Faixa do litoral paulista volta a registrar contaminação por esgoto em plena alta temporada, expõe falhas estruturais antigas, mobiliza moradores e autoridades e levanta dúvidas sobre os impactos do saneamento incompleto em uma orla marcada por empreendimentos milionários e sistemas desiguais.
Uma faixa da praia de São Lourenço, em Bertioga, no litoral paulista, voltou a apresentar sinais de contaminação por esgoto em pleno auge da temporada de verão, reacendendo alertas sanitários em um dos trechos mais valorizados da região.
A situação preocupa moradores, banhistas e famílias que frequentam a orla onde há apartamentos avaliados em mais de R$ 10 milhões, especialmente pela recorrência de episódios semelhantes nos últimos anos.
O problema ganhou maior visibilidade depois que a Cetesb hasteou bandeira vermelha em frente ao Jardim São Lourenço, indicando água imprópria para banho em um ponto sensível da praia.
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Poucos dias depois, a Prefeitura de Bertioga multou a Sabesp em R$ 100 mil por um vazamento de esgoto que, segundo relatos de moradores, atingiu a rede de águas pluviais e acabou desaguando no mar.
Bandeira vermelha expõe risco sanitário na praia
Em um curto trecho da orla, dois bairros com realidades distintas compartilham a mesma faixa de areia, mas não a mesma infraestrutura.
De um lado está a Riviera de São Lourenço, bairro planejado de alto padrão que opera um sistema privado de saneamento frequentemente citado como modelo.
Logo ao lado, o Jardim São Lourenço convive há décadas com falhas de esgotamento sanitário e drenagem, problemas que passaram a ser associados a sucessivos episódios de contaminação da água do mar.
A classificação de água imprópria para banho segue critérios técnicos definidos a partir de coletas semanais realizadas sempre nos mesmos pontos.
O alerta é emitido quando são detectados níveis elevados de enterococos, bactéria indicadora de contaminação fecal e risco à saúde dos banhistas.
Entre os parâmetros considerados estão a presença de mais de 100 colônias por 100 ml em pelo menos duas de cinco semanas, ou acima de 400 colônias por 100 ml em uma única medição.
Na primeira semana de janeiro, período de maior concentração de turistas, a bandeira vermelha foi instalada a poucos metros do córrego que marca a divisa entre os dois bairros.
Apesar de o monitoramento seguir pontos fixos, o comportamento das correntes marítimas não respeita limites administrativos, ampliando a apreensão de quem frequenta outros trechos da praia.
Com isso, moradores temem que a carga de coliformes fecais registrada próximo ao córrego avance ao longo da orla.
A preocupação aumenta diante de um fator operacional relevante.
Não existe ponto oficial de monitoramento semanal da companhia ambiental imediatamente em frente à Riviera de São Lourenço.
Dessa forma, mesmo com a sinalização concentrada no Jardim São Lourenço, permanece a incerteza sobre a real extensão da contaminação na praia.
Multa de R$ 100 mil e histórico de falhas no esgoto
No sábado (24), a Prefeitura de Bertioga aplicou multa de R$ 100 mil à Sabesp em razão de um vazamento registrado na rede de esgoto.
Segundo moradores, o extravasamento atingiu a rede de drenagem pluvial e foi conduzido diretamente ao mar.
Em nota, a companhia informou que se tratou de uma “ocorrência pontual”.
A Sabesp atribuiu o problema à obstrução da tubulação causada pelo descarte irregular de lixo e afirmou que uma manutenção emergencial regularizou o sistema.
Ainda assim, o episódio reforça um histórico de reclamações sobre extravasamentos em períodos de chuva intensa.

Relatos também mencionam ligações irregulares de esgoto conectadas às galerias de águas pluviais.
Como essas estruturas têm o oceano como destino final, qualquer falha acaba funcionando como um atalho direto para a poluição da praia.
Cloro no córrego evidencia solução paliativa
Diante da repetição de problemas, a Riviera instalou uma mangueira sob a ponte do córrego que separa os dois bairros.
O equipamento passou a despejar cloro na água antes que ela alcance o mar, em uma tentativa de reduzir a carga contaminante.
Embora a iniciativa tenha caráter preventivo, a medida evidenciou a tensão entre o bairro planejado e a vizinhança que enfrenta déficits estruturais antigos.
No verão de 2025, a situação chegou a um ponto crítico.
Naquele período, o trecho da praia permaneceu impróprio para banho por sete semanas consecutivas.
O cenário coincidiu com o avanço de novos empreendimentos imobiliários na região, ampliando o contraste entre valorização imobiliária e infraestrutura deficiente.
“Frequento essa praia há 30 anos e nunca vi nada parecido”, afirmou o morador José Carlos Maduro Júnior, de 39 anos.
Segundo ele, o crescimento urbano ocorreu sem que pendências antigas fossem resolvidas.
“Ficaram pendências de infraestrutura e, com o crescimento do bairro, surgiram os problemas”, disse.
Estação elevatória ausente cria gargalo estrutural
O principal nó técnico do impasse está na infraestrutura prevista para atender à expansão imobiliária do Jardim São Lourenço.

