Cortes na geração de energia renovável causaram prejuízo de R$ 1,69 bilhão ao Rio Grande do Norte em 11 meses de 2025, evidenciando falhas na transmissão e no planejamento do sistema elétrico nacional.
Os números mais recentes do setor elétrico colocaram a geração de energia renovável no centro de um debate urgente. Entre janeiro e novembro de 2025, o Rio Grande do Norte acumulou um prejuízo estimado em R$ 1,69 bilhão devido aos cortes obrigatórios de produção, conhecidos como curtailments. Os dados são da consultoria Volt Robotics, com base em informações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
O estado potiguar liderou o ranking nacional de perdas ao longo do período analisado. Em novembro, repetiu o desempenho negativo de outubro e manteve a posição de unidade federativa mais afetada pelos cortes na geração de energia eólica e solar.
Além disso, os números mostram que, apenas em novembro, o Rio Grande do Norte deixou de aproveitar 28,99% de sua capacidade de geração. O Ceará apareceu logo atrás, com perdas de 28,81%, enquanto Minas Gerais registrou 25,47%. Já no mês anterior, outubro, a situação havia sido ainda mais grave no território potiguar, quando quase metade da capacidade instalada, 45,99%, foi interrompida.
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Curtailments se espalham e elevam prejuízo nacional
Embora o foco esteja no Rio Grande do Norte, o problema é nacional. Segundo a Volt Robotics, o Brasil acumulou mais de R$ 6 bilhões em prejuízos com cortes de geração de energia ao longo de 2025. No período, o país perdeu cerca de 20,6% de sua capacidade potencial de produzir eletricidade renovável.
O levantamento aponta que a maior parte dos cortes ocorreu em usinas eólicas. Em novembro, 72% da energia interrompida vinha do vento, enquanto 28% eram de usinas solares. O relatório “Curtailment 2025: retrospectiva e projeção” destaca que o país viveu, entre agosto e outubro, três recordes consecutivos de cortes, um cenário considerado inédito até então.
“Durante agosto, setembro e outubro, o Brasil viu algo inédito: três recordes consecutivos de cortes de geração renovável. […] Uma combinação de fatores estruturais (crescimento acelerado das renováveis, sobretudo da geração distribuída), operacionais (rede não foi planejada adequadamente) e conjunturais”, aponta o documento.
Falhas de transmissão limitam a geração de energia
Os cortes na geração de energia ocorrem, principalmente, quando a oferta supera a demanda em determinados horários ou quando as linhas de transmissão não conseguem escoar a eletricidade produzida. Esse descompasso entre produção, consumo e infraestrutura tornou-se mais frequente à medida que o parque renovável cresceu de forma acelerada, especialmente no Nordeste.
A região concentra mais de 70% da geração eólica do país e tem ampliado rapidamente a capacidade solar. Entretanto, a expansão da rede elétrica não acompanhou o mesmo ritmo. Como consequência, o ONS é obrigado a determinar interrupções para preservar a segurança do sistema.
Crise eólica pressiona investimentos e novos projetos
Para Hugo Fonseca, secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Norte, 2025 escancarou a crise enfrentada pelo setor eólico. Segundo ele, o cenário é marcado por excesso de oferta, dificuldades de conexão e paralisação na comercialização de novos projetos.
“E, para agravar a situação, tem o curtailment, que impacta nos custos dos projetos que já estão em operação”, afirma. O secretário destaca que os cortes reduzem a previsibilidade financeira e comprometem a atratividade dos empreendimentos já instalados.
Leilões de transmissão surgem como alternativa
Apesar do quadro adverso, o governo estadual avalia que surgiram sinais de avanço. Fonseca aponta os leilões de linhas de transmissão realizados em 2025 como uma possível “luz no fim do túnel”. No ano passado, cinco compensadores síncronos foram contratados para o Rio Grande do Norte.
Além disso, o Leilão nº 01/2026, previsto para março, deve incluir dois novos compensadores, nas subestações Ceará-Mirim II e Açu III. Esses equipamentos ajudam a estabilizar o sistema e ampliar a capacidade de escoamento da geração de energia renovável.
Ainda assim, o secretário ressalta que a solução estrutural não será imediata. “São estruturas grandes, que demoram em média de dois a três anos [para ser instaladas]. Teremos um cenário de resolução, do ponto de vista estrutural, lá para 2029”, explica.
Setor cobra compensação financeira pelos cortes
Além da infraestrutura, há um impasse econômico em discussão. Geradores afetados pelos cortes defendem mecanismos de compensação financeira. Esse debate ganhou força no Congresso Nacional e no Ministério de Minas e Energia.
Francisco Silva, diretor-técnico regulatório da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), avalia que 2025 foi um dos anos mais difíceis para o segmento. Segundo ele, o volume de cortes levou empresas a desistirem de projetos e devolverem outorgas. “Mais para o final do ano, a gente percebeu um movimento de muitas das empresas desistindo de alguns projetos”, afirma.
Consulta pública e marco regulatório entram em cena
O Ministério de Minas e Energia abriu uma consulta pública, com duração de 15 dias, para discutir regras de compensação pelos curtailments. A iniciativa se apoia na lei sancionada em 2025 que modernizou o marco regulatório do setor elétrico.
O texto legal incluiu o artigo 1º-B na Lei nº 10.848, reconhecendo a possibilidade de compensação dos custos relacionados à indisponibilidade externa e a requisitos de confiabilidade elétrica. A medida vale retroativamente desde setembro de 2023 até a entrada em vigor da Lei nº 15.269, em novembro de 2025.
Enquanto isso, especialistas avaliam que a geração de energia renovável seguirá crescendo, mas dependerá cada vez mais de planejamento, expansão da transmissão e regras claras para evitar que a eletricidade limpa continue sendo desperdiçada.


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