento no Vale do Paraíba avança com 110 contratos formalizados, cerca de R$ 3 milhões já executados e 1.315 hectares alcançados, enquanto propriedades em Lagoinha e São Luiz do Paraitinga registram recuperação de áreas degradadas, reorganização da produção rural e aumento expressivo da produtividade
O reflorestamento no Vale do Paraíba vem sendo usado para recuperar áreas degradadas, conservar vegetação nativa e ampliar a produção rural em propriedades atendidas pelo Refloresta SP. No Projeto Vale + Verde, já foram formalizados 110 contratos de Pagamento por Serviços Ambientais, com cerca de R$ 3 milhões executados e ações em 1.315 hectares, o equivalente a aproximadamente 93% das metas pactuadas.
Firmado em abril de 2024 com o Consórcio Intermunicipal Três Rios, o contrato do Vale + Verde prevê investimento de R$ 11,4 milhões ao longo de três anos com recursos do Fundo Estadual de Prevenção e Controle da Poluição. A proposta é incentivar produtores rurais a conservar vegetação nativa e converter áreas degradadas, combinando assistência técnica, reorganização do uso do solo e apoio financeiro.
No Sítio Esperança, em Lagoinha, o produtor rural Causio Giovani Figueira, de 43 anos, aderiu ao Programa Refloresta SP em novembro de 2024 e passou a registrar mudanças na produção. A propriedade saiu de um patamar entre 270 e 300 litros de leite por dia para um pico de 700 litros diários, enquanto a média atual, mesmo fora do auge da lactação, está em 550 litros.
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Reflorestamento e reorganização elevaram a produção de leite
Em 2024, o sítio tinha 25 vacas em lactação e ainda não contava com um sistema estruturado de manejo de pastagens. Não havia água distribuída em todos os piquetes, nem divisão adequada das áreas, o que limitava a organização da propriedade e a produtividade.
Depois, com a entrada de oito novilhas filhas das próprias vacas, o rebanho chegou a 33 animais em lactação.
Ao mesmo tempo, foram implantados 13,25 hectares de sistema silvipastoril, modelo que integra árvores, pastagem e criação de gado na mesma área, trazendo melhorias no solo, sombreamento e mais eficiência no manejo.
A propriedade também recebeu ações de restauração em 1,77 hectare e conservação de 0,74 hectare de vegetação nativa. As intervenções incluíram ampliação de piquetes, instalação de bebedouros e plantio de mudas, além de apoio técnico para o manejo das pastagens.
Com essa reorganização, a produção atingiu o pico de 700 litros por dia, crescimento de aproximadamente 159% em relação aos 270 litros iniciais. Atualmente, a média de 550 litros diários ainda representa volume cerca de 103% superior ao registrado antes das intervenções.
Figueira afirmou que o aprendizado técnico foi decisivo para a transformação do sítio e destacou a mudança no fornecimento de água ao rebanho. Ele também relatou que o tanque de 700 litros por dia chegou ao limite no período de maior produção e que agora já estuda a compra de um reservatório maior, com a entrada de mais animais e o aumento contínuo da produção.
PSA garantiu recursos para novos investimentos
O apoio do mecanismo de Pagamento por Serviços Ambientais trouxe segurança financeira para novos investimentos no Sítio Esperança. Segundo o produtor, os recursos ajudaram na irrigação, na melhoria das nascentes e no funcionamento do biodigestor, já que os dejetos passaram a receber tratamento adequado.
O investimento previsto na propriedade é de R$ 70,4 mil, dos quais R$ 20,4 mil já foram executados. Para ele, antes do PSA, qualquer melhoria dependia apenas da renda gerada pela produção, enquanto o apoio atual permitiu avançar na estrutura da propriedade e na gestão da água.
Em São Luiz do Paraitinga, o produtor rural Leandro Mantesso, de 51 anos, comprou o Sítio Raízes I há quatro anos com o objetivo de transformar uma antiga área de pastagem em um modelo de restauração produtiva. A propriedade tem 50 hectares, sendo 15 hectares de mata nativa preservada e 35 hectares anteriormente destinados à pecuária.
Sistema agroflorestal mudou área antes usada para pastagem
No âmbito do Vale + Verde, Mantesso converteu 18,23 hectares de pastagem degradada em Sistema Agroflorestal, modelo que combina espécies agrícolas e florestais na mesma área.
Desse total, 5,35 hectares já estão consolidados, enquanto a propriedade mantém 13,83 hectares de vegetação nativa conservada e 0,35 hectare em restauração florestal.
As ações envolveram cercamento e isolamento de áreas sensíveis, condução da regeneração natural e plantio de mudas. O produtor já recebeu R$ 20,3 mil em Pagamento por Serviços Ambientais para a execução do SAF, e o investimento previsto no imóvel é de R$ 80,4 mil.
Há três anos, Mantesso começou um projeto piloto de agrofloresta em cinco hectares com foco na produção de café, além de espécies frutíferas e madeireiras. No ano passado, outros cinco hectares passaram a ser convertidos, totalizando dez hectares em processo de transição do pasto para o SAF.
Ele relatou que a diferença entre as áreas é nítida durante as chuvas, porque no pasto a água escoa superficialmente, enquanto no SAF ela infiltra no solo. Também observou o retorno mais intenso de abelhas, insetos e aves, além de mudanças na rotina de trabalho das pessoas envolvidas, que passaram a aprender outra forma de lidar com a natureza e com a agricultura.
Política estadual reúne metas, recursos e expansão do reflorestamento
O Projeto Vale + Verde integra a carteira de iniciativas do Refloresta SP, coordenadas pela Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. A política estadual reúne ações no Vale do Paraíba, na Serra da Cantareira e em outras frentes construídas por meio de parcerias com municípios e projetos apoiados por diferentes fontes de financiamento.
Somadas, essas ações abrangem cerca de 37,7 mil hectares em restauração no território paulista entre 2023 e 2026. Desse total, 14,7 mil hectares, ou 39%, foram executados em 2025, contribuindo para a meta do Plano Estadual de Meio Ambiente de alcançar 37.500 hectares até 2026, com aproximadamente R$ 45 milhões já executados com recursos do Fecop, da Arsesp e do GEF.
A secretária da Semil, Natália Resende, afirmou que as ações acompanhadas no Vale do Paraíba mostram que é possível unir conservação ambiental e fortalecimento da produção rural. Para a diretora da DBB, Patrícia Locosque Ramos, o PSA é um instrumento estratégico de transição produtiva, por criar condições para reorganizar a propriedade, recuperar áreas degradadas e aumentar a produtividade com conservação.
No Vale do Paraíba, região historicamente marcada pela degradação da Mata Atlântica desde o ciclo do café, a política pública busca reverter passivos ambientais e fortalecer a produção rural e a segurança hídrica. Nesse cenário, o reflorestamento aparece como eixo central de uma estratégia que combina conservação, recuperação de solo, proteção da água e reorganização produtiva no campo.