Os primeiros grandes condomínios do bairro foram construídos no início dos anos 2010 por Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário, Phoenix e SRW.
Um acordo firmado entre construtoras, Sabesp e prefeitura condicionou novos empreendimentos à ampliação do sistema de saneamento.
O compromisso previa a implantação de redes de drenagem, coleta de esgoto e três estações elevatórias.
Essas estruturas seriam responsáveis por bombear os dejetos até uma estação de tratamento.
Uma das estações, no entanto, nunca foi construída.
Na prática, parte da rede passou a coletar esgoto sem um destino final definido, criando um gargalo crônico.
Em dias de chuva, quando o sistema opera sob maior pressão, o resultado são transbordamentos e lançamentos indevidos.
Deficiências na drenagem urbana e ligações irregulares agravam ainda mais esse quadro.
Responsabilidades em disputa e atuação do poder público
Wilson Roberto da Silva, presidente da Associação do Jardim São Lourenço e Itaguaré, atribui o atraso da obra à falta de liberação do terreno.
Ele também é proprietário da construtora SRW, responsável pela estação elevatória pendente em parceria com a Phoenix.
Segundo Silva, a liberação do espaço pela prefeitura ocorreu apenas em outubro de 2025.
O dirigente afirma não haver conflito em acumular as duas funções.
A Prefeitura de Bertioga informou que a construção da estação elevatória é condição para a concessão do Habite-se de um novo empreendimento da SRW.
Já a Sabesp sustenta que a obra é essencial para o funcionamento do sistema. A companhia, contudo, afirma que a responsabilidade pela execução não é dela.
Em paralelo, o Ministério Público de São Paulo informou que conduz um procedimento sob sigilo.
A apuração trata da impropriedade da praia em razão de problemas de esgoto e drenagem no Jardim São Lourenço. O órgão também cobrou da Sabesp a apresentação de um cronograma de obras.
Mobilização de moradores amplia pressão institucional
A insatisfação da comunidade avançou para o campo institucional e jurídico. O engenheiro Heverton Faria, morador da região, lidera uma petição sobre o tema.
“É um absurdo o que acontece ali. Um vai empurrando para um lado, outro vai empurrando para outro, e as coisas vão ficando como estão”, afirmou.
Ele disse que pretende acionar o Gaema, do Ministério Público de São Paulo. A iniciativa reúne mais de mil frequentadores da praia de São Lourenço.
A petição menciona Sabesp, Cetesb, prefeitura e construtores envolvidos. A pressão resultou em uma reunião realizada no último dia 19.
O encontro reuniu o prefeito Marcelo Vilares (União), representantes de secretarias municipais, Sabesp, moradores e empreendedores.
Segundo participantes, houve promessas de encaminhamentos para solucionar os problemas estruturais.
Essas falhas afetam diretamente o Jardim São Lourenço e, de forma indireta, a Riviera de São Lourenço.
Maduro Júnior avalia que a repercussão acelerou respostas do poder público.
“Sem dúvida a pressão dos moradores fez efeito, e começaram a se mexer. Além disso, a bandeira vermelha é algo muito impactante, que desta vez circulou nas redes por meio de influenciadores”, disse.
Ele acrescentou que, embora sem apresentar evidências, tem a impressão de que a Riviera também exerceu pressão institucional.
Segundo ele, o bairro de alto padrão tem grande influência na região.
Se a praia é a mesma e o mar mistura tudo, o que ainda falta para que a balneabilidade deixe de depender de soluções improvisadas?


Desviar todo dejeto humano para reflorestamento ,e plantio de eucalipitos para celulose e carvão .para produçao de cana para etanol.NADA PARA CONSUMO HUMANO.A